Pedro chegou no carro da mãe. Desceu com a simplicidade estampada na camiseta de banda de rock dos anos 80. Alice sorriu retribuindo a simplicidade com um scarpin vermelho puro verniz. Lembrou da sua mãe dizendo que ele pode não ser tão alto quanto ela e os 7 cm do sapatinho podiam fazer com que ela parecesse um travesti.
Ela torceu pra que ele tivesse mais de 1 e 80 e naquele exato momento alguém fez com que ele crescesse bons 10 centímetros. Nada como pensamento positivo à essa altura da vida.
Ele não abriu a porta pra ela entrar no carro, e ela, torcendo pra ele que fosse exatamente o oposto do último namorado, agradeceu em silêncio às forças do universo conspirando a seu favor. Só faltava ele colocar qualquer coisa com voz boêmia que era certa a paixão. Ele escolheu Alice in Chains, brindando ao nome de sua futura esposa.
O bar só tinha gente esquisita, ficava no final daquela rua que Alice bateu o carro da última vez e isso só deu margem pra mais uma conversa individual sem nenhuma pretensão. Pretensão em falta da parte dela. Pedro não conseguia tirar os olhos do decote que Alice escolheu minuciosamente entre suas 345 blusas todas iguais.
Ele lembrava de todos os peitos que já tinha visto na vida e tentava encaixar os de Alice em algum padrão. Não, não ia pra lista dos grandes e nem pequenos demais. Certamente ia pra lista dos deliciosamente suculentos e chupadas em potencial.
Enquanto ela se encantava com o jeitinho dele de fechar um pouco os olhos pra escutar melhor tudo que ela tinha pra dizer.
Não que Alice falasse demais, Pedro só não queria ouvir absolutamente nada naquele momento.
Ela pediu um chopp igual ao dele e ele ficou admirado com a rapidez que os dois logo pediam o décimo.
Alice classificava Pedro na lista dos sorrisos bonitos e cabelos limpos. Pensava, entre um botão e outro, e tentava imaginar Pedro pelado, não sentia vontade de rir, mas sorria super sacana e Pedro só se deixava hipnotizar sem relutar.
A quantidade de pêlos no peito avaliada pela quantidade de pêlos nas mãos e nos braços expostos pela camiseta dos Rolling Stones.
Ela também fechava os olhinhos pra imaginar com mais detalhes.
O batom não era vermelho mas ela mordia tanto os lábios que era como se fosse. E ele se perguntava como uma mulher podia mudar tanto sua fisionomia em poucos segundos.
Ela ia de menina sem jeito no portão de casa, à intelectual citando nomes que ele nunca nem tinha ouvido falar. De menina meio homem bebendo cerveja de pernas abertas, à gostosona fogosa de peitos de fora. De dúvidas, à certezas. Do boteco ao motel.
Ela queria ser diferente dessa vez. Não queria ter frescuras. Sentava com as pernas dobradas em cima da cadeira, fumava um cigarro atrás do outro, falava de sexo como quem fala de bebidas, quase igualando os prazeres.
E ela era assim mesmo, gostava de ajudar a carregar as compras do mercado, sabia jogar vídeo-game e sempre dormia depois do sexo. Ao mesmo tempo que gostava de encaixar a cabeça no peito e detestava futebol.
Contava, sem nenhum pudor, todos os pudores dos últimos namorados. Só não conseguiu dizer que estava na maior seca da história há um ano e meio. Desde que seu último namorado resolveu experimentar a vida e esquecer o papo de casamento. Ela não queria casar e tentava convencê-lo de que ainda tinham muito pra viver.
Ela foi tão convincente que ele achou que precisava achar vida em outros corpos, outras bocas.
Ela colocava as pernas pra baixo, cruzava uma por cima da outra e apertava com bastante força. Sentia o corpo inteiro tremer e aquelas vozes estúpidas tentando decidir se era o cara ou não era o cara.
Ao mesmo tempo, ela fazia as contas de quanto tinha gastado pra estar linda naquela noite.
Foram setenta reais do corte de cabelo, oitenta e cinco da depilação de axilas, meia perna, virilha e buço. Cento e quinze da roupa nova, vinte e três e oitenta pra arrumar o solado do sapato. Vinte reais de escova. Vinte e nove e noventa no batom que se dizia importado. E sessenta da conta que ela tinha acabado de rachar.
Caralho! Quase 400 pau pra ela não ter nem certeza se ia ou não abrir as pernas??
O Pedro só vestiu a camiseta que a mãe deixou lá dobrada na gaveta, a calça companheira de balada que já usa há uns bons dois anos e um tênis que pode estar novo, pode estar velho e ninguém nem vai notar. Pelo menos ele borrifou perfume na jaqueta jeans, o que já diferenciava dos outros tantos que já passaram pelo mesmo lugar.
Ela pediu um sinal divino pra decidir o que era melhor pra acabar a sua noite e o garçom veio com a boa notícia de mais um chopp saideira.
Isso era bom porque iam ficar mais bêbados e mais propensos ao sexo, ou mais bêbados, menos conscientes, cabeças girando e ela não ia conseguir nem manter os olhos fechados pra um primeiro beijo na boca.
A voz da experiência optou pelo sexo que é bom em qualquer ocasião. Com álcool, sem álcool, com vontade, sem vontade, com amor, sem amor.
Ela botou em prática tudo que já tinha dito sobre ser bem resolvida em todas essas questões.
Entrou no carro, beijou a boca, sentiu o cheiro do perfume e se deixou levar pra qualquer lugar.
Ele não deu tempo pra que houvesse uma mudança de idéias no meio do caminho.
Era sábado, o mundo cheira sexo, a cidade exala sexo, todas as pessoas querem e fazem sexo.
Alice acabou com a seca de um ano e meio. Pedro se deu "benzasso", com "a mina que saiu no sábado", como contou pros amigos na segunda feira no final da reunião com os diretores da outra filial.
Ele nunca vai saber o longo caminho que ela percorreu pra chegar até ali. E ela até imagina que nem precisava ter tirado o decote do armário.