sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Obrigada.

Eu não conheço você. Não sei como é o seu jeito, seu dia-a-dia, não sei como você se comporta. Não sei como você sorri ou gargalha. Não conheço sua voz. E nem faço a menor idéia de como você trata seus namorados ou fala ao telefone. Eu não sei dos seus trejeitos, manias, não conheço a forma como você anda. E, provavelmente, eu estranharia ao lhe ver rindo e falando um dia.

Mas...

Eu conheço um lado seu, bem íntimo até, do qual não abro mão de admirar. Eu conheço alguma coisa de "você", as suas ideologias, a forma como enxerga o mundo e as pessoas. Eu conheço uma certa forma pela qual você se expressa.

Conheço algo do que você pensa e em que acredita. Pode não ser muita coisa, mas eu conheço algo.

E eu admiro você por isso. Gosto de você por isso.

E to falando isso tudo porque não gostaria que um dia você perdesse tudo isso que há em você em virtude de sua "experiência de vida".

Eu acredito de verdade em você. Eu admiro muito você e o que mais quero é que seja feliz, bem desse jeito que você é, bem desse jeito que EU te conheço, entende?

Eu quero que seja livre... feliz.

Que viva o que você acredita, o que você sente de verdade.

Não quero que você se acomode com algo que ache que não vale a pena.

Porque "valer a pena" significa muito! Tanto quanto as pessoas nem conhecem.

Não quero ver você presa a algo em que não acredita com todas as suas forças. Porque eu confio em você. Ou, pelo menos, na "parte de você" que eu conheço. Que é bonita, muito bonita.

Seja livre, leve... a felicidade é consequência.
E ninguém nunca foi obrigado a ser feliz o tempo todo. A sociedade não pode impor isso como parece sempre fazer.

Fecilidade pode ser descrita em pequenos momentos, instantes da nossa vida. E só é verdadeira, quando podermos ser livres de verdade. Nem sempre a gente consegue expressar o que pensa de alguém, e eu só falei porque não gostaria que um dia você esquecesse o que penso sobre você.

Ahh.
Em outras palavras...
Não se preocupe demais.
Olhe pra você. Se olhe no espelho, olhe uma foto sua. E se você se enxergar feliz como sem igual, com o sorriso mais livre, daquele que simplesmente parece nos forçar as bochechas... é porque está fazendo a coisa certa.

A felicidade não tem preceitos nem regras. Pequenos momentos felizes valem ouro em nossas vidas.
Não viva sem admirá-los. E entenda que os mais sinceros são bem raros.

Ainda dá tempo

- Ah, garoto. Você não faz idéia do que se passa aqui dentro. Você pode até fantasiar, imaginar, mas com certeza ainda não conseguiu adivinhar o que acontece quando eu fecho a porta e as cortinas.

Alice bateu a porta com firmeza, provocando um barulho delicadamente assustador. Seu convidado a esperava sentado em sua cama, esfregando uma mão na outra, disfarçando muito mal seu nervosismo.

Ele mantinha a respiração acelerada enquanto ela o fitava de pé, com um copo de whisky nas mãos, a maquiagem borrada e os pés sobre um salto alto cor de sangue.

Ela não seduzia um garoto assim há tanto tempo. Ele não sabia o que fazer, ela sorria e se divertia descaradamente às custas da sua falta de jeito.

Alice podia ensaiar um passos sem música, encher mais uma vez o seu copo, acender um cigarro. Podia logo tirar sua roupa no escuro e se juntar à timidez charmosa do garoto.

- Vez ou outra eu insisto em manter as cortinas abertas, mas, ainda assim, você não consegue ver. Eu poderia te contar em poucos minutos, resumindo uma grande história. Poderia até perder um pouco mais de tempo pra te contar sobre tudo, enquanto você, certamente, se pergunta por que você.

Ele tinha pouco a dizer. Há tempos sonhava com este momento. Há tempos não sentia o corpo de Alice sobre o seu. Há tempos imaginava, fantasiava tê-la de novo.

Ele não conseguia conter seus pensamentos sacanas enquanto ela, cheia de pose, só esperava o tempo passar sem pressa.

Curitiba é uma cidade cinza. As esquinas estão cheias de prostitutas e traficantes.

Alice anda ali pelo meio de olhos fechados e sai ilesa. Cumpre o papel que alguém lhe escreveu. Sente o esgoto da cidade nas pessoas que dobram com ela aquelas esquinas.

