- E se eu levantar agora, jogar tudo pro alto e não te disser pra onde eu vou? Você vai atrás de mim?
- Claro. Você não perguntaria isso se não quisesse que eu vá atrás de você.
- Então você só iria porque sabe que é isso que eu quero?
- Você sempre me dá pistas do que você quer. E as coisas que eu quero estão, indiretamente, ligadas as que você quer. Ou diretamente. As vezes é bem fácil de saber. E difícil distinguir o que é você falando aqui dentro e o que sou eu querendo.
- Tipo uma musiquinha com o som e a letra?
- É, daquelas que você nunca consegue descobrir se gosta mais da letra ou da melodia. Melodia, é assim que chama o som. Você escuta mil vezes e não imagina um sem o outro, sabe?
- Que clichê. Duas pessoas sendo uma só? Sem você saber onde termina você e começa eu?
- Não. Longe de clichê, longe da presunção de pertencer demais assim. É só um pedaço, pode ser que no fim da música você mude de idéia. Ou então você descobre que a versão acústica é tão boa quanto ou ainda melhor.
- Eu sou sua versão acústica? Violão e voz?
- É. Você é a versão acústica das minhas vontades. Pode ser. Começa sendo a junção de melodia e letra e aí você entra como a versão acústica, que gera aquela ansiedade momentanea, o estranhamento imediato e depois a tranquilidade de uma música desligada da tomada.
- Tipo uma fogueira? Sem tomada, quentinha ao natural?
- Ou um ar condicionado. Combina com os seus pés sempre gelados. E com as suas frustradas tentativas de parecer fria e calculista. Mas entende que até o ar condicionado quando tá desligado pode ficar quente. E depende de alguém pra ligar pra começar a esfriar.
- Mas os pés, ao contrário, só esquentam quando ligam. Quando você liga.
- Pode ter aquecedor. Sempre os dois lados. Sempre um eu aqui que você não sabe como separar daí. Consegue entender?