segunda-feira, 12 de abril de 2010

O dia amanheceu amarelo

Segundas feiras sempre foram contraditórias. Alice sempre foi contraditória. Enquanto acredita que final de semana é só uma trégua cruel pra te lembrar que, em breve, a vida volta a começar numa segunda feira, acorda empolgada com o novo cd e dá bom dia rindo pro stress no trânsito. Claro que essas duas coisas não acontecem na mesma segunda feira. Mas isso faz com que ela não consiga entender se na verdade sofre ou não tem problemas com o começo da semana.

Às vezes ela prefere as sextas, às vezes os sábados. Difícil achar um padrão. Uma comida preferia, uma cor preferida, uma banda preferida. Servem as boas? Um pouco de pretensão sempre foi parte do seu charme.

O despertador tocou pontualmente às 6 e 40. Mais 10 minutos de enrolação na cama e o dia precisa começar de verdade. Alice acordou com aquela música na cabeça. O refrão, a sensação de calmaria, a tranquilidade, a sorte de estar apaixonada sem estar apaixonada.

- A vida é muito doida, quando eu já não sei mais o que sentir, começo a querer coisas que eu nem sabia que existiam. "You make me dance like a fooooool, forget how to breath..."

O dia amanheceu claro, o céu azul, o sol quentinho da manhã é realmente inspirador. Todas as pessoas com suas pressas incontroláveis, seus atrasos irremediáveis. Alice sempre teve uma queda pelo tempo que voa, se atropela. Fazer mil coisas ao mesmo tempo e mil tempos em uma só coisa. A maturidade a fez perceber que a tranquilidade é um caminho seguro, mas pular da cama, trocar de roupa e tirar o carro da garagem em 10 minutos a mantém, certamente, mais viva.

O ar gelado da manhã parece abrir todos os pedaços de qualquer corpo disposto a se entregar. Um suspiro fundo, olhos bem abertos, o coração começa, finalmente, a bater. O dia começa de verdade. Um copo de café e umas besteiras com sono.

- Minha mãe sempre falou sobre gostar de segundas feiras. Não é possível que eu já tenha alcançado essa proeza. Será que depende de mim ou eu tive um sonho realmente bom durante a noite? Ahhh... amar sem estar amando, apaixonar-se sem estar apaixonado. Que coisa mais maluca. Você já viu disso?

Alice divagava todos os dias com uma versão sonolenta de uma amiga no banco do passageiro. Enquanto segura o volante só com uma mão e apóia o cotovelo na janela. Rindo sozinha e deixando tudo para ser concluído mais tarde. Gosta de ter no que pensar antes de dormir. Talvez o pensamento da noite anterior a tenha deixado bem humorada. Talvez o dia de sol, Freud explica tudo.

- Freud é o cara! Eu queria tê-lo conhecido. Faria boas perguntas pra ele. E tenho certeza que ele diria já tê-las respondido com a arrogância típica e sedutora de um gênio. Ele certamente sabe porque acordei assim. Teria boas explicações pros meus sonhos que nem eu lembro. Teria alguma idéia que me tiraria o sono e me daria ainda mais motivos pra rir de manhã. Talvez seja essa música que não me sai da cabeça... "oooh, you make me smile". É ela que me faz sentir as borboletas no estômago sem a ansiedade destrutiva desse sentimento que eu sempre somatizo. Sem que eu imagine o mundo morrendo amanhã e a última noite de amor hoje. Sem que eu chore o luto de um amor que ainda não morreu, mas que eu preciso matar antes que morra dentro de mim, por não suportar a dor de perder mais uma vez. É a música... definitivamente é a música, eu não consigo parar de cantarolar na minha cabeça e, em todas as vezes, meu coração dá um saltinho de felicidade tranquila, igual eu aprendi a sentir há pouquíssimo tempo.

Um minuto de silêncio pelas recordações que a música, o sentimento, Freud, o caminho, o carro, a núvem, o cachorro, o poste ou qualquer coisa trouxeram à tona.

Ela fechou o vidro do carro enquanto fazia a última curva pra entrar no estacionamento. Reunindo todas as idéias num banco de dados, armazenando com letras luminosas a fim de resgatá-los posteriormente.

- Você pensa demais.

Foi uma conclusão interessante e inteligente da amiga sonolenta que mal abria os olhos.

- Jack me entenderia.

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