Eu deito na cama, ajeito o edredon com os botões pra cima. Tiro o pé direito do quentinho num movimento sempre calculado pra não descobrir o resto do corpo. Estico, alcanço o interruptor e, aí sim, posso apagar a luz. Não gosto da sensação de nada do escuro. A luz apaga e eu fico cega, não enxergo, não sinto. Continuo com os olhos bem abertos pra que as pupilas dilatem e eu enxergue alguns poucos detalhes.
Quando eu era criança, dividia o medo na hora de dormir entre o assassino daquela atriz da globo entrar pela minha janela, e o brinquedo assassino sair de trás da porta do meu quarto. Como minha cama ficava encostada na parede da janela, eu focava os olhos no teto e podia, atraves da minha visão periférica, conferir a porta e a janela ao mesmo tempo, impedindo que eles me pegassem de surpresa.
Eu só dormia quando não aguentava mais ficar de guarda.
Quando era um pouco menor tentava não dormir com medo de morrer dormindo e nem perceber. Às vezes eu tentava dormir mexendo um dedo pra ter certeza, quando eu acordasse, que continuava viva. Eu não sei exatamente qual é o sentido disso, mas, na minha pequena cabeça, era a garantia de continuar respirando.
Eu acreditava quando o irmão mais velho dizia que, para ressussitar, era só desmaiar depois de morrer. E eu rezava todos os dias pra ter essa sorte e quase chorava quando ficava em dúvida entre pedir por mim ou pelo irmão mentiroso. Eu tinha sensações esquisitas de, vez ou outra, achar que eu não existia de verdade.
Olhava, olhava, olhava e não conseguia me ver. Eu já tentei explicar um milhão de vezes, mas nunca ninguém entendeu mesmo. É uma coisa bem maluca.
Eu chorava com um medo absurdo de morrer, de ficar longe da minha mãe, sem dormir na cama do meu pai. Precisava da paciência interminável do meu pai pra me convencer que eu não ia morrer, que ele não ia deixar. E aí eu corria pra cama dele no meio da noite com medo que alguém me tirasse dali. Ele me encaixava grudada na barriga dele e eu chorava de alívio profundo da alma, porque ali eu sabia que ninguém conseguia chegar, só eu.
Eu aprendi as mentiras mais elaboradas nessa época. Um dia era o filme feio que não me deixou dormir. Outro dia era dor de barriga. No outro é porque só tava passando filme de morte na tv e todo mundo sabe que, quem tem medo de escuro, só dorme com a tv ligada.
Meu pai não questionava e perdia o sono só pra não me deixar ficar com medo.
Era um medo tão bobo que até hoje eu não consigo pensar em brinquedo assassino e passo longe dos filmes de terror. Eu repito o ritual pra apagar a luz do quarto com o pé, pra não precisar levantar e me locomover no escuro.
Quando eu preciso apagar a luz da cozinha de madrugada, eu venho correndo pro quarto com a nítida sensação de que tem alguém correndo atrás de mim, eu quase grito, eu quase me jogo no chão e me entrego, porque não tem nada mais desesperador do que fugir. Eu entro no quarto rápido, fecho a porta e fico olhando pra tudo por uns segundos. Eu imagino uma bolha em volta do meu apartamento e vários anjinhos da guarda. Eles ficam lá de prontidão, impedindo assaltos, sequestros, balas perdidas, terremotos e afins.
É incrível como mesmo questionando todas essas bobagens infantis, elas funcionam como as lendas de mãe, eu não consigo deixar de lado.
Sempre vou cumprir os mesmos rituais. Sempre vou gostar de escrever de madrugada quase morrendo de sono e quase cega com a luz apagada e o quarto todo iluminado pela luz do computador. Eu sempre vou querer aproveitar pra ficar acordada até tarde só pra poder ter sono no domingo de manhã. Eu sempre vou gostar da sensação de frio em casa num sábado a noite. Eu sempre vou gostar de reclamar da vida, fazer dramas, rir dos dramas, aconselhar os dramas alheios e continuar achando o meu mundo o melhor pra se viver.
sábado, 16 de maio de 2009
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Segunda feira, às nove da noite
Eu marquei um horário comigo mesma. Segunda feira às 9 noite. Depois que o estágio com os doentinhos terminar, depois da maratona Araucária-Curitiba, depois do estágio de humanidade no ônibus às 6 da tarde. Depois que eu resolver o problema do computador, depois que o encanador for embora. Depois do banho quente e demorado com o sabonete novo pra ocasiões especiais.
