- Tá chovendo!!!
- Eu vou buscar o carro, espera aqui.
- Não, eu não sou de açúcar. Tá frio, mas um banho de chuva ajuda a esquentar.
- Você é maluca. Desde quando chuva esquenta? Eu já to morrendo de frio.
- Desde quando você para de fingir que não entende as minhas investidas e vem trocar calor humano com os meus braços.
- Você sabe que não posso e nem devo chegar muito perto de você.
- Por que?? Tem medo que eu te morda?
- Tenho medo de não conseguir mais sair de perto de você.
- É um risco que se corre. Quando chove você pode até morrer afogado e nem por isso deixa de sair de casa.
- É um risco em volta de uma certeza.
- Então você não tem medo. Você tem uma convicção e falta de vontade.
- O impulso pode me gerar problema.
- O impulso reprimido te causa muito mais.
- Para de bancar a psicóloga e entende o que eu to falando de uma vez.
- Entendo. Fraqueza, covardia, medo. É tudo igual, eu já entendi. Você prefere viver no seu mundo verde escuro, verde musgo, verde vomito. Eu já nem sei o que eu vejo em você.
- Você vê o que você precisa ser.
- Não aguentaria. Eu odeio verde. E tenho pavor de vomitar.
- Mas vomita sempre que sente medo.
- Essa sua mania de achar que me conhece é patética.
- Essa sua mania de achar que eu não te conheço, te deixa menos inteligente.
- Inteligente é você com a roupa encharcada, tremendo de frio. Sem coragem de me deixar falando sozinha, enquanto eu só te pedi um abraço.
- Tem razão, eu vou embora.
- Vai, eu vou ficar por aqui fumando mais um cigarro.
- Outra coisa que te deixa pouco inteligente.
- Você ainda vai sentir saudades dos meus cigarros.
- Vou sentir saudades de você quando você for. Por que você não fica aqui?
- Eu já falei. O que eu tinha pra fazer aqui eu já fiz, essa cidade saturou de mim. Eu preciso de algum lugar incrível.
- Você é que tem o pode de tornar qualquer coisa em incrível, seja um lugar ou uma pessoa.
- Eu não conheci ainda ninguém que fosse incrível o suficiente pra me fazer ficar.
- Uma facada no meu peito.
- Você só me ajuda a fazer o tempo passar rápido. Encare a realidade. Eu não quero me casar com você, não quero almoçar com a sua família no domingo. Quero sua barriga quente, suas mãos grandes, seu sexo completo.
- Sabia. Eu sabia que era só isso. Por isso é que tenho me afastado de você.
- Num sábado a noite? É isso que você chama de se manter longe de mim?
- Nem sempre as minhas tentativas são bem sucedidas. Eu preciso trabalhar um pouco mais esse lado decidido que te diz "não" num sábado a noite.
- É só dizer agora que eu vou embora de taxi e só volto a te procurar quando os cigarros acabarem.
- Você brinca demais. Fala demais. Eu vou buscar o carro.
Ele corre depois de já ter se molhado. É esse tipo de estupidez que eu não entendo no ser humano. Deseja e não tem vontade de fazer. Quer e reprime tudo que quer porque é imoral ou engorda. Vive de fantasias puritanas e fiéis achando que nasceu pra um lugar só, uma vida só, uma pessoa só. Não existe essa história de destino, é história, igual livro de escola. Cada ano as coisas mudam e precisam reescrever de tempos em tempos.
Ninguém ama e deseja ainda o seu primeiro amor.
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