quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Escrever um filho, plantar um livro e ter uma árvore




Acho que o merthiolate que não arde não adianta nada.

Sempre piso na divisória da calçada.

Eu já esqueci de baixar o freio de mão e só percebi quando parei o carro.

Eu calço primeiro o pé direito.

Passei anos sem tomar coca cola, não sei por quê.

Às vezes eu enjoo de chocolate.

Eu quero aprender a jogar gamão.

Não gosto de legenda branca nos filmes.

Sou a favor de gordura trans, do colesterol do mal e adoro o Coringa.

Eu gosto de Los Hermanos, mas ejooei.

Eu gosto de rúcula, mas enjoei.

Eu gosto de brócolis, de verdade.

Eu acho que sou boa pra contar histórias.

De vez em quando fico dependente de sorine.

E nem por isso respiro melhor.

Eu acredito que o homem foi pra lua.

Gosto de palhaços.

Não gosto do subway.

Não tenho vontade de surfar, nem pular de pára-quedas e coisas do tipo.

Eu queria ser cantora e acho que canto super bem.

Gosto de óculos enormes e todo mundo acha exagerado.

Eu já tentei usar um menor, mas ele quebrou.

Demorei pra aprender a olhar as horas no relógio.

Queria ter nascido em véspera de feriado.

Pretendo um dia ganhar na mega sena.

Só joguei twister uma vez na minha vida.

Demoro pra me acostumar com as novidades tecnológicas.

Eu mato o cara que inventou o pernilongo.

Um dia ainda vou ser mais legal e mais sexy.

Não gosto de pombas e animais que voam.

Não gosto de filme de terror.

Ás vezes durmo com a luz acesa.

Não passo em baixo de escadas.

Não gosto de elevadores de obras.

Gosto do miojo com caldinho.

Uma vez eu vomitei fanta uva e nunca mais consegui tomar de novo.

Uma vez eu vomitei vodka e ela não saiu mais da minha vida.

Não sei jogar sinuca.

Aprendi a jogar poker!

Quero casar em Las Vegas, baby!

Quero escrever um filho, plantar um livro e ter uma árvore.

domingo, 2 de agosto de 2009

A primeira noite

E os olhares se chocaram como numa batida de carros. Alice viu de relance uma luz forte e atribuiu à todos os clichês da vida moderna e às paixões à primeira vista. Ela sentiu o corpo todo esquentar inexplicavelmente no frio da noite Curitibana.

O rosto ficou vermelho na hora. Alguém na mesa percebeu, olhou em volta e perguntou sem parar qual era o motivo da vergonha. Ela riu sem graça e, por mais que quisesse entregar o ouro aos amigos lobos que adorariam devorar sua timidez com piadas o resto da noite, tinha medo que ele pudesse ler seus lábios.

Ele, o menino de sorriso branco e camiseta vermelha. Ele tinha a segurança que ela tanto admirava nos homens. Cheios de pose, de certezas, pra se revelarem meninos frágeis e sensíveis quando as luzes se apagavam, sem perder a força pra lhe jogar os braços na parede e erguer suas pernas.

Alice havia desligado o telefone há pouco. Era uma decisão difícil deixar todo o passado pra trás. Ela ainda secava umas duas lágrimas que passaram despercebidas. Sentia o coração palpitando e as mãos tremendo. E agora ficara meio cega com a combinação de vermelho e branco logo mais em sua frente.

Ele não havia notado o espírito calejado e a vontade de Alice de não sair do banheiro. Mas ele sabia que também poderia admirar uma mulher que mordia o canto da boca e franzia as sombrancelhas olhando pro nada, esperando que qualquer outro entrasse, menos ele. Talvez quem ela estivesse esperando ainda não tivesse nome, mas agora já ganhou até apelido.

O menino de sorriso branco e olhos assustadoramente verdes sorriu em sinal de cumplicidade à sua bebedeira e à qualquer outro sentimento que marcava a linha exata de contato entre os dois.
Alice respirou fundo e virou o resto do copo de vodka em cima da mesa. Acendeu um cigarro e vestiu aquela pose que fez com que ele risse.

Minutos depois ele dizia o quanto a pose de mulher perua e bem resolvida combinava com a sua falta de jeito e as pernas grandes demais pra ficarem em baixo da mesa como a maioria das mulheres faz.

Existia um ponto estratégico e comum para uma primeira conversa cheia de pretensões. Uma escada no meio do caminho. Um banheiro masculino estratégicamente posicionado ao lado do feminino e uma simples intenção de se levantar.

Ele disse que não sabia qual cantada barata usar porque ela parecia cansada demais pra ouvir. Ela riu e confessou que só ouvira "blá, blá, blá".

Alice sabia como descontrair uma primeira conversa. Alice sabia como seduzir um homem sem precisar se expor. Alice sabia mentir dizendo a verdade, sabia confundir tentando compreender.
Eles decidiram dividir uma mesa e os amigos. Dividiram mais que isso, cigarros, cervejas, vodkas, risadas, histórias. Eles tinham aproximadamente 22 anos de conversa pra colocar em dia e a noite parecia perfeita pra não acabar.

Eles trocaram telefones e um demorado beijo na boca assim que ela se virou pra se despedir de um dos amigos. Ele segurou firme sua nuca e ela soltou a cabeça em suas mãos. Ele beijou sua testa e a chamou de menina, andando de costas ao encontro dos amigos. Enquanto ela não soube o que dizer e acompanhava sua saída.

"Nunca mais vou ver esse homem na minha vida" disse ela baixinho.

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