O cheiro de frutas vermelhas espalhado pelo banheiro tem um efeito quase hipnótico. Eu fecho os olhos e finjo que to num comercial brega de televisão tocando qualquer música clássica ao fundo, de preferencia com aquelas banheiras de espuma transbordando ou pedaços de seda escorregando pelas pernas perfeitamente depiladas.
Eu continuo com os olhos fechados e Mozart tocando lá no fundo. Eu chego a ficar na ponta dos pés e tento aquelas rodadinhas bichonas dos bailarinos.
Eu consigo não pensar em nada e acho a maior felicidade dentro do meu banheiro com cheiro de frutas vermelhas. Eu escrevo no box embaçado e finjo que tenho, de novo, 8 anos de idade. Falo sozinha, canto sozinha, conto os meus dramas pra minha platéia e escuto os conselhos que eu nunca quero seguir. Eu mudo o tom de voz pra ver como seria falar mais agudo, mais grave, com a acústica perfeita do banheiro cheio de vapor. Eu saio do banho e finjo que tenho os lábios da Angelina Jolie e a barriga na Shakira de frente pro espelho. Faço meu próprio ensaio sensual e vendo as minhas imagens pro meu espelho. Ele não reclama, paga bem e favorece meus peitos.
E segunda chegou, são oito e cinquenta da noite, tá quase na minha hora. Coloco Radiohead. If I could beeeee, who you wanteeeed. Apago todas as luzes. Vai, Ana, sofre. Você precisa sofrer um pouco. Vai. Você combinou que se daria pelo menos uns instante de luto pelo amor que morreu. Vamos lá. Uma lágrima. Um, dois, três e…e…e…ah, eu tenho mais o que fazer!
O cheiro de frutas vermelhas espalhado pelo banheiro tem um efeito quase hipnótico. Eu fecho os olhos e finjo que to num comercial brega de televisão tocando qualquer música clássica ao fundo, de preferencia com aquelas banheiras de espuma transbordando ou pedaços de seda escorregando pelas pernas perfeitamente depiladas.
Eu continuo com os olhos fechados e Mozart tocando lá no fundo. Eu chego a ficar na ponta dos pés e tento aquelas rodadinhas bichonas dos bailarinos.
Eu consigo não pensar em nada e acho a maior felicidade dentro do meu banheiro com cheiro de frutas vermelhas. Eu escrevo no box embaçado e finjo que tenho, de novo, 8 anos de idade. Falo sozinha, canto sozinha, conto os meus dramas pra minha platéia e escuto os conselhos que eu nunca quero seguir. Eu mudo o tom de voz pra ver como seria falar mais agudo, mais grave, com a acústica perfeita do banheiro cheio de vapor. Eu saio do banho e finjo que tenho os lábios da Angelina Jolie e a barriga na Shakira de frente pro espelho. Faço meu próprio ensaio sensual e vendo as minhas imagens pro meu espelho. Ele não reclama, paga bem e favorece meus peitos.
E segunda chegou, são oito e cinquenta da noite, tá quase na minha hora. Coloco Radiohead. If I could beeeee, who you wanteeeed. Apago todas as luzes. Vai, Ana, sofre. Você precisa sofrer um pouco. Vai. Você combinou que se daria pelo menos uns instante de luto pelo amor que morreu. Vamos lá. Uma lágrima. Um, dois, três e…e…e…ah, eu tenho mais o que fazer!
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Espera
Já é a terceira vez que eu venho aqui só hoje pra tentar te dizer umas verdades. Eu engasgo com as verdades e te contos umas mentiras sem nexo só pra parecer que eu escrevo bonitinho. Eu nem sei se você me entende, mas eu sinto a maior necessidade de vir aqui te contar sobre tudo acontece. Eu queria que você "me lesse" e apertasse os olhos pra ler mais de perto, tentando compreender um pouco mais. Queria que você fechasse um pouco os olhos, com a mão direita sobre a boca, quase arrancando seu lábio inferior. E, ao final, você passa a mão no cabelo despenteado, rindo sozinho, dizendo "Essa menina é maluca." Com a sua maior pose de criança, descobrindo todas as coisas do mundo... de crianças.
