sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Remova-me. Dizia em alto e bom som. Dizia baixinho, em silêncio. Não dizia, apenas lia, pensava, refletia. Era isso mesmo. A remoção é necessária, a mudança, as novas perspectivas, os passos pra frente, a deambulação ereta. E tudo isso graças ao que conseguiu enxergar no meio da neblina que fechava os olhos.

Remova-me. Repetido e contínuo. Uníssono. Um badalar de sinos. Vários sinos juntos batendo em ritmos desiguais, repetindo a mesma coisa. O mesmo pedido. E tudo isso graças a qualquer coisa que não se sabe ao certo o que é. Enquanto tudo parece pouco. Enquanto pouco parece muito e ninguém consegue entender qual a proporção exata do erro. Do acerto. A exata proporção exata.

Perda de tempo. Todo mundo ouve o mesmo som, todo mundo assiste e torce. Uns escolhem o time que sempre ganha. Há os que se compadecem pelos mais fracos. Há os que escolhem a camisa mais bonita, mais colorida. Outros a que não tem cor, a maior.

Tomam partido. Mostraram-se imparciais. Uns assistem de camarote, de cima do muro. E tudo isso graças a imensa dor de cabeça que aparece alguns dias de manhã.

Remova-se. Era o que queria mesmo? Sem discordâncias, sem falsos moralismos, sem enganações. Uma puta frágil e sensível. Uma pura falta de coerência. Não mudou, não saiu, não moveu um grão.

Enquanto isso as idéias continuam indo, sem que ninguém acuse ninguém. Sem que ninguém deseje nada a mais ninguém.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Entre culpas e culpados

Não que eu complete todas as lacunas e nem marque todas as respostas no gabarito. Não que eu entenda tudo que eu leio, tudo que me perguntam, tudo que as pessoas pensam que eu já sei. Não que eu decore as falas e seja a melhor em interpretação de texto.

Mas existem coisas que não precisam ser ditas pra serem entendidas. Ou então eu interpreto tão bem que passo da medida. Para todas as outras coisas há pessoas dispostas a explicar sem ironias. Onde eu não me encaixo. Há pouca tolerância pra coisas sem sentido e nenhuma paciência pra coisas não compreendidas.
O professor de direito confunde a cabeça de quem pensa que tudo é relativo. Viva Freud e suas milhões de explicações para o mundo. Podia ser mais simples: a culpa é da tua mãe!

Vai lá e grita na cara dela. Faz os pelinhos do rosto tremerem, faz os olhos secarem com o teu grito. Faz o coração quase parar de bater de susto. E bota pra fora tudo que ela fez pra você. Questiona o quanto ela te deu de leite materno.

Culpe-a por ter se sentido gorda durante a gravidez e ter desejado um copo de tequila. Culpe-a por ter cogitado a possibilidade de não te deixar nascer, por ter pensado que não era a hora, que um irmãozinho seu, um pouquinho mais novo que você, viria em melhor hora.

Culpe-a por não ter tido tanto dinheiro pra comprar um berço de ouro, uma chupeta importada, uma fralda descartável.

E aí, no final de tudo, você respira fundo e sente a paz dentro do peito. Liberto de todo o peso que você carregou durante todos esses anos e não sabia o por quê.

Veja sua mãe chorando copiosamente e culpando a sua avó por não ter tido mais tempo pra ensiná-la coisas básicas de ser mãe. E por aí vai.

Você é tarado por culpa da sua mãe. Você é perdido por culpa da sua mãe. Você mente, você fuma, você bebe, você se masturba compulsivamente, rói as unhas, é gordo, sente medo de morrer, de se envolver, se apaixonar.

Tudo isso só porque a tua mãe não te segurou direito quando você chorava e pedia atenção.
Podia ser assim bem simples e aí era só completar a reação em cadeia, o ciclo e todo mundo ia ficar feliz.

Jogando a culpa em cima do outro, à lá Homer Simpson.

Acontece que isso tudo é culpa sua, só sua.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Breves apresentações

Às vezes eu sumo e não sei por qual motivo. Não atendo celular, mas preciso tê-lo pra quando quiser telefonar. Sempre me assusto com o barulho do celular, por isso deixo no silencioso. Sempre deixo no silencioso, por isso, na maioria das vezes eu não escuto tocar.
Gosto de comer até fazer meu estômago sentir culpa. Não tenho medo de engordar e gosto quando as minhas coxas aumentam de tamanho. Sonho com o dia que eu ficar grávida pra ficar segurando a barriga o tempo todo.
Morro de preguiça de estudar. De abastecer o carro, de desarrumar malas e de escovar os dentes.
Uso, no mínimo, 7 perfumes diferentes. Só gosto de sabonete líquido e desenho no box embaçado. Também canto no chuveiro.
Adoro assistir televisão até quase não aguentar mais e dormir morrendo de sono. Adoro dormir com a claridade azulada da televisão.
Tenho compulsão por óculos escuros e lixas de unha, sempre acho que preciso comprar mais.
Praticamente todos os dias eu perco o carregador de celular. Todos os dias eu perco meu celular.
Tenho pesadelos à noite e tenho que dormir com a luz acesa.
Quando as luzes tão apagadas eu saio correndo pelos corredores pra chegar logo.
Às vezes eu acordo de madrugada pra comer.
Tô sempre mastigando uma tampa de caneta, mordendo as pontas dos meus dedos ou apertando um dente contra o outro.
Mordo as "pelinhas" do canto da boca compulsivamente.
Não me atraio por tecnologias. Só sei o básico do computador e sempre estrago alguma coisa sem querer.
Acho o orkut a coisa mais inútil do mundo, mas não consigo simplesmente deletá-lo.
Queria fotografar todos os mínimos detalhes da minha vida. Tenho medo de esquecer. Eu já esqueci muitos rostos que não queria esquecer.
Sou a pessoa mais apaixonada e mais dramática que eu conheço. Quase morro todos os dias, amo demais todos os dias.
Tenho preguiça de muita gente. Sinto ciúmes absurdos do meu irmão, morro de medo que algum dia ele ame alguma coisa mais do que eu.
Eu não consigo assistir um jogo de futebol com toda a atenção do mundo.
Eu preciso ler uma coisa três vezes pra me concentrar, porque qualquer coisa parece ser mais importante que qualquer coisa que eu esteja fazendo em qualquer momento.
Eu não gosto de falar no telefone.
Aprendi a comer tomate e cebola, mas ainda não como com muito prazer.
Aprendi a beber champagne, mas ainda não gasto dinheiro com isso.
Tenho pavor de ficar presa no elevador.
Já fingi que sabia falar francês.
Desobedecer regras me causa certo pânico.
Meu coração acelera 74 vezes por dia e eu nunca me acostumo com essa sensação.
Odeio o barulho que me tira do meu sossego e odeio o silêncio que denuncia a solidão. Embora não consiga fazer nada quando tem barulho em volta.
Não tenho problemas com os domingos.
Durmo pouco mais de 5 horas por noite e sempre morro de sono de manhã.
Tenho pavor de vomitar, e quase vomito todos os dias escovando a lingua.
Não consigo dormir sem meias.
Estabeleço mil metas diárias e já sei que não vou cumprir praticamente nenhuma.
Não prometo mais voltar a malhar na segunda feira.
Não tenho mais medo de engordar.
Sempre escrevo tentando tornar algum momento melhor do que ele aconteceu de verdade e tenho a impressão de sempre fazer parecer pior.


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