Mas existem coisas que não precisam ser ditas pra serem entendidas. Ou então eu interpreto tão bem que passo da medida. Para todas as outras coisas há pessoas dispostas a explicar sem ironias. Onde eu não me encaixo. Há pouca tolerância pra coisas sem sentido e nenhuma paciência pra coisas não compreendidas.
O professor de direito confunde a cabeça de quem pensa que tudo é relativo. Viva Freud e suas milhões de explicações para o mundo. Podia ser mais simples: a culpa é da tua mãe!
Vai lá e grita na cara dela. Faz os pelinhos do rosto tremerem, faz os olhos secarem com o teu grito. Faz o coração quase parar de bater de susto. E bota pra fora tudo que ela fez pra você. Questiona o quanto ela te deu de leite materno.
Culpe-a por ter se sentido gorda durante a gravidez e ter desejado um copo de tequila. Culpe-a por ter cogitado a possibilidade de não te deixar nascer, por ter pensado que não era a hora, que um irmãozinho seu, um pouquinho mais novo que você, viria em melhor hora.
Culpe-a por não ter tido tanto dinheiro pra comprar um berço de ouro, uma chupeta importada, uma fralda descartável.
E aí, no final de tudo, você respira fundo e sente a paz dentro do peito. Liberto de todo o peso que você carregou durante todos esses anos e não sabia o por quê.
Veja sua mãe chorando copiosamente e culpando a sua avó por não ter tido mais tempo pra ensiná-la coisas básicas de ser mãe. E por aí vai.
Você é tarado por culpa da sua mãe. Você é perdido por culpa da sua mãe. Você mente, você fuma, você bebe, você se masturba compulsivamente, rói as unhas, é gordo, sente medo de morrer, de se envolver, se apaixonar.
Tudo isso só porque a tua mãe não te segurou direito quando você chorava e pedia atenção.
Podia ser assim bem simples e aí era só completar a reação em cadeia, o ciclo e todo mundo ia ficar feliz.
Jogando a culpa em cima do outro, à lá Homer Simpson.
Acontece que isso tudo é culpa sua, só sua.
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