Eu venho aqui pra te contar que a tarde de hoje arrasou comigo. Arrasou. Eu vi os pedaços de um filme no consultório médico que me fez esperar duas horas pra 15 minutos de consulta. Tinha esse cara no filme, o garçom que sempre sorria. Não contava os problemas dele pra ninguém, e todo mundo achava que ele era a pessoa mais feliz do mundo. As pessoas até questionavam o fato de não ter dinheiro, não ser casado, morar e viver sozinho, completamente sozinho. E, ainda assim, feliz. Ele não era tão feliz, ele chorava repetidas noites porque não conseguia se expressar. Esse era o seu pecado. Ele pagava um preço alto por não conseguir parar de sorrir e reclamar um pouco da vida. Vê como isso é perturbador? E quando ele foi tentar contar alguma coisa pessoal, alguém aproveitou a deixa, o assunto e contou coisas pessoais suas. O garçonzinho que servia gente feliz com amargura, se culpou por tentar se expor e achou que tava mesmo certo por guardar tudo aquilo pra ele mesmo.
Eu chorei um absurdo quando saí de lá. Eu que sempre desejo ser as mocinhas ou os mocinhos dos filmes, fiquei com medo de ser o garçom, uma pessoa feliz que servia a uma beleza triste.
Eu quase quis me abrir com a médica, mas ela tava usando um vestido vermelho que tirava minha atenção de toda e qualquer outra coisa em que eu pudesse querer pensar. Eu até esqueci daquela dor estranha que eu te contei esses dias. Acho que já passou. Ela não quis saber, talvez não tenha mesmo a menor importância. Por isso eu vim aqui contar pra você.
Acho que tudo começou com aquela música as 7 da manhã que me fez, meio dormindo, sonhar acordada com os minutos pré-adeus. E ela dizia mesmo que ia doer, eu que não acreditei, mesmo com aquela sensação estranha de ver o carro virando a última esquina ao alcance dos meus olhos, sabendo que vou esquecer a placa do carro e ele nunca mais vai fazer a volta.
Eu sou assim mesmo, eu recebo todos os sinais do universo, mas espero não aguentar mais andar por aqui pra tentar o outro lado. Preciso ir até o final pra ver se não encontro um pote de ouro no fim do arco-íris. Desde pequena me ensinam que quem espera sempre alcança, que no fim do tunel sempre existe uma luz e, finalmente, no final do arco-íris tem um pote de ouro. Eu ainda não sei as regras gramaticais e não sei mesmo se arco-íris tem ou não tem mais hífen. Tanto faz, assim como tanto faz se o pote tá lá ou não. Um dia eu descubro, eu podia até ir correndo, mas ando com uma preguiça imensa de atropelar as coisas, como costumava. Ando com preguiça de saber antes tudo que vai acontecer, nem a sinopse dos filmes eu leio mais. Não sei se é culpa sua, mas um pouco da espera, eu consegui acalmar.
Eu venho aqui pra te contar que a tarde de hoje arrasou comigo. Arrasou. Eu vi os pedaços de um filme no consultório médico que me fez esperar duas horas pra 15 minutos de consulta. Tinha esse cara no filme, o garçom que sempre sorria. Não contava os problemas dele pra ninguém, e todo mundo achava que ele era a pessoa mais feliz do mundo. As pessoas até questionavam o fato de não ter dinheiro, não ser casado, morar e viver sozinho, completamente sozinho. E, ainda assim, feliz. Ele não era tão feliz, ele chorava repetidas noites porque não conseguia se expressar. Esse era o seu pecado. Ele pagava um preço alto por não conseguir parar de sorrir e reclamar um pouco da vida. Vê como isso é perturbador? E quando ele foi tentar contar alguma coisa pessoal, alguém aproveitou a deixa, o assunto e contou coisas pessoais suas. O garçonzinho que servia gente feliz com amargura, se culpou por tentar se expor e achou que tava mesmo certo por guardar tudo aquilo pra ele mesmo.
