quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O pedaço

"Ele não é burro, não. Ele é como a maioria dos seres humanos também é. Ele é como eu já fui um dia. Talvez como eu ainda seja, mas use todos os disfarces pra me convencer do contrário. A pior mentira é aquela que a gente faz pra gente mesmo. A promessa do regime na segunda feira com um pote de brigadeiro no microondas. O último cigarro no primeiro copo de cerveja com os amigos num sábado a noite. A promessa de apagar o número do telefone, nunca mais ligar, nunca mais atender. Ele é assim. É a minha promessa sem credibilidades. E eu sou a sua mentira mais sincera, tentando de todas as formas fugir dessa constatação brilhante.

Burro eu sei que ele não é, ele só sente medo. Eu também sinto. Medo de escuro, de altura, de subida, de ponte, de bichos de voam, de bichos que rastejam, de bichos molhados, de barulho no meio da noite, de vomitar, de levar um tiro na cabeça enquanto to dirigindo. Medo de quebrar um dente, de quebrar a unha, de dormir demais, de não conseguir dormir, de não conseguir acordar, de não sair do lugar, de não ter lugar pra ir. Medo até de sentir medo demais, o que acaba sendo um retrocesso pragmático.

Mas burro, definitivamente... ele é. Burro mesmo. Eu aqui esperando que ele ocupe o lugar gelado e vazio que eu deixei com o nome dele. Só falta ele pular e ocupar todos os pedacinhos. É fácil, ele é grande, não vai doer nada. Ele não percebe que eu ainda to aqui só esperando? Que se não fosse a sua grande testa brilhante, eu já teria ido embora? Que há tempos eu perdi o tesão no mundo, mas nunca vou me perder nele? Não deu pra ver? Não tava estampado na minha cara durante todo o jantar falsamento despretencioso de despedida? É sábado, pelo amor de Deus. Quem sai pra jantar com o primeiro grande amor num sábado à noite e não quer que ele se torne o último grande amor? É assim que vai ser de qualquer jeito. O último grande amor da minha vida. Depois dele eu só vou conhecer idiotas, como tem sido todos esses anos. Vou fingir que me apaixono, vou fingir meia dúzia de orgasmos e depois vou sair de fininho sem bater a porta e sem acordar ninguém. E o mundo todo não vai mais sentir a minha falta."

Sexta feira

Era sexta feira. Era dia de cerveja. Era dia de deixar todo o resto de lado e beber o resto das cervejas. Todas elas, em pequenas porções ou de uma vez só. Isso vai do gosto de cada um.

Era dia de sair de mãos dadas e receber um beijo na testa. Alice sempre sente o estomago dando uma cambalhota quando alguém lhe beija o rosto com ternura. A ternura é quase excitante, é emocionante. Alice sorri seus olhos de virgula e a boca torta, esperando que o mundo retome seu rumo rápido, antes que ela caia no chão.

Segurava a mãe dele com força, enquanto ele repousava sua tranquilidade sobre o volante. Os caminhos sempre foram curtos, as histórias sempre foram longas, a vontade de não descer do carro, infinita.

No quinto copo de cerveja ela já ria alto, chamando a atenção de todas as pessoas ao redor. Adorava mostrar ao mundo que era feliz, desfilar sem culpa. As vezes até tropeçar no caminho para o banheiro. As vezes ate olhar pra trás e constatar o quanto era, realmente, feliz.

Ele. Ele era uma espécie nova. Um contentamento estranho no meio de um monte de inseguranças. 10 chopps da primeira vez fizeram com que ela tivesse certeza absoluta de que era ele. Nenhuma dúvida, só sobrou ele no mundo capaz de contar os copos, os contos, os segundos, as palavras, os minutos.

Alice sentia a cabeça rodar e o peito abrindo, sentada no banheiro contemplando dizeres estúpidos na porta arranhada. Apoiou-se na parede ao lado e choramingou com vergonha da solidão, do escuro, das meninas gritando enlouquecidas do lado de fora da sua portinha arranhada. O mundo deu uma parada por ali, voltou até a mesa, deu um suspiro profundo e voltou ao seu devido lugar.

- Coisa de mulherzinha chorar sozinha no banheiro. Coisa de mulherzinha chorar um pouco bêbada. Coisa de mulherzinha constatar que eu sou uma mulherzinha boba tentando me equilibrar no salto 12 que não saía da gaveta desde os 15 anos.

Borrou a maquiagem, o reflexo turvo no banheiro denunciava todo o conflito correndo nas suas veias azuladas. Voltou contando os passos, sorrindo sem aquelas máscaras, sem ajeitar o decote, sem frizar o olhar desajeitamente sedutor. Ele a viu chegar, pegou em sua mão devagar, perguntou se tava tudo bem e beijou-lhe a testa. Alice sempre sente-se completa quando alguém lhe beija com ternura.

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