As luzes não foram acesas e Alice parece uma sombra sem feições. Quase um filme de terror.Sua cabeça gira muito rápido.
Dessa vez não são os pensamentos, não são os medos. Não foi nenhum pesadelo que a tirou da cama. Maldita insônia, maldito mês de setembro. A chuva lá fora faz as janelas produzirem um som irritantemente calmo. Alice se joga na pia, molha as duas mãos na água gelada e passa em seu rosto. Esfrega tanto seus olhos que consegue ver estrelas brancas no escuro do banheiro. Sua imagem no espelho fica ainda mais desfigurada.
Num ato não planejado e nem ao menos pensado, Alice curva seu corpo e vomita na pia. Permanece de olhos fechados com medo de nunca mais parar de vomitar. Tateia no escuro a procura da torneira e só depois de longos 20 segundos consegue abrir os olhos.
Finalmente acende as luzes e se percebe brilhando. Seus olhos brilham, sua pele brilha. Parece mais esticada que o normal. Seus dedos da mão direita parecem mais roliços.
Não há o que questionar. Alice não sabe o que e nem por que vomitou.
O dia anterior não marcou nenhuma grande bebedeira nem orgia gastronômica com novidades apimentadas ou derivadas do leite.
Ela volta a deitar e não dorme. Até que o despertador toca e o mundo acorda de verdade.
O mundo até parece que encoraja as novas decisões. Alice quase consegue conversar com as músicas no rádio.
Hoje não é dia de Radiohead. Hoje é um dia apagado e sem propósito. 29 de setembro de 2009.
Ela precisa respirar muito fundo e sente o ar quase explodindo seus pulmões e, ainda assim, parece não ser suficiente. O mundo parece despressurizado.
Aquele calor de novo, os olhos não encontram nada que seja confortável olhar. As mãos no volante tremem, ela precisa coçar os olhos, segurar a garganta. Choraminga sem motivos ao som do novo sucesso do Latino. Não há forças pra mudar a estação de rádio, não há vontade de sair do lugar, ainda que o trânsito impessa qualquer movimento rápido.
Ela ajeita o retrovisor a fim de ver seu rosto pálido, suas olheiras profundas, seus lábios sem cor. Inexplicavelmente seus olhos continuam brilhando.
Alice alternava as horas do seu dia em ânsias de vômito e choramingos sem intenções. O dia passou sem propósito. Ela não consegue mais dormir, não sente vontade de permanecer deitada. Deve ser uma doença grave ou alguma dessas coisas psicológicas que viraram moda no moderno século 21. Ou então as ressacas de hoje em dia estão durando mais tempo.
Amanhã é dia de médico. Maldita quinta feira. Véspera de quase final de semana.
O dia nasce nublado, como de costume. Alice não abre os olhos pra ver o mundo, não se olha no espelho. Sente-se admirada com suas proporções aumentadas, sente-se inexplicavelmente feliz e entusiasmada.
Bendita sexta feira. É véspera de final de semana. É dia de ficar feliz sem mais explicações.
O consultório médica traz algumas lembranças recentes. Quem diria que todo o problema do passado estaria somente no passado. E agora a única coisa que restava era uma pequena cicatriz. E as lembranças.
Alice não se lembra de sentir medo, mas lembra da ansiedade destrutiva que sempre a acompanhou.
Alice sente um misto de alívio e frustração. Ao mesmo tempo que se sente feliz por não ter nenhum problema grave de saúde, sente-se frustrada por não saber a origem de todo o desconforto que já durava dias.
Antes que Alice pudesse cogitar a possibilidade das ressacas durarem mais tempo hoje em dia, ouviu um pequeno conjunto de palavras, seguidas de um silêncio ensurdecedor.
E agora tudo fazia um pouco mais de sentido. O estômago deu um salto maior do que de costume. O ar deu uma fugida dos pulmões e o coração parou subitamente de bater.
Alice fechou os olhos e deixou cair duas lágrimas, respirou fundo sem conseguir distinguir quais eram os sentimentos. Permaneceu uma eternidade em silêncio.
- Agora falta pouco. Só falta escrever um livro.