Eu chorei um absurdo quando saí de lá. Eu que sempre desejo ser as mocinhas ou os mocinhos dos filmes, fiquei com medo de ser o garçom, uma pessoa feliz que servia a uma beleza triste.
Eu quase quis me abrir com a médica, mas ela tava usando um vestido vermelho que tirava minha atenção de toda e qualquer outra coisa em que eu pudesse querer pensar. Eu até esqueci daquela dor estranha que eu te contei esses dias. Acho que já passou. Ela não quis saber, talvez não tenha mesmo a menor importância. Por isso eu vim aqui contar pra você.
Acho que tudo começou com aquela música as 7 da manhã que me fez, meio dormindo, sonhar acordada com os minutos pré-adeus. E ela dizia mesmo que ia doer, eu que não acreditei, mesmo com aquela sensação estranha de ver o carro virando a última esquina ao alcance dos meus olhos, sabendo que vou esquecer a placa do carro e ele nunca mais vai fazer a volta.
Eu sou assim mesmo, eu recebo todos os sinais do universo, mas espero não aguentar mais andar por aqui pra tentar o outro lado. Preciso ir até o final pra ver se não encontro um pote de ouro no fim do arco-íris. Desde pequena me ensinam que quem espera sempre alcança, que no fim do tunel sempre existe uma luz e, finalmente, no final do arco-íris tem um pote de ouro. Eu ainda não sei as regras gramaticais e não sei mesmo se arco-íris tem ou não tem mais hífen. Tanto faz, assim como tanto faz se o pote tá lá ou não. Um dia eu descubro, eu podia até ir correndo, mas ando com uma preguiça imensa de atropelar as coisas, como costumava. Ando com preguiça de saber antes tudo que vai acontecer, nem a sinopse dos filmes eu leio mais. Não sei se é culpa sua, mas um pouco da espera, eu consegui acalmar.
Olhos verdes
Tem um telefone tocando aqui, não é o meu. Eu conheço esse nome, mas não lembro direito quem é o dono dele. Nem do telefone. Dá pra alguém atender aqui? Não? Não mesmo? Alô, tudo bem? É a Ana. Não, não sei se a gente se conhece, enfim. Acho que to te vendo, seus amigos sumiram daqui agora pouco, mas eu to te vendo, to com os braços erguidos, consegue ver? Oi, sou eu mesma. A maluca do telefone. É, eu também acho que a gente se conhece de algum lugar. Bom, você é amigo dos meus amigos, a gente já deve ter se esbarrado por aí. Familiar, bem familiar, seu rosto, sua voz, seu jeito. Não sei de onde, não sei quando. Que falta de memória. Será que ele tá mentindo? Será que ele lembra de mim mas não quer admitir porque eu não lembro? Mentira, eu sei quem é. Sei exatamente todas as duas vezes que nos encontramos anos atrás, sei o nome da mãe, da irmã, da cachorra. Grande, peluda, preta e branca com patas meio amareladas, muito pesada e muito babona. A mãe não, a cachorra. Eu lembro como se fosse ontem. Eu ainda era uma menina deslumbrada com o primeiro namorado, assustada pelo flerte discarado na frente de todo mundo enquanto a cachorra babava nas nossas pernas. Eu ainda era uma menina meio rebelde, meio com causa, meio esquisita. Usava umas roupas com aparencia de velha só porque o namoradinho da época achava bonitinho. Me aventurava pela vida com ele e achava que um dia ia carregar seus filhos na barriga. Graças a Deus as decisões mais importantes da vida não são tomadas aos 18 anos. Graças a Deus pai e mãe existem pra dar um peteleco na orelha e te fazer acordar. E agora você tá aqui, 4, 5 anos depois. E a gente pode, finalmente, conversar sem culpa. Como as coisas mudam com o passar dos anos. Eu já fiquei tão brava porque meus namoradinhos em potencial arrumavam namoradinhas reais, que chorava copiosamente com a maior dor de ciúmes do mundo. Eu culpava tanto o mundo por não me dar essa chance e disperdiçar com qualquer outra esquisita em forma de menina. Eu me culpava tanto por não ser o que eu deveria ser pra conquistar um dos namoradinhos babacas deslumbrados com a primeira namoradinha babaca e sem sal. E eu tinha sal, sempre tive. Sal e açucar combinados em doses iguais pra ninguém morrer hipoglicêmico e nem de pressão baixa. Hoje todos eles já terminavam, a gente até já engatou um romancezinho sem graça, mas acho que eles combinavam mesmo era com as esquisitinhas. Eu não tenho a menor vocação pra segunda opção, embora as vezes me satisfaça integralmente com esse posto. E agora... agora que já podemos conversar sem culpa, não tem a menor graça.
