sábado, 22 de maio de 2010

Voz 1

- Fica quieto aí que eu preciso escrever mais alguma coisa. Não consigo saber o que é, é a quarta vez que me vem essa vontade, mas não sei. To sem freio, sem senso crítico.

- Talvez se você respirar com calma e tentar fazer outra coisa.

- Outra coisa tipo o que? O sexo me dá idéias, você sabe. A comida, o frio, todos os livros do meu quarto, as matérias da faculdade, principalmente as matérias da faculdade. Não adianta, eu to procurando alguma coisa que eu nem sei o que é e que eu não vou achar. Vou gastar minha paciência, vou instigar meu cérebro, vou ficar atonita, não vou conseguir calar a boca e não vou conseguir fazer nada.

- Você tá fazendo. Tá na sua associação livre cheia de incertezas bem certas, você é que não sabe. Procura lá por seu amigo Freud que ele te dá uma força.

- Você acha que consegue me irritar assim, mas não, você só consegue me dar mais idéias. Não tinha pensado nisso, como pode? Como eu consigo colocar todos os pensamentos em ordem? Como eu consigo voltar a ter vontade de atender o telefone e ter contato com o mundo? Você nem existe e eu converso com você. Eu não sou normal.

- Você me faz existir. O seu saber que eu não existo te diferencia de todos os casos de alucinações. Podemos descartar vários problemas a partir disso. Deve ser só uma crise de consciencia.

- Se fosse uma crise de consciencia eu não estaria sentindo essa vontade louca de usar todas as drogas do mundo. E isso não é fuga, não é recalque, não é medo, não é tentativa de esquecer problemas, porque você sabe, melhor do que ninguém, que eu não tenho nenhum motivo pra arrancar os cabelos. A não ser essa procura que não acaba pela porra da coisa que eu não sei qual. Sabe aquela sensação de formigas no corpo? Então... são milhares delas correndo por todos os lados. Fazem cócegas em lugares que eu nem conhecia, mordem, me causam dor, me fazem rir, não me deixam quieta. Entram na minha cabeça, fazem cócegas no meu cérebro, pinicam tudo que eu penso. Mas não são elas que fazem brotar as coisas novas. Essa sensação eu conheço bem, mas eu ainda não consegui nomear. Não é a sensação de borboleta, nem de formiga, não é o elefante sentado no peito, não é nada de ruim, tá? É gostoso. É meio perturbador, mas me faz viva. Viva sem tranquilidade, mas vida é sinal de saúde, então tá tudo bem. Saúde tá ali colado na felicidade. E você sabe, eu to feliz.

- Então é só vontade de ficar maluca. Você já tem meio caminho andado, aproveite! Você não precisa ficar pensando sobre o que ta pensando. Já perguntou se as outras pessoas fazem isso nos seus sábados de ócio?

- Foi escolha minha. Ficar assim. Desligar o celular, não querer falar com ninguém. Você não entende. Eu não to triste, eu to sei lá. To outra coisa. To doida, to maluca, to querendo, não sei o que, mas eu quero. Mas não quero ninguém envolvido nisso.

- Você sabe como satisfazer vontades sozinha.

-Assim você não ajuda. Não faz piada, eu não te crio pra isso.

-Você adora as piadas infames. É você quem as faz.

- Esquece a piada. Preciso de um incentivo que me convença com mais força. Vai. Você consegue, você sempre foi forte pra isso, você sabe como me vencer. Vai logo, me convença a fazer alguma coisa. Me convença a usar todas as drogas do mundo, sair a pé, sem sapatos, sem pentear os cabelos, beber um copo de álcool puro, sei lá.

- Pode ser uma vodka e um cigarro de pijama na janela? Eu to com frio pra sair sem sapatos e tá chuviscando, pode engrossar... teve a dor de garganta de semana passada, sabe como são essas coisas, melhor estar com a saúde garantida pro próximo final de semana.

- Cala a boca. Você me cansa.

