quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mantive o pedido firme. Enquanto a garçonete underground me encarava, tirava minhas medidas e se perguntava o que uma menina mal vestida, com cara de menino fazia sozinha sentada numa mesa de bar pedindo um chocolate quente nesse calor.

Aí eu notei o quanto eu sou masculina às vezes e o quanto eu quero passar despercebida pelo mundo. Contrariando todos os ensinamentos da minha sábia mãe, que me dizia pra me arrumar nem que fosse pra ir até a padaria, o amor da minha vida pode estar lá na fila do pão.
Nesse caso ele não estava no bar e eu só queria um chocolate quente pra encher a cara do meu estômago e ele sossegar um pouquinho.

Eu continuava firme com o pedido, sabendo que as mocinhas da mesa ao lado falariam da minha roupa, do meu cabelo despenteado e do livro que, supostamente, eu estava lendo.

Enquanto eu me perdia pensando no que o mundo poderia estar pensando, uma voz mole e meio azeda perguntou se tinha alguém sentado ao meu lado. Eu avaliei se queria que alguém sentasse ao lado e visse o frio mais frio da minha existência naquela noite quente ou se preferia me divertir tentando adivinhar as falas da mesa ao lado... sozinha.

Avaliei o por que do cara querer sentar justo na minha mesa. Ele não sabia que eu tava esperando um chocolate quente e nem que tava lendo um livro estúpido de auto ajuda só pra ver como as pessoas se sentem sendo incentivadas a viver.

Eu já tinha passado dessa fase. Freud me ensinou que ninguém tem o poder de motivar ninguém, e aí eu passei a ser uma discípula inveterada e achar tudo que se intitula como "auto ajuda" é uma bobagem.

Imaginei o que ele tinha pensado pra ir até a minha mesa. Se era um espírito salvador achando que eu realmente precisava de ajuda, dadas as circustancias. Ou se era mais um louco obsessivo e atraído por esquistices. Ou ainda podia ter marcado nenhuma das alternativas anteriores com um x bem grande na letra "C".

Eu sorri imaginando o quanto eu julgaria uma pessoa sentada sozinha sem nenhum sinal de estar esperando alguém. Pode ter levado o maior bolo da história e não gosta de sentar no balcão e beber pinga.

Enquanto eu sorria ele se sentou, usando meu sorriso como um passe livre pra aproximação. Ele não disse nada e eu passei os próximo 20 minutos tentando descobrir qual é a dessa humanidade.

Eu sorri e ele não sorriu em troca, nem quis saber nada a meu respeito. Certamente não notou o livro, nem as roupas de menino, o cabelo despenteado e o chocolate quente. E eu ali querendo, ao mesmo tempo, me esconder do mundo e ter todos os meus detalhes notados por um completo estranho numa mesa de bar qualquer.

Eu morri de rir sozinha e comecei a escrever num guardanapo uma porção de piadinhas sem graça pra fazer o sujeito rir.

Eu mesma ria das minhas besteiras e o máximo que ele fazia era me olhar com um jeito calmo quase fraternal. Sem alterar as feições do rosto, sem demonstrar aprovação, sem me deixar pistas do que estava pensando. Apenas me deixando ir, permitindo que eu continuasse com o meu showzinho cheio de estripulias.

A mesa ao lado sorria tentando me resgatar de qualquer tentativa de dar passos maiores que as minhas pernas. A garçonete under me fitava de longe esperando o chocolate quente esfriar antes que eu terminasse de beber.

Até que eu me cansei. Levantei, agradeci ao público, às palmas e à ele.
Por toda a paciência do mundo.

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