Finalmente você abriu os olhos. Você respirava tão fundo enquanto dormia que eu tinha certeza que era só o seu corpo que tava aqui. Senti um pouco de medo de você não voltar, mas aí respirei fundo, contei até 10, deitei no seu peito e quase consegui respirar com você, não fossem os seus pulmões duas vezes o tamanho dos meus. A sensação de perda passou, o ar encontrou o lugar certo, a saliva a sua produção certa, o sangue o seu ritmo certo. Eu cresci.
Calma e tranquila assistindo você dormir. Imaginando você em milhões de situações. De branco, de preto, de perto, de longe, de ponta cabeça, sendo você mesmo, sendo o mocinho do filme, sendo o ator bonitão que as meninas adoram. Você sofre de transtorno de personalidades múltiplas aqui dentro. Eu te dou papéis, te ensino as falas, ensaio com você e você é tudo isso que eu quero que você seja.
Não, não é assim tão egoísta quanto parece ser. É sensato. São as suas vertentes, as suas saídas. Eu só interpreto, nomeio e admiro. Brigo com algumas, amo algumas outras. Você acaba sendo você dividido na minha história, nas minhas partes.
Cada parte de mim ama um pedaço seu. E eu já to aqui falando de amor, enquanto você luta pra manter seus olhos abertos. Você ri do meu entusiasmo matinal, eu já havia te alertado sobre ele e, ou você finge muito bem ou eu até acredito que você gosta. Eu te faço rir a minha simplicidade. Eu quase morro de sono e espero você me chamar pra dormir. Eu quase vomito bebada, mas espero você me convidar pra parar. Eu pulo alto, você me segura e caímos juntos, os dois, em cima da cama. E caímos juntos, os dois, no chão, rindo muito, sendo muito, amando muito.
Eu nunca sinto frio com você. A manhã é fria e escura, mas você sempre tem as mãos quentinhas. Eu nunca paro de sorrir com você. Eu tenho raiva do mundo, medo de tudo, preguiça da vida, mas você ri de mim e eu rio de mim. E aí eu entendo que é pequeno demais querer ser mais, enquanto só ser já me basta e muito. Enquanto o mais é menos que muito e o muito que eu tenho já basta pra ser o meu mais. O seu mais, o nosso mais. A nossa mania de ser e querer e fazer. Fazer 2, 3 vezes. Cansar e virar pro lado dormir enquanto o mundo explode lá fora.
Sem pressa pra ser 5, sem atropelar os passos lentos na calçada.
Finalmente você apareceu. Eu te esperei no elevador, no caixa eletrônico, na fila do banheiro, pra pagar a conta, pra pegar o carro no estacionamento.
Eu só não vi que você é o elevador, a fila do caixa eletrônico, a fila do banheiro, a fila pra pagar a conta, a fila pra pegar o carro no estacionamento. Eu só percebi agora que eu sempre detestei a espera, sempre matei a espera, mas sempre fui a espera e foi aí que a gente se encontrou.
Finalmente eu me desprendi de um passado tolo, peguei o seu telefone e te fiz calar pra me beijar de uma vez. Finalmente você começou uma nova história, atendeu o telefone e se calou pra me beijar outra vez.
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