segunda-feira, 19 de abril de 2010

Você vem?

- E se eu levantar agora, jogar tudo pro alto e não te disser pra onde eu vou? Você vai atrás de mim?

- Claro. Você não perguntaria isso se não quisesse que eu vá atrás de você.

- Então você só iria porque sabe que é isso que eu quero?

- Você sempre me dá pistas do que você quer. E as coisas que eu quero estão, indiretamente, ligadas as que você quer. Ou diretamente. As vezes é bem fácil de saber. E difícil distinguir o que é você falando aqui dentro e o que sou eu querendo.

- Tipo uma musiquinha com o som e a letra?

- É, daquelas que você nunca consegue descobrir se gosta mais da letra ou da melodia. Melodia, é assim que chama o som. Você escuta mil vezes e não imagina um sem o outro, sabe?

- Que clichê. Duas pessoas sendo uma só? Sem você saber onde termina você e começa eu?

- Não. Longe de clichê, longe da presunção de pertencer demais assim. É só um pedaço, pode ser que no fim da música você mude de idéia. Ou então você descobre que a versão acústica é tão boa quanto ou ainda melhor.

- Eu sou sua versão acústica? Violão e voz?

- É. Você é a versão acústica das minhas vontades. Pode ser. Começa sendo a junção de melodia e letra e aí você entra como a versão acústica, que gera aquela ansiedade momentanea, o estranhamento imediato e depois a tranquilidade de uma música desligada da tomada.

- Tipo uma fogueira? Sem tomada, quentinha ao natural?

- Ou um ar condicionado. Combina com os seus pés sempre gelados. E com as suas frustradas tentativas de parecer fria e calculista. Mas entende que até o ar condicionado quando tá desligado pode ficar quente. E depende de alguém pra ligar pra começar a esfriar.

- Mas os pés, ao contrário, só esquentam quando ligam. Quando você liga.

- Pode ter aquecedor. Sempre os dois lados. Sempre um eu aqui que você não sabe como separar daí. Consegue entender?

domingo, 18 de abril de 2010

Mais dois dias

Deve ser algum tipo de recorde. É um tempo que talvez eu nunca tenha conseguido antes. Não que eu me lembre, de forma tão louvável. Um triunfo, uma vitória memorável. Um aprendizado, finalmente. Amadurecimento ou cansaço. Vitória mesmo ou só preguiça.

Tanto faz. Não interessa. Os fins justificam os meios. Eu concluí o sucesso, não preciso saber do caminho.

Seja lá o que tenha sido, não foi tão bem feito. Alguma coisa ali escapou, passou despercebida. Uma válvula, falta de oxigênio, excesso de endorfina. E quem é que vai remediar agora?
Quem é que vai me botar numa cama quentinha, ouvir tudo que eu nunca tenho a dizer sobre nada? Alguém aí vai querer meia hora de lamentações e questionamentos idiotas?

Eu tentei tanto continuar a ser a terceira pessoa. Tentei deixar tudo isso pra um personagem sem pé nem cabeça que me representa tão bem. Tentei florear, inventar e me saí perfeitamente bem. Não fosse pelo fato de ainda ser uma mulherzinha excessivamente frágil que começa a chorar com um seriado bobo na tv com suas músicas de dor e inicia aí o processo de avaliação da sua própria vida.

Não, não é um bom momento pra concluir se tenho me sabotado mais do que normalmente. Não é um bom momento pra questionar fins de relacionamentos, lembrar de ex namorados e suas namoradas cheias de silicone. Também não é um bom momento pra ter a internet como fonte de inspiração e investigação.

Eis que qualquer música que fale de qualquer dor, me comove. Pode até ser dor de ouvido. Mas a que mais dói é o chute na quina da mesinha de cabeceira. E ninguém foi capaz de escrever uma música sobre isso.

Isso é que é dor.

Eu aguentei por tanto tempo. Foram dias de glória, entusiasmo puro. Nenhuma crise existencial, nenhum draminha barato, nenhum texto sobre a porra do amor. E agora dói tudo.

E qual o remédio pra essa dor passar? Dor de ouvido pode ser curada com antibiótico. Mas e agora? O que resolve? Colo de mãe? Brigadeiro? Porre com os amigos? Choro na madrugada?
Jogar o computador pela janela com as músicas, seriados e teclas pra escrever?
É aí que eu escuto lá no fundo alguém me dizendo

"Só mais dois dias, meu bem... só mais dois dias e a TPM acaba".

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