Bobagens


Quando eu era criança eu tinha um medo absurdo de morrer. Sentia a iminencia da morte em cada segundo. Tinha medo de não mais poder dormir na cama dos meus pais e morrer de medo, depois de morta. De não brincar mais com o irmão, de ser castigada por não ter sido a irmã que ele merecia. De alguém me perguntar porque eu fazia umas maldades de vez em quando e tinha medo de alguém cortar a minha cabeça, depois de morta. Minha mãe me explicava que eu não ia morrer, que eu tinha saúde, tinha comida, cobertor no frio, brinquedo, pai e mãe pra me cuidar. Eu não ia morrer, eu sabia disso. Mas só sentia que podia quando tava muito feliz. No natal com a família toda reunida, nas férias assistindo Jô Soares de madrugada no chão do quarto dos meus pais, torcendo pra chegar logo de manhã e ir pra praia. Nas vésperas de ir pra casa da vó assistir desenho no sol quentinho comendo pão com manteiga e leite sem nata. Era uma mania estúpida de me lembrar que aquele entusiasmo, aquela euforia ia durar pouco, porque logo tudo ia acabar. E tudo acabava. As férias na praia, o natal com os primos, os finais de semana na casa da vó. Eu não lidava bem com as perdas, mas a perda que doía mais era a minha própria perda. O meu medo de morrer.
Às vezes eu tinha uma coisa esquisita que fazia meu coração bater devagar mas muito forte. Eu parava de respirar por uns segundos só pra sentir as batidas socando o meu peito. E aí eu tinha a sensação de não ser eu. De não estar no meu corpo, de estar me vendo de fora. Uma sensação esquisita de não ser, de não pertencer, de não querer, de não poder. Uma sensaçao de não. Toda a negação para tudo na minha cabeça.
O cabelo não era meu, as atitudes não eram minhas. E, eu, do lado de fora, criticava tudo e sentia uma espécie de vergonha alheia. Era eu, de fora, me cobrando, de dentro. Eu tinha medo de não voltar ao normal e continuar me vendo de fora, mas sendo de dentro. Eu perdi essa capacidade de me retirar sem me ausentar, uma pena.
Depois de um tempo eu esqueci do medo de morrer e aprendi a dormir sozinha no meu próprio quarto escuro. Aprendi a ser toda as minhas partes separadas. Aprendi que o eu de fora era o mesmo eu de dentro. Talvez fosse uma auto crítica, uma auto análise, o reconhecimento de fora pra dentro.
Eu achava as outras crianças muito bobas porque não conseguiam entender o que eu falava e nem se esforçavam e nem me ouviam. Não pensavam sobre nada. Só perguntavam pras suas mães quando podiam voltar a brincar. E eu assumia a bronca do sindicato infantil reivindicando os direitos sobre o entendimento da vida e ninguém me dizia nada. Mas eu achava que todo mundo escondia um segredo enorme, talvez catastrófico, enigmático e eu só ia descobrir quando crescesse. Igual o war. É, o jogo, que ninguém me deixava brincar porque eu podia engolir as pecinhas. E eu achava que era o jogo mais legal do mundo, só porque eu só ia poder jogar depois de muitos anos, depois de muito grande.
Aí eu cresci e ninguém me contou nenhum segredo legal, nenhuma revelação seja de vida ou de morte. Eu fiz umas descobertas legais, tive umas idéias interessantes, aprendi outras nem tanto. Continuei listando perguntas a respeito da humanidade e suas manias, decidi estudar psicologia e, mais ou menos uma vez por vez tenho uma crisezinha de identidade que me faz desligar o celular e pensar demais.
Eu continuo achando as outras crianças muito bobas, elas só querem saber quando podem voltar a brincar e não entendem nada do que eu digo.

