sábado, 4 de abril de 2009

Felicidade é uma questão de ponto de vista

Eu não fiz porra nenhuma do que eu prometi fazer. Não saí do lugar, de novo. Não sei qual a celular estúpida que eu tenho aqui dentro que ainda me faz dar os mesmos murros na mesma ponta de faca. Se ainda mudassem os murros... ou as facas. Mas não, é tudo igual, igual, igual.
Um dia de cada vez, até parece reunião do AA.
Um passo atrás do outro, até parece uma criança aprendendo a andar.
É assim que as coisas funcionam. A gente aprende a mesma coisa mil vezes durante a vida e continua sem saber exatamente o que fazer.
Por exemplo, alguém no meu prédio tenta aprender a música do Titanic na flauta há mais de uma semana e erra sempre a mesma nota, que eu até já sei qual é. Fico esperando o erro e batata... ela erra!
É assim que as coisas funcionam. Todo mundo vê onde você vai errar, todo mundo avisa, todo mundo alerta, você vai lá e batata... erra! Cai, tropeça, despenca. Se ainda fosse de bebedeira, mas não, cai de sobriedade, de preguiça dessa vida, de medo de ficar parada, medo de andar de costas sem olhar pra trás. Medo de sair de fininho e ninguém notar minha ausência.
Medo de sair correndo e chamar demais a atenção. Aí todo mundo vai saber que eu fugi. Não que eu me importe, mas isso me coloca num papel de vítima frágil que eu adoro fazer... e pode ser bem perigoso.
A menina desce do carro com a roupa nova, espera bater o vento nos cabelos, fecha um pouquinho os olhos, passa a lingua entre os lábios, deixa-os semi abertos e joga a cabeça pra trás. Igualzinha a mocinha da novela. E ela consegue o que quer, só porque usa um batom vermelho e um salto alto. E a menina não consegue porque é muito branca pro batom vermelho e muito alta pro salto. E nada sai igual. E o mundo ri da sua falta de prática, da sua falta de jeito.
Ela senta no meio fio e chora. E agora não se importa que o mundo lhe dê o papel de mocinha abandonada. Porque é justamente isso que ela é. Enquanto o mundo gira por aí pra alguns, para outros ele permanece parado, flutuando num espaço quase inexistente.
Respirar fundo ajuda, tomar um porre ajuda, chorar até quase se afogar também ajuda. Mas o que ajuda mesmo é que o vermelho até me deixa um pouquinho mais corada. O que ajuda mesmo é ver uma baixinha se equilibrando no salto e sofrendo com as calçadas irregulares.
Até o maior tombo tem seu lado positivo.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Um, dois...