- À noite o céu é laranja. Dificilmente você consegue ver alguma estrela ou a lua e as pessoas adoram tentar adivinhar se no dia seguinte vai chover.

Alice abre a porta do quarto e sai. Ele a segue até uma esquina qualquer. Essa impulsividade sempre foi um defeito. Poucas coisas mudaram desde que ele a viu pela última vez. Ela tinha agora olhos cínicos e um discurso dissimulado.

Cada vez passos mais rápidos, nenhum dos dois dizia nenhuma palavra. Só se ouvia de longe os barulhos dos pés batendo no chão e as respirações ofegantes. Essa cena se repetia desde o início.

- Talvez elas vejam mais do que você. As pessoas aqui em volta.

Num misto de rebeldia caótica e medo, ela tenta não cair no chão. Derruba as chaves e passa a tatear o chão, arranhando os joelhos no asfalto. A posição favorece.

- Você pode até fantasiar, imaginar, mas com certeza ainda não conseguiu se mover.

Ele estende a mão. Alice se levanta sozinha e agradece com um abraço forte. Tira os sapatos e os dois voltam pra casa de mãos dadas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

3 dados

Sextas feiras tem muito a dizer. Todo mundo sabe disso. Alice respira fundo, poe os peitos pra fora num decote quase pecador. Respira fundo de novo, ela precisa de um empurrãozinho que vem do pulmão e da vontade de tomar umas cervejas.

Os peitos chegam antes e ninguém sabe o que vem depois. É fácil esconder o medo e a insegurança na pose cheia de pretensões. O cheiro de álcool faz com que ela se sinta em casa, sente com as pernas pra cima, acenda um cigarro e deixe seu gosto em todos os lugares.

Alice está rodeada de homens bonitos, que cheiram bem, que falam bem. Seu telefone toca e ela sai correndo, ficam todos para trás. Ela não olha e quase não se arrepende. Ela joga de novo todas as fichas em cima da mesa, aposta todos os trocados que tem no bolso, cruza os dedos com força, implorando de olhos fechados pra que, dessa vez, dê certo. Ela dá pulinhos, ri alto, gargalha no meio de tanta gente. Toma a cerveja num gole só e molha toda a sua roupa. Entre gritinhos frenéticos e torcidas, ela se enrola no cobertor, tira os sapatos. É tanta coisa pra contar, tanta formiga pra tirar do peito.

- Tantas coisas aconteceram, meu amor. Eu não posso sentir culpa, eu não quero sentir culpa.

Alice arranca seus cabelos de frente para o espelho, não consegue manter a cabeça no lugar, não consegue respirar. Ela está nua e sente o corpo todo tremer. Aquelas mãos não esquentam mais, não adianta cehgar assim tão perto. Agora é tudo gelado, tudo palido, tudo escuro.

- Acende a luz, eu preciso de um cigarro. Eu preciso sair daqui, eu preciso pular pela janela. Eu preciso de você.

O abraço é sincero, as respostas não. O cheiro de mentira sai do ralo, ela se sente tonta e vomita no banheiro. Aquela bola de pêlo não sai da garganta. Ela tosse até perder o fôlego, até que uma das mãos segure seus cabelos e a beije na testa com ternura. As mãos agora são quentes, aquecem seu peito, acalmam sua respiração. Ela chora no chão do banheiro, se perde na bagunça e no cheiro de alvejante que ela mesma escolheu.

Alice se joga nos braços pra depois se jogar nas calçadas. O elevador demora tempo demais pra chegar, o caminho é longo até em casa. Dois cigarros a mais e passos trocados na calçada vazia.
Ninguém para pra ajudar. Ela chora copiosamente e pede ajuda sem nem saber pra quem. É uma noite quente, os sapatos ficam com as bitucas pela calçada.

Alice fogiu.
O dia teria amanhecido calmo e tranquilo. Não havia expectativas depois de uma noite combinando remédios e tanto álcool. A cabeça de Alice não parava de girar e o telefone de tocar. Ela não queria ver ninguém.

As horas passavam lentamente. Até que Alice iniciava a maratona de não se manter sóbria, de não tocar no celular. Alice quase deixara que outro homem a visse nua. A culpa que não deveria sentir, invade seu corpo, suas pernas não se abrem, seu peito se esconde, suas costas se arrepiam de frio, seu rosto cora, seus braços se fecham, seus olhos se abrem no mesmo instante. Ela segura seus cabelos e diz com frieza:

- Talvez eu tenha que te matar, garoto. Você já sabe demais!

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