A história contada em partes

Finalmente você abriu os olhos. Você respirava tão fundo enquanto dormia que eu tinha certeza que era só o seu corpo que tava aqui. Senti um pouco de medo de você não voltar, mas aí respirei fundo, contei até 10, deitei no seu peito e quase consegui respirar com você, não fossem os seus pulmões duas vezes o tamanho dos meus. A sensação de perda passou, o ar encontrou o lugar certo, a saliva a sua produção certa, o sangue o seu ritmo certo. Eu cresci.
Calma e tranquila assistindo você dormir. Imaginando você em milhões de situações. De branco, de preto, de perto, de longe, de ponta cabeça, sendo você mesmo, sendo o mocinho do filme, sendo o ator bonitão que as meninas adoram. Você sofre de transtorno de personalidades múltiplas aqui dentro. Eu te dou papéis, te ensino as falas, ensaio com você e você é tudo isso que eu quero que você seja.
Não, não é assim tão egoísta quanto parece ser. É sensato. São as suas vertentes, as suas saídas. Eu só interpreto, nomeio e admiro. Brigo com algumas, amo algumas outras. Você acaba sendo você dividido na minha história, nas minhas partes.
Cada parte de mim ama um pedaço seu. E eu já to aqui falando de amor, enquanto você luta pra manter seus olhos abertos. Você ri do meu entusiasmo matinal, eu já havia te alertado sobre ele e, ou você finge muito bem ou eu até acredito que você gosta. Eu te faço rir a minha simplicidade. Eu quase morro de sono e espero você me chamar pra dormir. Eu quase vomito bebada, mas espero você me convidar pra parar. Eu pulo alto, você me segura e caímos juntos, os dois, em cima da cama. E caímos juntos, os dois, no chão, rindo muito, sendo muito, amando muito.
Eu nunca sinto frio com você. A manhã é fria e escura, mas você sempre tem as mãos quentinhas. Eu nunca paro de sorrir com você. Eu tenho raiva do mundo, medo de tudo, preguiça da vida, mas você ri de mim e eu rio de mim. E aí eu entendo que é pequeno demais querer ser mais, enquanto só ser já me basta e muito. Enquanto o mais é menos que muito e o muito que eu tenho já basta pra ser o meu mais. O seu mais, o nosso mais. A nossa mania de ser e querer e fazer. Fazer 2, 3 vezes. Cansar e virar pro lado dormir enquanto o mundo explode lá fora.
Sem pressa pra ser 5, sem atropelar os passos lentos na calçada.
Finalmente você apareceu. Eu te esperei no elevador, no caixa eletrônico, na fila do banheiro, pra pagar a conta, pra pegar o carro no estacionamento.
Eu só não vi que você é o elevador, a fila do caixa eletrônico, a fila do banheiro, a fila pra pagar a conta, a fila pra pegar o carro no estacionamento. Eu só percebi agora que eu sempre detestei a espera, sempre matei a espera, mas sempre fui a espera e foi aí que a gente se encontrou.
Finalmente eu me desprendi de um passado tolo, peguei o seu telefone e te fiz calar pra me beijar de uma vez. Finalmente você começou uma nova história, atendeu o telefone e se calou pra me beijar outra vez.

Verde escuro

- Tá chovendo!!!

- Eu vou buscar o carro, espera aqui.

- Não, eu não sou de açúcar. Tá frio, mas um banho de chuva ajuda a esquentar.

- Você é maluca. Desde quando chuva esquenta? Eu já to morrendo de frio.

- Desde quando você para de fingir que não entende as minhas investidas e vem trocar calor humano com os meus braços.

- Você sabe que não posso e nem devo chegar muito perto de você.

- Por que?? Tem medo que eu te morda?

- Tenho medo de não conseguir mais sair de perto de você.

- É um risco que se corre. Quando chove você pode até morrer afogado e nem por isso deixa de sair de casa.

- É um risco em volta de uma certeza.

- Então você não tem medo. Você tem uma convicção e falta de vontade.

- O impulso pode me gerar problema.

- O impulso reprimido te causa muito mais.

- Para de bancar a psicóloga e entende o que eu to falando de uma vez.

- Entendo. Fraqueza, covardia, medo. É tudo igual, eu já entendi. Você prefere viver no seu mundo verde escuro, verde musgo, verde vomito. Eu já nem sei o que eu vejo em você.

- Você vê o que você precisa ser.

- Não aguentaria. Eu odeio verde. E tenho pavor de vomitar.

- Mas vomita sempre que sente medo.

- Essa sua mania de achar que me conhece é patética.

- Essa sua mania de achar que eu não te conheço, te deixa menos inteligente.

- Inteligente é você com a roupa encharcada, tremendo de frio. Sem coragem de me deixar falando sozinha, enquanto eu só te pedi um abraço.

- Tem razão, eu vou embora.

- Vai, eu vou ficar por aqui fumando mais um cigarro.

- Outra coisa que te deixa pouco inteligente.

- Você ainda vai sentir saudades dos meus cigarros.

- Vou sentir saudades de você quando você for. Por que você não fica aqui?

- Eu já falei. O que eu tinha pra fazer aqui eu já fiz, essa cidade saturou de mim. Eu preciso de algum lugar incrível.

- Você é que tem o pode de tornar qualquer coisa em incrível, seja um lugar ou uma pessoa.