Vou tomar um banho quente em outra casa e vou deixar outro homem me ver nua. Vou deixar que outros tempos, que não o nosso, passem, e deixar que outras esquinas, que não as nossas, sejam quebradas. A noite corre normal sem a gente, e parece até mais leve, parece um apaziguamento, um reinício de vida. A vida sem você é uma chuva absurda que remexeu sarjetas e valetas, mas secou, trazendo de longe o divertimento quase uníssono de crianças num parque qualquer. Tudo fica mais doce sem a ansiedade da felicidade, tudo parece um livro de desenhos para colorir, e eu sei lidar melhor com ele. Eu carrego as cores e pinto sem ninguém me mandar respeitar os limites das linhas. A senhorinha do restaurante nasceu para servir minha mesa, e essa constatação não me fez sentir culpa por essa certeza frustrada que carrego de ser o centro do universo. Ela me viu com o outro, e a partir desse momento, criamos uma intimidade que ela soube valorizar me dizendo que formávamos um belo casal. Ninguém me jogou uma pedra, ninguém cuspiu em mim e as ruas até que fluíram amigas para que a gente andasse de mãos dadas e cantasse músicas bregas, desviando de lixos. O ar e o silêncio me deram a preguiça necessária para eu deitar em outra cama e relaxar do meu amor enlouquecedor por você. A tão sonhada paz, que não sinto ao seu lado, chegou. E eu dormi finalmente sem precisar saber onde você estava e no que você estava pensando. Eu respirei e eu não senti o vácuo assustador do meu espírito. É mais fácil viver longe de você. É mais fácil acordar feia e isso ser só mais uma visão da vida. É mais fácil dormir sem querer alcançar a vida ao lado, porque é preciso morrer um pouco para dormir e eu odeio essa sensação de intensidade absurdamente viva que eu sinto cada vez que miro um pedaço seu, espalhado no seu mundo entreaberto. Nenhum pensamento meu tem o poder de te machucar, nenhum mundo para onde eu vá tem o poder de te causar desespero. E eu preciso te sentir na minha ratoeira, eu preciso atirar nas suas asas que sobrevoam meu sossego. Você sempre me deixa, mesmo ficando colado comigo. Eu preciso sentir tormento alheio para desocupar o lugar da atormentada. Eu preciso ter a certeza que no seu ponto perdido no espaço ainda não mora outro rosto. O amor tem uma cara feia pra mim, de tormenta, de escuridão, de labirinto. E eu não consigo acreditar no seu jeito feliz de me amar, no seu jeito feliz de achar que tudo bem entregar um peito a outro ser que voltou ao mundo porque ainda não tinha aprendido a viver. Quando a gente ama, a gente entrega a alma para alguém que não sabe direito nem o que fazer com a própria. Por isso eu agora estava ali, coberta do cheiro alheio, para ver se eu me defumava de outras intenções, o suficiente para fechar os poros das nossas portas. Eu queria morrer ali, ao lado de outro homem. Ainda que nenhuma célula do meu corpo permitisse a proximidade de outro batimento cardíaco, outro bafo e outro estalar de dedos das mãos. Eu queria congelar aquele momento sem luz, aquele momento em que, aos poucos, eu sentia meu corpo e todo o resto feito de espírito voltar ao meu centro. A nossa morte que me retornava à minha vida. Eu queria que a manhã chegasse aos poucos, matando você sem que eu acordasse e, finalmente, no café da manhã, eu tomaria um suco de laranja com a minha existência livre da sua. Eu queria não acordar e lembrar que ainda preciso conquistar você, porque você brinca de ser meu, mas mora do outro lado mundo. E eu não sou atleta e nem forte para correr tanto e tão longe, por isso gostaria de destruir tudo o que é seu do meu mapa. Eu tenho muita preguiça do seu olhar de "já sei o que é sofrer, agora posso viver sem medo porque descobri que eu não morro". Eu já sofri por aí, mas ainda morro muito, todo dia eu velo meus restos e conto uma piada para ninguém perceber. E eu queria relaxar da terra em cima da minha cabeça só para variar um pouco. Eu estava deitada numa cama imensa que poderia ser minha, e o vento soprava vozes que me diziam "tudo aqui pode ser só seu e pra sempre". Aos poucos fui lavando meu cérebro de você, e torcendo para os restos da limpeza caírem no meu coração, acabando de vez com o serviço. Fui trabalhando meu corpo para esvaziar todas as suas pistas da minha história. A maior felicidade para mim é sentir uma coceguinha de proteção no centro do meu estômago, uma borboletinha da alegria, uma paz imensa que emana do meu centro enquentando até os dedos do pé e os fios de cabelo. Essa alegria foi nascendo, igual a quando eu sabia amar apenas como filha, porque ele me deixou ficar carente e imaculada, como uma criança. A escuridão foi me invadindo e calando neurônio por neurônio, grito por grito da minha angústia. Eu já estava me acostumando com a vida assim, a vida quente e confortável do chão firme e certo. O quente do amor conquistado e sólido e não da paixão quebrada em milhões de pedaços indecifráveis que eram jogados por um desconhecido, como num jogo de dardos, no meu coração estampado numa parede descascada. Mas eu sonhei que você me descobria, me via deitada ali com a pele arrepiada e suspiros de esperança de um novo amor e eu te dizia: eu não deixei ele encostar em mim, eu sou tão sua, que merda, eu sou tão sua. E você, sem alterar a expressão eterna do seu orgulho inabalável, apenas me olhava com pena e me dizia que tudo bem. Mas não está tudo bem, sabe? Eu preciso ver sofrimento no meu líder para saber que sigo um apelo humano. Eu cansei de alisar sua escultura de pedra. Eu cansei de ser perdoada, compreendida e aceita. Eu cansei do mundo evoluído, porque eu sou bicho e esse mundo evoluído me humilha demais. Alguém aí pode admitir que essa merda de vida dá um medo filho da puta, e que ficar longe de tudo dói, e que ficar dentro de tudo dói, e que estar aqui, agora, dói pra cacete? Alguém aí pode admitir por um segundo a inveja, o cansaço, o ciúme, a dor, a porra toda que essa química causa no nosso cérebro quando se espalha sem pedir permissão e joga essa doença toda pra cima da gente, a gente que estava calmamente vivendo nossa vidinha idiota? Alguém aí pode deixar de segurar na muleta social do divertimento, jogar copos longe, cigarros longe, bocas alheias, fugazes e desconhecidas longe, roupas longe, colares e pulseiras longe, poses e armações de sutiãs longe,…? Alguém pode me dar um murro na boca e me prender ao pé da cama, por favor?