A mosca
Eu senti culpa por matar uma mosca. Ela não tem nada a ver com a minha falta de paciencia com os seus barulhinhos. Eu matei, sem dó nem piedade. Ela caiu bem em cima da minha cama, se debatendo freneticamente e eu só joguei no chão. Eu senti a frieza sem remédios na minha mão apertando sem parar o inseticida em cima da pobre coitada. Sou pura melancolia. Quando eu digo que viver dá um medo filha da puta, eu realmente acredito nisso. Agora eu só tenho vontade de me fechar na minha bolha e não respirar o inseticida que eu espalhei pelo quarto. Eu chorei tanto. De tanta dor. Que nem consigo mais abrir os olhos. E agora fico sentindo aquele gosto amargo, uma narina entupida, a outra escorrendo. O coração batendo devagar se recuperando de mais um drama daqueles. A garganta prendendo a respiração pra não cair no choro outra vez.
E isso me lembra uma vez na praia com a maior barata de todos os tempos e o mair herói de toda a minha vida. E isso me provoca aquela pontinha de ciúmes do meu passado. Como eu posso ter sido tão boa pra ter você tão perto e agora não ser capaz de prender a tua atenção em mim? O que a Ana do passado tinha que a Ana do presente não tem? Será que eu ando mesmo surtando mais do que devia como você me disse? Odeio admitir que você tá certo, tanto quanto odeio perder uma aposta. Mas eu sempre tento ganhar por detalhes técnicos. E aprendi com você a sempre defender o meu ponto de vista, só que as vezes eu me perco e nem sei mais o que eu quero provar. E aí eu só fico gritando, te fazendo perder a paciencia, enquanto eu só queria uns dois braços me envolvendo, um beijo na testa, um carinho de protetor. Faz falta namorar. Faz falta brigar e saber que logo vai ficar tudo bem, porque eu odeio a ansiedade de não saber o que esperar. Odeio não saber se você vai cansar de mim e nunca mais olhar na minha cara daqui 10 minutos ou se vai me ligar 10 vezes de madrugada pra me contar que bateu o carro.
Eu sei que eu to ficando repetitiva, eu nem sei se você sabe que eu to falando de você. E eu bem sei que preciso seguir o exemplo da amiga e mudar logo de assunto, de foco, de vida, de coração. Eu não sei o que acontece, mas talvez alguém tenha feito a minha vontade e me amarrado ao pé da cama, com um bom murro na boca e uma boa dose de comprimidos. O resto não fez efeito, mas eu ainda não consigo sair do lugar.
A mosca finalmente parou de bater as asas e girar em volta do próprio corpo. Eu joguei pela janela sem saber onde ela vai cair, torcendo pra que seja na grama e ela tenha um enterro digno da vida que levou atormentando o meu sossego.
E isso me lembra uma vez na praia com a maior barata de todos os tempos e o mair herói de toda a minha vida. E isso me provoca aquela pontinha de ciúmes do meu passado. Como eu posso ter sido tão boa pra ter você tão perto e agora não ser capaz de prender a tua atenção em mim? O que a Ana do passado tinha que a Ana do presente não tem? Será que eu ando mesmo surtando mais do que devia como você me disse? Odeio admitir que você tá certo, tanto quanto odeio perder uma aposta. Mas eu sempre tento ganhar por detalhes técnicos. E aprendi com você a sempre defender o meu ponto de vista, só que as vezes eu me perco e nem sei mais o que eu quero provar. E aí eu só fico gritando, te fazendo perder a paciencia, enquanto eu só queria uns dois braços me envolvendo, um beijo na testa, um carinho de protetor. Faz falta namorar. Faz falta brigar e saber que logo vai ficar tudo bem, porque eu odeio a ansiedade de não saber o que esperar. Odeio não saber se você vai cansar de mim e nunca mais olhar na minha cara daqui 10 minutos ou se vai me ligar 10 vezes de madrugada pra me contar que bateu o carro.
