sábado, 22 de maio de 2010

Verde escuro

- Tá chovendo!!!

- Eu vou buscar o carro, espera aqui.

- Não, eu não sou de açúcar. Tá frio, mas um banho de chuva ajuda a esquentar.

- Você é maluca. Desde quando chuva esquenta? Eu já to morrendo de frio.

- Desde quando você para de fingir que não entende as minhas investidas e vem trocar calor humano com os meus braços.

- Você sabe que não posso e nem devo chegar muito perto de você.

- Por que?? Tem medo que eu te morda?

- Tenho medo de não conseguir mais sair de perto de você.

- É um risco que se corre. Quando chove você pode até morrer afogado e nem por isso deixa de sair de casa.

- É um risco em volta de uma certeza.

- Então você não tem medo. Você tem uma convicção e falta de vontade.

- O impulso pode me gerar problema.

- O impulso reprimido te causa muito mais.

- Para de bancar a psicóloga e entende o que eu to falando de uma vez.

- Entendo. Fraqueza, covardia, medo. É tudo igual, eu já entendi. Você prefere viver no seu mundo verde escuro, verde musgo, verde vomito. Eu já nem sei o que eu vejo em você.

- Você vê o que você precisa ser.

- Não aguentaria. Eu odeio verde. E tenho pavor de vomitar.

- Mas vomita sempre que sente medo.

- Essa sua mania de achar que me conhece é patética.

- Essa sua mania de achar que eu não te conheço, te deixa menos inteligente.

- Inteligente é você com a roupa encharcada, tremendo de frio. Sem coragem de me deixar falando sozinha, enquanto eu só te pedi um abraço.

- Tem razão, eu vou embora.

- Vai, eu vou ficar por aqui fumando mais um cigarro.

- Outra coisa que te deixa pouco inteligente.

- Você ainda vai sentir saudades dos meus cigarros.

- Vou sentir saudades de você quando você for. Por que você não fica aqui?

- Eu já falei. O que eu tinha pra fazer aqui eu já fiz, essa cidade saturou de mim. Eu preciso de algum lugar incrível.

- Você é que tem o pode de tornar qualquer coisa em incrível, seja um lugar ou uma pessoa.

- Eu não conheci ainda ninguém que fosse incrível o suficiente pra me fazer ficar.

- Uma facada no meu peito.

- Você só me ajuda a fazer o tempo passar rápido. Encare a realidade. Eu não quero me casar com você, não quero almoçar com a sua família no domingo. Quero sua barriga quente, suas mãos grandes, seu sexo completo.

- Sabia. Eu sabia que era só isso. Por isso é que tenho me afastado de você.

- Num sábado a noite? É isso que você chama de se manter longe de mim?

- Nem sempre as minhas tentativas são bem sucedidas. Eu preciso trabalhar um pouco mais esse lado decidido que te diz "não" num sábado a noite.

- É só dizer agora que eu vou embora de taxi e só volto a te procurar quando os cigarros acabarem.

- Você brinca demais. Fala demais. Eu vou buscar o carro.

Ele corre depois de já ter se molhado. É esse tipo de estupidez que eu não entendo no ser humano. Deseja e não tem vontade de fazer. Quer e reprime tudo que quer porque é imoral ou engorda. Vive de fantasias puritanas e fiéis achando que nasceu pra um lugar só, uma vida só, uma pessoa só. Não existe essa história de destino, é história, igual livro de escola. Cada ano as coisas mudam e precisam reescrever de tempos em tempos.

Ninguém ama e deseja ainda o seu primeiro amor.


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