segunda-feira, 30 de março de 2009

Eu sou feliz pra sempre

Eu quero a cóceguinha que as bolhinhas de champagne fazem no nariz. Quero jogar a taça pra trás no final do brinde, tapar os ouvidor e fazer aquela cara de "ai fodeu", esperando o barulho do cristal espatifando no chão. Quero olhar pra trás e comemorar dando pulos e gritinhos frenéticos, dançando de um lado pro outro com a minha saia rodada que levanta o maior vento no meio das minhas pernocas. Eu quero girar, girar, girar, ficar tonta, sair andando pela grama, cair no molhado, sujar a roupa nova e ficar com aquela cara de "ai fodeu", esperando a mãe brigar e puxar as orelhas. Quero morrer de fome num jantar de formatura que eu cheguei cedo demais e não deu tempo de fazer aquela boquinha. Quero comer com a sensação de que toda a comida do mundo vai acabar em 10 segundos e eu preciso comer tudo que conseguir. Quero deitar no sofá de barriga pra cima e ficar imaginando meu estômago respirando com a lingua de fora, morrendo de raiva porque eu sempre passo dos limites.
Quero passar a tarde inteira brincando de barbie, imaginando como deve ser a trepada de dois bonecos que não tem sexo, igual aos anjos. Quero questionar tudo pelo simples prazer de dizer "não". Só pra ver todo mundo ficando bravinho, perdendo o controle, esquecendo os argumentos convincentes que eu já tinha acreditado. Quero fazer cócegas nos pés de uma criança e morrer de rir com a carinha dela rosa, respirando com a lingua de fora, igual um filhotinho de cachorro.
Quero colocar 10 babaloos na boca de uma vez pra não conseguir mastigar e nem fazer bolinhas. Quero a coisa mais azeda do mundo pra sentir aquela pontada no final da lingua e os olhos enchendo de água, depois a sensação de ter a boca mais doce do mundo.
Quero quebrar uns brinquedos e pedir pra minha mãe comprar mais. Quero comprar uma bolsa nova porque as meninas da escola tem bolsas novas e eu cansei de ser brega com essa bolsa que foi da minha avó. Quero tirar vantagem de tudo e de todos. Dizer alto que a bolsa custou o dobro do que foi de verdade. Quero todo mundo olhando pra mim e eu me sentindo o ser humano mais querido da face da terra, esquecendo da culpa por ser feliz sem culpa.
Quero jogar na cara dos menininhos que não quiseram me namorar que agora eu tenho peitos e as menininhas podem até começar a me invejar. Porque além de peitos eu tenho cérebro. Dez a zero pra mim!
Eu quero correr até perder o fôlego e parar com as mãos apoiadas no joelho e sentir que o coração tá prestes a pular pela boca. Quero correr até sentir dor no baço, até ficar com a mão em cima dele e quase morrer de preguiça.
Eu quero achar o tal príncipe encantado que eu li uma vez numa historinha sem graça e sem sentido. Eu quero acreditar que isso existe e viver esperando na janela ele aparecer com uma versão moderna e motorizada do cavalo branco.
Eu quero morrer de preguiça, quero morrer de rir. Quero morrer de fome, de sono, fechar os olhos sem perceber, falar dormindo, sonhar acordada.
Quero dormir até meio dia, comer sem culpa, ser feliz sem culpa, amar sem culpa.
Eu quero ser feliz pra sempre!

Dois comprimidos, um murro na boca e um sono bem tranquilo

Eu não vou permitir que você me deixe tão vazia agora. Eu não vou abrir as portas pra você sair correndo mais uma vez, agora você fica e quem determina isso sou eu, cheia de razão, cheia de amor pra te dar, segura e inabalável. Morrendo de medo, tremendo tanto que mal consegue parar em pé, chorando por dentro, soluçando igual a uma criança sem nem conseguir falar. Respirando fundo e contando até dez, esperando em qual segundo eu vou desabar e te entregar os pontos. Ouvindo minha própria cabeça apostando contra mim. Quanto tempo eu vou levar pra cair no choro, pra sentir aquele nó no fundo da garganta, aquela facada no meio do peito. Quanto tempo eu vou levar pra me jogar nos pés e implorar pra você não ir.
Por favor, não vai embora agora. Espera anoitecer um pouco mais, você sabe o quanto eu me sinto sozinha quando o dia tá deixando de ser dia e virando noite. Espera eu te preparar o jantar, te comprar uma cerveja gelada, te servir um whisky caríssimo que eu comprei só pra você. Espera eu colocar aquela música que você adora, me vestir como você adora, ser quem você adora.
Me dá uma chance de te fazer feliz.
10 minutos. Talvez até um pouco menos. E lá vou eu correndo com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudanças. Lá vou eu mendigar um pouco do seu amor que nunca foi meu. Rastejar aos pés, lamber o chão, deixar você pisar em mim. Lá vou eu despida de armaduras, de forças, de determinação. Você me faz fraquejar e eu nem sei mais quem eu sou sem você.
Talvez uma magrela sem graça, perna demais, nariz demais, gritos demais.
Talvez uma branquela sem peito, sem bunda, sem sal.
Talvez uma menininha sem cor, sem vida, sem utilidade.
E lá vai você andando com a sua pose de homem. Lá vai você fingindo que é mais bem resolvido que eu, cheio de pose. Lá vai você chorando por dentro, por outros motivos, se perdendo, se esquivando. Lá vai você morrendo de medo de ficar, deixando um pedaço seu e me levando embora com você.
Lá vai você. E aqui fico eu, te amando tanto que até deixo você ir!

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