Eu sei que eu to ficando repetitiva, eu nem sei se você sabe que eu to falando de você. E eu bem sei que preciso seguir o exemplo da amiga e mudar logo de assunto, de foco, de vida, de coração. Eu não sei o que acontece, mas talvez alguém tenha feito a minha vontade e me amarrado ao pé da cama, com um bom murro na boca e uma boa dose de comprimidos. O resto não fez efeito, mas eu ainda não consigo sair do lugar.
A mosca finalmente parou de bater as asas e girar em volta do próprio corpo. Eu joguei pela janela sem saber onde ela vai cair, torcendo pra que seja na grama e ela tenha um enterro digno da vida que levou atormentando o meu sossego.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Respira fundo
Dá um medo agudo no fundo da alma. Daqueles que doem lá no fundo da garganta, onde nem deve mais ser garganta. Uma pontada no meio do peito que se espalha por todo o resto do corpo. As duas mãos burras não sabem onde param pra parecerem naturais. Elas não são naturais a essa altura do campeonato. O cabelo parece ter sido alvo de choques elétricos porque insiste em não parar no lugar. As duas mãos burras tentam ajeitar, mas o suor destrutivo só piora as coisas. O estômago dá um salto mortal a cada 5 segundos e eu tenho que prender a respiração pra não vomitar a ansiedade descontrolada. Acendo um cigarro pra fingir a minha melhor pose de pretensão despretensiosa. Eu começo a olhar em volta, sorrindo muito, suando muito, morrendo muito. Desejando não ter tido a estúpida idéia de ter ido. Eu não devia ter ido, eu nunca vou conseguir disfarçar tanta falta de jeito. Eu me torno estúpida, sem nexo e super burra. Além de surda, porque preciso perguntar tudo duas vezes pra poder pensar na melhor resposta. Mas esse tempo é usado só pra deixar tudo mais esquisito. Eu não consigo expressar tudo que eu penso, não consigo mostrar o quanto sou bem resolvida, engraçada, inteligente. Eu só consigo balbuciar comentários que me fazem querer mais ainda nunca ter nascido.
Eu rio alto, essa é uma mania que eu nunca consegui controlar. Finjo que sou a pessoa mais bem humorada do sistema solar e, vez ou outra, sinto uma vontade absurda de correr pro colo da minha mãe e escuta-la me dizendo "Filha, você precisa parar com isso". E, mesmo sabendo que eu preciso parar com tantas coisas, parece que mais quero provar pra mim mesma que um dia eu vou conseguir, cometendo os mesmos erros, que um dia vão virar acertos. E aí eu vou poder olhar pra um monte de gente que nunca acredita em mim e dizer um daqueles ditados que só servem pra deixar umas conversas um pouco mais incrementadas.
E aí eu viro pro lado e vejo ali, tão pertinho. E finjo que não vi, rindo alto, prendendo o cabelo e soltando repetidas vezes, sentindo meu colo ficando rosa e respirando bem fundo, discretamente, afim de não morrer virando os olhos de ataque cardíaco. O mundo parece tão desinteressante assim que eu só consigo lembrar da coisa mais sexy que já vi na vida. Sexy mesmo, coisa brega de filme de amor com Julia Roberts e Richard Gere. Eu só consigo lembrar dos seus ombros nem tão largos assim, nem tão alinhados assim. Perfeitamente assim. O vão que você tem no meio das costas me paraliza e te faz ganhar o prêmio de homem mais sexy do mundo na minha vida de novelas. Eu lembro e vejo você correndo de um lado pro outro, também sempre rindo. E se a gente não ri juntos eu ainda acredito na felicidade sem egoísmos. É que eu não sei mais se você é o homem da minha vida, mas agora você ganhou o posto de homem mais sexy da minha vida. Os anos vão passar, eu vou crescer, virar uma adulta de verdade, vou trabalhar de terninho e salto alto, vou participar de happy hours com a real intenção de relaxar depois do trabalho. Vou chamar os amigos pra jantar na minha casa à la cafe de la musique. Vou aprender a cozinhar e todo mundo vai ficar besta quando lembrar de quanto eu era uma moleca sem preguiça da vida. Viver causa um medo filha da puta, uma preguiça filha da puta. E eu continuo colecionando histórias pra contar.
