Consigo distinguir dor de estômago e cólica menstrual. Tpm e irritação aguda. Ansiedade e insônia. Sono e cansaço. Dor e manha. Posso apostar em mim mesma e ganhar todas as vezes. Meu tipo de competição preferida.
Eu consigo um monte de tantas outras coisas. Tenho uns poderes que me deixam fascinada com o mundo e as pessoas. Consigo arrancar uns sorrisos importantes, umas risadas engraçadas e até fico tentando fazer o tempo passar mais devagar.
Eu posso atrasar os relógios, jogar fora meu celular, desejar boa viagem!
Posso rezar de olhos fechados e desejar qualquer coisa. Minha mãe me ensinou a não desejar mal pra ninguém, porque as palavras tem poderes, os desejos tem poderes. Alguém aí tem um poder maior que o meu e assim a gente vai deixando tudo como está.
Eu posso mesmo. O mundo vive me dizendo isso. Pra poder basta querer.
Mas eu não posso medir a sua felicidade. Não consigo te enxergar por aqui. Não vejo seus sonhos, não leio seus olhos, não interpreto todas as suas feições. Não adivinho seus pensamentos, não entro na sua roupa, não invado a sua vida. Não entro nas suas células, não me aperto contra os seus gominhos, não penteio os seus cabelos. Não ouço a sua voz.
Eu desejo e não sei se alguém me atende. Eu desejo que você seja feliz e não sei se você é.
De manhã o mundo sopra calmo e tranquilo. A torrada me lembra que as coisas demoram mesmo um tempo até ficarem prontas. As bordas estão sempre quentinhas e o meio está sempre frio. Assim eu consigo manter a palidez e não esfarelo quando vou passar manteiga.
Eu quase não quero sair da cama, mas as britadeiras e os ônibus acordaram pra me lembrar que eu tenho só 10 minutos pra sair correndo botando os dois pulmões pra fora e chegar em tempo.
Radiohead no carro me faz lembrar que você existe em algum lugar do mundo. Onde será que você foi parar? Será que foi estudar fotografia em Milão? Será que foi se drogar na Holanda? Será que tá aqui por perto vivendo tudo igual como sempre fez? Você nem gostava de Radiohead e eu ouço em sua homenagem, no ritual da sua lembrança.
Eu respiro todo o desejo de felicidade eterna que só os amantes sabem. E encho o peito de energia. Não, eu não ando sozinha por aí, e também não desfilo com um novo amor fazendo inveja aos desamados. Ando contando os meus passos e os seus logo ali na frente.
Ah, foram tantas vezes saindo sem olhar pra trás que até faz falta a sensação de medo de nunca mais ser feliz e as milhões de expectativas explodindo no peito enquanto o tempo vai passando e a novidade chegando.
Eu sinto falta daquele sofrimento irremediável e, por isso mesmo, temporário, de deixar olhos chorando no banheiro, abraços apertados invioláveis em todas as esquinas da cidade.
Eu quero mesmo ir embora. E a vida me espera de braços abertos com tudo que eu ainda tenho pra viver.
Eu vou, mas poderei voltar quando você quiser.
Tchau, Curitiba. Oi, mundo!