terça-feira, 9 de junho de 2009
Pra não enlouquecer eu me agarro às lembranças amarelas daquele tempo, realmente, amarelo e cheio de vida. Eu tinha 8 anos e nada era grande demais pra mim. Eu era grande demais pro resto das pessoas de 8 anos, mas a simplicidade da altura pretensiosa me fazia ser o centro do universo, o mundo inteiro correndo em volta do meu umbigo. E eu corria só pra ver todo mundo correndo atrás, eu chorava só pra causar espanto e ninguém saber o que fazer. Eu provava que era a pessoa mais intensa e bem resolvida que alguém já viu aos 8 anos. Eu já escrevi um monte de bobagens num diário cheio de coraçõezinhos e cadeados. Eu sonhava um pouco, acordava um pouco e nunca dormia sozinha. Ninguém pode ser perfeito o tempo inteiro. À noite eu me permitia grunir de medo. Do escuro, do mundo, das minhas células auto destrutivas que, vez ou outra, ainda tentam me seguir.Pra não enlouquecer e perder as esperanças, eu agarro aquele fio colorido que me dá calmaria e frio na barriga de viagem de carro. Sem enjoos, sem dramin, sem cheiro de pic nic no carro. Eu só coloco a cabeça pra fora, abro bem a boca e deixo o ar entrar lá no fundo. Fecho os olhos e fico imaginando o ar entrando gelado até quase explodir o pulmão. É sensação de vida pura. Na sua maior simplicidade. Sem todo o resto que eu vivo dizendo baixinho que anda tão errado. Não to aprendendo a deixar todo o resto de lado e passar a dizer baixinho o quanto eu ainda to viva. Antes dos 22 anos, depois de todas as tormentas que eu já fiz aqui dentro. Ainda to tão viva, procurando todos os motivos e insentivos pra continuar a ser "eu".Eu não saberia ser você. Enquanto você estaciona o carro sem manobras, eu preciso de um pouco mais de prática, mas, uma vez estacionado, nunca mais vou tirar do lugar. Eu não saberia ser você. Enquanto eu cheiro as intenções, você derrama lamentações. Eu to saindo do lugar, andando dois passos pra direita, mudando os móveis de lugar. Já não sinto mais os mesmos cheiros, não enxergo os mesmos ângulos. Sou cada vez mais "eu", do jeito mais simplesmente complicado que eu consigo.
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