sexta-feira, 3 de julho de 2009

Trem da alegria

Ele dança descaradamente e ela é tão feliz. Não poderia amar mais esse homem, não, não é o tipo de homem que ela amaria até se cegar, até virar as costas pro mundo, até perder as apostas. Mas está feliz nessa uma semana, ou duas, um mes, seis meses, ainda não sabe direito. Porque ele é tão feliz, tão mais feliz do que ela jamais foi. Ele realmente curte bobeiras na internet, coisa de quem não fica na varanda questionando o mundo inteiro só porque é feliz ali, dentro de alguma lógica maluca da sua cabeça.
E fica feliz se come hamburguer todos os dias no almoço e na janta. Feliz por causa de um hamburguer! Faz aquela cara de “delicinha que é viver”. E tem covinhas nas bochechas e não tem cara de cansaço puro. Ele só se sente bem em estar vivo. Isso. Ele acorda cedo, toma banho, veste a cueca cantando, coloca uma meia branquinha e dá bom dia pro mundo. Come o hamburguer do dia, beija o mundo perto da orelha e tudo permanece com aquela sensação de frio às quatro da manhã podendo dormir mais 3 horas antes de enfrentar o mundo. E ele se sente muito bem com a vida e consigo mesmo, com o seu corpo, com o seu cabelo. E por isso, ela anda feliz que só nesses dias. Mas com certeza ela não poderia amar esse homem. Ela nem mesmo, pra falar a verdade, o admira. Não, admirar ela admira, porque tá aqui de boca aberta olhando pra ele e curtindo estar nessa vida de amaciante e pão quentinho.
Mas ela só ama, e aí sim é a certeza de sentir algo maior e com futuro (e passado), a certeza de poder viver ao lado dele, essa história que nem é dela.
A certeza de voltar pra casa e encontrar as luzes apagadas, respirar fundo e meditar a pureza das coisas que ela aprendeu a viver nas condições mais absurdas.
Ele a espera, lava seu cabelo, cobre suas costas, a devora o tempo todo, dorme se encaixando em suas pernocas. E sabe que qualquer garoto na sua vida, é só mais um garoto bobo que lhe deu chance de ser um pouco mais boba do que sempre é. Eles não passam disso. E dentro da sua segurança de duzentos mil infinitos anos, sabe que jamais será trocado.
Ele pede o hamburguer e come fazendo gemidinhos de programas vespertinos de culinária.
E enfia as mãos por dentro da sua blusa, achando que ela precisa ser acesa o tempo, pra não sucumbir a essas coisas gélidas que atravessam o mundo. E ri, o tempo todo, ele ri, como é feliz! E ela embarca em mais um trem (às vezes fantasma, desse vez da alegria) mesmo enjoando a maior parte do tempo. Ela vai porque é preciso ter histórias, viver coisas, sair de casa. Sempre se sente ocupando de favor o lugar da personagem real que está doente ou enlouqueceu. Assim que coloca o pé pra fora, vira uma substituta de qualquer um que sabe viver. Uma coadjuvante dela mesma que rouba a cena porque os engracados sempre roubam. Experimenta as pessoas como experimenta comidas esquisitas, “tá, deixa eu ver que gosto tem, mas não muito”.
Assim que chega em casa e abraça seu único e verdadeiro amor, seu silêncio, é ela mesma e nada pode dar errado ou acabar. Ele ri mais um pouco, segura firme nas suas mãos, ela quero ficar, ele não sabe se deve, ela está amando e super feliz de brincar de amar e ser feliz, mas olha, daqui a pouco acaba e ela precisa voltar pra ele. O silêncio. Ela sempre volta pro silêncio. Mas agora acelera aí, apita, solta fumaça, sei lá como é andar de trem, mas ela sempre anda.
Vamos ver até onde ela aguenta dessa vez.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ela não tem medo de nada. Os olhos fixam no horizonte e as palavras vão entrando e saindo pelos ouvidos sem causar nenhum dano. Vez ou outra o coração acelera, as mãos tremem, mas tudo é disfarçado por uma imensa onda de tranquilidade. Ninguém nem acredita que agora ela só conversa. E só chora em último caso, nas situações mais extremas. Ela aprendeu a segurar o choro, contar as palavras, respirar fundo e contar até dez. Aprendizados intensivos concentrados em apostilas compactas nos últimos 6 meses.

Ela prefere não contar pra ninguém. Tudo é uma questão de tempo, você sabe tanto quanto eu que tudo isso vai passar. E se não passar? Ela se pergunta baixinho, como todas aquelas questões esquisitas que nunca ninguém responde. Com a cabeça jogada no travesseiro, nada mais parece ter explicação que caiba, que sirva, que sustente.

Ela sai de salto alto pela primeira vez em anos. Ataca de mulher sedutora com sombra azul nos olhos. Ninguém nota quando por baixo de toda a produção existe um poço fundo de incertezas que mancham qualquer passado bonito. O futuro não existe mesmo, não há o que discutir. Espera! Só quem pode saber sobre o futuro são suas projeções futuras, ninguém mais precisa saber, consegue ver? Ninguém precisa presumir o quanto vai ser promissor ou o quanto os travesseiros vão nadar em lágrimas. Ninguém.

Vive aqui. Do jeito que der. Tropeçando nas calçadas, quebrando o salto, mas com duas mãos pra segurar. Pra perder o medo de morte, o medo de frio, o medo de escuro. Pra chorar o tempo perdido, o tempo que ainda há pra se ganhar.

Você não sabe nada, menina burra. Você mete os pés pelas mãos e chuta o balde antes de terminar de encher. Você só sabe chorar. Você é tão burra!

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