quarta-feira, 8 de julho de 2009

"Ai que prazer não cumprir um dever"

Eu odeio tudo que precisa ser feito na hora, tudo que tem prazo. Não cumpro. Não por maldade, mas por puro esquecimento. Essa semana esqueci de pagar a bendita multa que já peguei pela segunda vez com os livros da faculdade. É, eu devolvi o livro fora do prazo e não paguei a multa no prazo.

Uma vez uma psicóloga da escola falou que eu preciso pensar em tudo que tenho pra fazer e dividir meu tempo em quadradinhos imaginários, onde eu possa anotar mentalmente tudo que eu tenho pra fazer. Uma outra vez alguém me ensinou a fazer notas mentais. É, um post-it virtual, armazenado na pasta "tarefas do dia", dentro do meu cérebro. Eu até gostei da brincadeira, mas, pra mim, funciona igual amarrar fitinha no dedo, eu sei que preciso lembrar, mas não lembro o que. Aliás, quem foi que inventou essa da fitinha, coisa mais besta. Eu quase perdi a ponta do dedo quando era pequena porque amarrei forte demais. Devia ter amarrado outra em outro dedo pra sempre lembrar de amarrar a fitinha com menos força.

Eu adoro a psicologia e seus truques baratos. Eu não sou uma pessoa prática, não sou organizada e jamais vou conseguir cortar meu tempo em quadradinhos coloridos e cheirosos com os meus afazeres com letreiro luminoso em vermelho brilhante. Eu vou me formar e breve e preciso achar uma alternativa mais proveitosa.

E adoro Fernando Pessoa com sua liberdade e seus livros com tinta deixados de ler.

Eu odeio pessoas metódicas que precisam fazer tudo na hora. Só existem algumas coisas que precisam ser imediatas assim. Fazer xixi, que eu faço até na rua se não tiver outro jeito, comer, porque fome me deixa num mau humor detestável e sexo, porque toda hora é hora e todo lugar é lugar. Mentira, no sexo eu ainda peco por um excesso de pudores, que nunca me impediu de saciar a vontade. Escadaria do prédio, elevador, ruas escuras na madrugada, ruas claras à luz do dia e por aí vai.

Odeio pessoas que fazem sexo fazendo pose. Transar é que nem comer manga, se você cortar em 24 quadradinhos perfeitos e comer educadamente de garfo, já deu tempo de ela secar. Bom mesmo é fiapo no dente e queixo babado.

Odeio meninas alisadas, de unhas feitas, cheias de postura e educação. Meninas meigas que dão alergia pela quantidade de maquiagem, que não descem do salto e adoram encher os amigos de tapinhas por sua falta de modos. Meninas que jamais falam "ai, meu caralho", mas tratam garçons mal e adoram olhar bunda de homens, bem ali onde guardam a carteira.

Adoro um bom palavrão. Eles bem usados são uma excelente economia de terapia.

É assim mesmo que eu vou tentar salvar a humanidade quando me formar psicóloga! Pronto, entreguei de onde vem tanto questionamento.

Peitos e peitos

O dia amanheceu faz tempo. Dá vontade de sair da cama e fazer alguma coisa útil. Minha bexiga tá cheia, quase explodindo de vontade de fazer xixi. Mas eu sei que só vou levantar quando não aguentar mais. Aí vou correndo pro banheiro, apertando uma perna contra a outra.

Hoje é o dia mais difícil da minha vida. Quanto exagero. Quanta vontade lá no fundo que não, eu não coloco em prática. Quanta falta de vida nas olheiras no espelho do banheiro. O plano era não falar de mim, mas eu não consigo enxergar nada além da minha bolha de egocentrismo nesse momento. Não que eu seja feliz ostentando tanto drama. É só porque eu não quero e nem tento sair do lugar.

Talvez eu perca um pedaço de mim em breve. Talvez os belos peitos fiquem desproporcionais e ninguém mais note que são originais. Viva o silicone, a beleza de grandes peitos para todas as mulheres do planeta. Viva o cirurgião plástico modelando qualquer forma.

Faz tanto sol hoje e eu só consigo pensar em encher a cara de cerveja e não voltar mais pra casa.
Eu tenho tanto medo de morrer. Quando era pequena chorava e tinha que dormir "no meinho" porque duvidava de qualquer possibilidade de morte que pudesse me encontrar ali. Hoje eu não tenho medo de morte, mas de qualquer coisa que possa me tirar daqui.

Ainda que eu tenha um lado bem resolvido que vai pra balada de tênis e sem tomar banho, tem um lado que sofre e chora com medo de deixar de ser mulher, com medo de notarem mais o meu nariz, com medo de não seduzir mais professores e garçons com meus decotes.
Alguém me disse, na tentativa de não me deixar voltar pra casa, que eu era mais mulher por não me render ao salto alto. Ganhou pontos. Então o tamanho do peito também não importa, a forma, a cor do cabelo.
Do mesmo jeito, Tem um lado que senta no chuveiro sozinha e fica soluçando com medo de nunca mais conseguir parar.

E pensar que antigamente o único medo era andar sozinha por aí no escuro. Para isso, meu pai me deu uma lanterna. E, enquanto eu procuro uma mão pra segurar, tento ser auto suficiente e comprei um vibrador!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

And so it is...

Pedro chegou no carro da mãe. Desceu com a simplicidade estampada na camiseta de banda de rock dos anos 80. Alice sorriu retribuindo a simplicidade com um scarpin vermelho puro verniz. Lembrou da sua mãe dizendo que ele pode não ser tão alto quanto ela e os 7 cm do sapatinho podiam fazer com que ela parecesse um travesti.