Você passou por mim e você me viu e aí eu escondi todo aquele pavor de baixo das minhas defesas pessoais e virei de uma só vez o copo cheio. Eu não quero aplausos pelo gosto de fingir o poder que eu não tenho, quero admiração pela coragem de não conseguir fingir e continuar parada no mesmo lugar. Vez ou outra andando por aí, pra distrair as pernas, os olhares. Pra enganar minhas próprias esperas e desejar, por pouco tempo que seja, um olhar um pouco mais discreto, um pouco mais quieto, um pouco mais alto e nada determinado.
Eu já rio agora, daqui um tempo vou gargalhar de saudade das novelas dos meus 20 e poucos anos.
Eu rio alto, essa é uma mania que eu nunca consegui controlar. Finjo que sou a pessoa mais bem humorada do sistema solar e, vez ou outra, sinto uma vontade absurda de correr pro colo da minha mãe e escuta-la me dizendo "Filha, você precisa parar com isso". E, mesmo sabendo que eu preciso parar com tantas coisas, parece que mais quero provar pra mim mesma que um dia eu vou conseguir, cometendo os mesmos erros, que um dia vão virar acertos. E aí eu vou poder olhar pra um monte de gente que nunca acredita em mim e dizer um daqueles ditados que só servem pra deixar umas conversas um pouco mais incrementadas.
E aí eu viro pro lado e vejo ali, tão pertinho. E finjo que não vi, rindo alto, prendendo o cabelo e soltando repetidas vezes, sentindo meu colo ficando rosa e respirando bem fundo, discretamente, afim de não morrer virando os olhos de ataque cardíaco. O mundo parece tão desinteressante assim que eu só consigo lembrar da coisa mais sexy que já vi na vida. Sexy mesmo, coisa brega de filme de amor com Julia Roberts e Richard Gere. Eu só consigo lembrar dos seus ombros nem tão largos assim, nem tão alinhados assim. Perfeitamente assim. O vão que você tem no meio das costas me paraliza e te faz ganhar o prêmio de homem mais sexy do mundo na minha vida de novelas. Eu lembro e vejo você correndo de um lado pro outro, também sempre rindo. E se a gente não ri juntos eu ainda acredito na felicidade sem egoísmos. É que eu não sei mais se você é o homem da minha vida, mas agora você ganhou o posto de homem mais sexy da minha vida. Os anos vão passar, eu vou crescer, virar uma adulta de verdade, vou trabalhar de terninho e salto alto, vou participar de happy hours com a real intenção de relaxar depois do trabalho. Vou chamar os amigos pra jantar na minha casa à la cafe de la musique. Vou aprender a cozinhar e todo mundo vai ficar besta quando lembrar de quanto eu era uma moleca sem preguiça da vida. Viver causa um medo filha da puta, uma preguiça filha da puta. E eu continuo colecionando histórias pra contar.
Você passou por mim e você me viu e aí eu escondi todo aquele pavor de baixo das minhas defesas pessoais e virei de uma só vez o copo cheio. Eu não quero aplausos pelo gosto de fingir o poder que eu não tenho, quero admiração pela coragem de não conseguir fingir e continuar parada no mesmo lugar. Vez ou outra andando por aí, pra distrair as pernas, os olhares. Pra enganar minhas próprias esperas e desejar, por pouco tempo que seja, um olhar um pouco mais discreto, um pouco mais quieto, um pouco mais alto e nada determinado.
Eu já rio agora, daqui um tempo vou gargalhar de saudade das novelas dos meus 20 e poucos anos.
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