A nova tática de vida é exatamente aceitar em todas as ocasiões tudo que eu me torno a cada dia. A cada dia porque as coisas mudam. Pode ser que hoje eu me satisfaça com francas e confusas confissões e amanhã volte a me divertir às custas de uma personagem quase eu, que não sou eu, mas me permite quase ser, por questões aprendidas há pouco.
Desde que experimentei o primeiro dia de frio em Curitiba, percebi que preferia o calor. Desde que experimentei um ano novo sem ar condicionado em Florianópolis, percebi que não sobrevivo à ele. E agora eu me confundo entre detestar o frio que faz doer todas as minhas dobrinhas e odiar o calor que assa a parte de dentro das minhas pernas no verão quando eu quero usar vestidos que me deixam com cara de mocinha que confecciona seus próprios vestidos de trigo e colhe girassois no campo. E sinto calor só de pensar em colher qualquer coisa no sol. Aprendi que minha pele se tornou sensível ao calor. Seria efeito do aquecimento global que transformou Curitiba numa cidade quase derretida nessa época ou a menopausa se aproximando precocemente, resultado do lado velho de 80 anos e, inexplicavelmente, tardio?
E agora eu me confundo com tudo que é quase, com tudo que pode ser e não é, com tudo que é mas não pode ser ou que pode vir a ser um dia. E aí eu acabo ficando sempre metade, no meio termo, pra não ter discussão. Assim como numa briga de um casal de amigos, sem poder tomar partido. Assim como uma psicóloga moderna que não culpa a mãe, mas sabe que, no fundo, a culpa foi dela. Assim como o meio do caminho e sempre duas opções, sejam boas, ruins, ou boas e ruins. Eu sempre tive uma queda pelo e/ou.
Eu não sei quem criou a humanidade e adoro o ceticismo das ciências que tenta explicar tudo com coisas, quase sempre, palpáveis. Mas fico na dúvida quando preciso de uma proteção que venha de cima, porque é sempre maior do que qualquer que possa vir dos lados. E aí, nessas horas, eu até tento acender a luz, que me impede de dormir direito, mas tudo isso só me leva a fechar os olhos com bastante força e tentar achar a calmaria nos pedidos divinos no meio da madrugada. Inexplicávelmente e, "explicavelmete" para a ciência, o pesadelo some, o medo some, o sono volta e eu fico feliz.
A felicidade que se desmonta e monta em pedacinhos, sem a fugacidade voraz dos 15 anos, sem os jogos de paciência dos 80. Simples assim, como num email respondido em poucas palavras, como num pedido divino atendido sem explicação, como num beijo na testa no meio da noite, enquanto as mãos se procuram e se acham, e se encaixam, e se enlaçam e não se soltam. Até que nasça o dia e todos os pesadelos se escondem com medo da luz do sol, enquanto eu fecho os olhos bem forte só pra fingir que ainda é noite e não sair da cama.