Ela torceu pra que ele tivesse mais de 1 e 80 e naquele exato momento alguém fez com que ele crescesse bons 10 centímetros. Nada como pensamento positivo à essa altura da vida.

Ele não abriu a porta pra ela entrar no carro, e ela, torcendo pra ele que fosse exatamente o oposto do último namorado, agradeceu em silêncio às forças do universo conspirando a seu favor. Só faltava ele colocar qualquer coisa com voz boêmia que era certa a paixão. Ele escolheu Alice in Chains, brindando ao nome de sua futura esposa.

O bar só tinha gente esquisita, ficava no final daquela rua que Alice bateu o carro da última vez e isso só deu margem pra mais uma conversa individual sem nenhuma pretensão. Pretensão em falta da parte dela. Pedro não conseguia tirar os olhos do decote que Alice escolheu minuciosamente entre suas 345 blusas todas iguais.

Ele lembrava de todos os peitos que já tinha visto na vida e tentava encaixar os de Alice em algum padrão. Não, não ia pra lista dos grandes e nem pequenos demais. Certamente ia pra lista dos deliciosamente suculentos e chupadas em potencial.

Enquanto ela se encantava com o jeitinho dele de fechar um pouco os olhos pra escutar melhor tudo que ela tinha pra dizer.
Não que Alice falasse demais, Pedro só não queria ouvir absolutamente nada naquele momento.

Ela pediu um chopp igual ao dele e ele ficou admirado com a rapidez que os dois logo pediam o décimo.

Alice classificava Pedro na lista dos sorrisos bonitos e cabelos limpos. Pensava, entre um botão e outro, e tentava imaginar Pedro pelado, não sentia vontade de rir, mas sorria super sacana e Pedro só se deixava hipnotizar sem relutar.

A quantidade de pêlos no peito avaliada pela quantidade de pêlos nas mãos e nos braços expostos pela camiseta dos Rolling Stones.

Ela também fechava os olhinhos pra imaginar com mais detalhes.

O batom não era vermelho mas ela mordia tanto os lábios que era como se fosse. E ele se perguntava como uma mulher podia mudar tanto sua fisionomia em poucos segundos.

Ela ia de menina sem jeito no portão de casa, à intelectual citando nomes que ele nunca nem tinha ouvido falar. De menina meio homem bebendo cerveja de pernas abertas, à gostosona fogosa de peitos de fora. De dúvidas, à certezas. Do boteco ao motel.

Ela queria ser diferente dessa vez. Não queria ter frescuras. Sentava com as pernas dobradas em cima da cadeira, fumava um cigarro atrás do outro, falava de sexo como quem fala de bebidas, quase igualando os prazeres.

E ela era assim mesmo, gostava de ajudar a carregar as compras do mercado, sabia jogar vídeo-game e sempre dormia depois do sexo. Ao mesmo tempo que gostava de encaixar a cabeça no peito e detestava futebol.

Contava, sem nenhum pudor, todos os pudores dos últimos namorados. Só não conseguiu dizer que estava na maior seca da história há um ano e meio. Desde que seu último namorado resolveu experimentar a vida e esquecer o papo de casamento. Ela não queria casar e tentava convencê-lo de que ainda tinham muito pra viver.

Ela foi tão convincente que ele achou que precisava achar vida em outros corpos, outras bocas.

Ela colocava as pernas pra baixo, cruzava uma por cima da outra e apertava com bastante força. Sentia o corpo inteiro tremer e aquelas vozes estúpidas tentando decidir se era o cara ou não era o cara.

Ao mesmo tempo, ela fazia as contas de quanto tinha gastado pra estar linda naquela noite.

Foram setenta reais do corte de cabelo, oitenta e cinco da depilação de axilas, meia perna, virilha e buço. Cento e quinze da roupa nova, vinte e três e oitenta pra arrumar o solado do sapato. Vinte reais de escova. Vinte e nove e noventa no batom que se dizia importado. E sessenta da conta que ela tinha acabado de rachar.

Caralho! Quase 400 pau pra ela não ter nem certeza se ia ou não abrir as pernas??

O Pedro só vestiu a camiseta que a mãe deixou lá dobrada na gaveta, a calça companheira de balada que já usa há uns bons dois anos e um tênis que pode estar novo, pode estar velho e ninguém nem vai notar. Pelo menos ele borrifou perfume na jaqueta jeans, o que já diferenciava dos outros tantos que já passaram pelo mesmo lugar.

Ela pediu um sinal divino pra decidir o que era melhor pra acabar a sua noite e o garçom veio com a boa notícia de mais um chopp saideira.

Isso era bom porque iam ficar mais bêbados e mais propensos ao sexo, ou mais bêbados, menos conscientes, cabeças girando e ela não ia conseguir nem manter os olhos fechados pra um primeiro beijo na boca.

A voz da experiência optou pelo sexo que é bom em qualquer ocasião. Com álcool, sem álcool, com vontade, sem vontade, com amor, sem amor.

Ela botou em prática tudo que já tinha dito sobre ser bem resolvida em todas essas questões.

Entrou no carro, beijou a boca, sentiu o cheiro do perfume e se deixou levar pra qualquer lugar.

Ele não deu tempo pra que houvesse uma mudança de idéias no meio do caminho.

Era sábado, o mundo cheira sexo, a cidade exala sexo, todas as pessoas querem e fazem sexo.

Alice acabou com a seca de um ano e meio. Pedro se deu "benzasso", com "a mina que saiu no sábado", como contou pros amigos na segunda feira no final da reunião com os diretores da outra filial.

Ele nunca vai saber o longo caminho que ela percorreu pra chegar até ali. E ela até imagina que nem precisava ter tirado o decote do armário.

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