sábado, 1 de agosto de 2009

João e Maria

Um dia desses você vai me ver passar. Eu não vou vestir a pretensão de te causar sofrimento e nem posar de sofredora sem rumo, com olhos caídos e lábios tremendo. Eu vou estufar o peito pra que pareça ainda maior, vou passar a mão no cabelo denunciando a minha falta de jeito, vou sorrir e vou te mostrar a lingua. Você vai morrer de rir, passar por mim ileso e eu vou continuar com a lingua de fora mostrando pro mundo que eu posso até morrer, mas ninguém vai sabaer.

Um dia desses eu vou ligar o rádio e aquele maldito cd vai tocar aquela maldita música que você adora. Eu vou ouvir em sua homenagem, no meu ritual de luto. Vou conseguir ouvir até o final, cantar um ou dois refrões e quando a música acabar vou sorrir baixinho e quase morrer de saudades.

Duas vezes eu quase morri de saudades de você. Uma quando eu vi Closer e lembrei que o amor, como deveria, não existe. E outra quando escutei sem esperar “Quem te viu, quem te vê” e lembrei que você era um pedaço charmoso de tudo o que o mundo e a vida têm de mais charmoso.

Você namora, casou, sei lá, com qualquer menina que não tem cara de louca. E essa é a minha vingança, porque eu sei que você é mais feliz sem loucura, mas a felicidade e a normalidade não existem. Eu ainda acho que a gente tinha alguma verdade que faz você, nem que seja a cada 100 anos, arranhar uma música velha em meu luto. Um luto cheio de vida.

Vez ou outra chegam aqueles emails que a gente manda sem nem saber pra quem, com frases quase íntimas envoltas pela maior frieza do mundo. É como se a cada letra você reafirmasse que somos amigos cheios daquela inteligência de camaradas descolados e bem resolvidos que, como tudo na vida que ainda respira e tem cor, seguiram em frente.

Sim, somos isso mesmo, claro. Mas eu quero que se foda tudo isso e fico com o seu abraço naquele fim de festa estranho em que você voltou só pra me tirar do meu sofrimento e, para a minha surpresa, me fez matar a saudade do meu mundo.

Eu fico com as danças que sem nenhum medo das críticas eu improvisei para o nosso espaço no universo. Dancei como uma bailarina que volta a funcionar milagrosamente, e pela última vez, numa caixinha de música quebrada.

Eu fico para sempre com o que você plantou em mim.
Você está bem onde está, eu estou bem onde estou. Mas, um dia desses eu vou passar indo com meu novo amor e cruzar você vindo com seu novo amor e não vai ter como a gente não olhar pra trás.


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