- Eu não conheci ainda ninguém que fosse incrível o suficiente pra me fazer ficar.

- Uma facada no meu peito.

- Você só me ajuda a fazer o tempo passar rápido. Encare a realidade. Eu não quero me casar com você, não quero almoçar com a sua família no domingo. Quero sua barriga quente, suas mãos grandes, seu sexo completo.

- Sabia. Eu sabia que era só isso. Por isso é que tenho me afastado de você.

- Num sábado a noite? É isso que você chama de se manter longe de mim?

- Nem sempre as minhas tentativas são bem sucedidas. Eu preciso trabalhar um pouco mais esse lado decidido que te diz "não" num sábado a noite.

- É só dizer agora que eu vou embora de taxi e só volto a te procurar quando os cigarros acabarem.

- Você brinca demais. Fala demais. Eu vou buscar o carro.

Ele corre depois de já ter se molhado. É esse tipo de estupidez que eu não entendo no ser humano. Deseja e não tem vontade de fazer. Quer e reprime tudo que quer porque é imoral ou engorda. Vive de fantasias puritanas e fiéis achando que nasceu pra um lugar só, uma vida só, uma pessoa só. Não existe essa história de destino, é história, igual livro de escola. Cada ano as coisas mudam e precisam reescrever de tempos em tempos.

Ninguém ama e deseja ainda o seu primeiro amor.


De Alice para Ana

Ser feliz é uma questão de sorte. Não é escolha, não é sorrir pra vida pra vida te sorrir em troca. Não é fazer o bem sem importar a quem. Não é deixar de lado o egoísmo, a raiva, a inveja achando que a gratidão, o amor, o carinho e a compaixão vão bater a porta e pedir um quarto pra passar a noite. Não é querer. É ser. Entende? Não é virar a cara pras coisas que incomodam e fingir que tá tudo bem. Não é pensar o quanto ela é bonita e merece ser feliz. Não é pensar que ele tem seus motivos pra ter feito o que fez. Não é enganar a si mesmo, gritando pro mundo que não liga se as coisas não sairem exatamente como você planejou. Não é jogar na mão de Deus e esperar que ele tenha um plano melhor. Ser feliz é só... ser. E ser ultrapassa muito além todas essas bobagens. A vida toda se tornou um livrão estúpido de auto-ajuda da pior qualidade. Todo mundo sorri pra dar bom dia só pra fazer o outro feliz, enquanto os caquinhos de vidro perfuram sua honestidade. Enquanto você queria, na verdade, jogar o café quente em qualquer um que cruzar o seu caminho. Em qualquer um que buzinar duas vezes e fazer cara de fazer cara de quem domina o trânsito que, certamente, você atrapalha. Em qualquer um que te der um tapinha nas costas e fizer qualquer piada sobre qualquer coisa, sobre qualquer pessoa. Ser feliz é quando a sorte te presenteia com uma vaga bem em frente quando tá chovendo. Quando o pão tá quentinho saindo do forno na hora que você acordou. Ser feliz é conseguir falar na primeira pessoa sobre você mesmo. É ter coragem de expor seja lá o que for, seja pra quem for. É perceber, finalmente, que é isso que EU venho aprendendo em anos de faculdade. Ser EU e não ser VOCÊ. Assinar meu nome ao inves de tentar parecer mais ou menos. É ser. É achar uma nota de 100 reais no bolso. É quando o telefone toca e você sorri olhando pela janela. É quando o estúpido buzina duas vezes e você percebe que não foi pra você. Ser feliz é achar um fórmula descabida pra fugir dos tapinhas no ombro que o mundo insiste em dar. É achar um espaço dentro do armário quando tudo parecer frio demais pra merecer um nariz pra fora da porta. É achar uma mão perdida e quentinha no meio da bagunça de 4 cobertores e 3 travesseiros. Ser feliz é não tentar e, ainda assim, ser. É não forçar a barra achando que não pode desejar o mal pra ninguém. É ser humano e jogar pra fora tudo que tiver vontade, vomitar todas as dores, todas as injúrias, xingamentos, mau criações. É gritar alto, perder a paciência. Se arrepender, pedir desculpas. Ser autêntico. Sentir raiva, desejar o mal, pensar o mal, falar mal. Ser feliz não é xingar o mundo e assinar com o nome de uma pessoa que não existe.

Ser feliz é ser real.

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