sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Procura-se um novo nome

Eu relutei milhões de vezes quando ele dizia que era melhor que eu escrevesse falando de alguém do que de mim mesma. Alguém que fosse e que não fosse eu. Questionei a necessidade de criar uma personalidade paralela, arrisquei diagnósticos de personalidades perturbadas, fiquei com medo de assumir todas as formas e não assumir nenhuma.
Comecei todas as frases falando de mim e percebi que, por mais exposição que eu tentasse fazer, falar de mim nunca é falar inteiro. O falar pela metade, o ser pela metade. Aquilo tudo que eu concluí com uma adolescência simples e, ao mesmo tempo, perturbada. A metade satisfaz. O copo meio cheio mata a sede. O cigarro pela metade freia os impulsos de fumar a carteira inteira. O meio do caminho sempre dá a opção de recuar quando lá na frente parece um lugar escuro demais.
O velho papo de intensidade não me dá mais nenhum tesão. Eu acabei sendo pela metade e descobri que assim é bem mais fácil. Mas será que então ele tinha razão desde o começo? Sendo metade quer dizer que tem outra metade pra ser preenchida. Havendo outra metade há a vaga livre pra um novo intérprete. Que comecem os ensaios e venham os testes.

A única parte

Uma batida de carros bem discreta. Diferente do habitual, sem barulhos, sem gritos. Aquele som abafado pelo peso do ar, as coisas girando em câmera lenta, tudo caminhando a passos lentos ao redor. Um sorriso levemente embriagado, olhos quase se fechando, conversas intermináveis em volta e nada podia realmente ser ouvido. A cabeça balançava de um lado pro outro. A música quase não era ouvida, mas, vez ou outra, um barulho agudo despertava pra realidade que se encontrava logo abaixo. Uma batida suave dessa vez. Sem mortos e feridos. Conversas francas, sofrimentos comuns e transparentes. Todo mundo se compadece da dor de um término. Nesse caso foram dois. Dois términos e um encontro. O tempo fica passando atropelado, olhar pro relógio é inevitável. Temos todo o tempo do mundo, mas parece que o fim vai chegar logo. Um frio na barriga, um suspiro profundo, um gole demorado do copo quase cheio. As cabeças concordavam em movimentos parecidos. É tudo tão igual, mas eu quase nunca sei o que fazer.
E aí o tempo passa. A próxima batida dessa vez é de propósito. Já foram 9 copos, não há nada que me faça sentir o despreparo. A música continua tocando lá e eu continuo sem saber o que é mundo ao redor daqueles "10 passos quadrados". O riso continua alto, os olhos continuam decorando todo e qualquer movimento. Dessa vez o tempo passa devagar, não há nada que eu não possa fazer.
Duas bocas dançando em ritmos improvisados. Enquanto mãos, peles, braços, pernas se conhecem pela primeira vez. Os arrepios são inevitáveis, os suspiros vem junto à cada encontro dos olhos que se beijam pela primeira vez.
A cabeça repousa no meu peito, eu conto as batidas do meu coração e brinco com as sombras na parede.

Enfim... nós!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Você

Entre muito e pouco eu acabei encontrando você. Entre muita falta de jeito e pouca paciência. Muita ansiedade e pouca experiência. Muita vontade e poucas atitudes. Entre escrever e não saber o que dizer, eu acabei sentindo o que eu jamais vou saber como explicar. Onde nunca a frase fez tanto sentido, onde eu nunca encontrei a calmaria que até duvidava que existia. Foi aí que você apareceu. Com toda a sua pose, sorrindo de lado, baixando os olhos e me entregando os pontos. Metade dos pontos, porque o resto nós havemos de encontrar juntos. Você falando baixinho no meu ouvido e eu gritando no ouvido do mundo. Você dobrando as esquinas e eu dobrando seus planos. Eu sujando meu chão com esperas descabidas e você lavando tudo com amaciante de ursinho. E aí meu mundo inteiro se enche de coraçõezinhos com seu nome dentro, parece que eu estudo no primário de novo. E até isso você conseguiu, apaziguar a vontade de envelhecer sem perceber.Você é uma espécie nova ainda sem classificação.
Enquanto eu fico tentando achar defeitos, você acha meus pés gelados em baixo do cobertor e respira fundo perto da minha nuca. E eu que achava que só eu encontrava esses lugares em você. E aí vem você, sempre encontrando os meus lugares. Os meus lugares que eu nem sabia que existiam, despertando sensações que eu nunca conheci. E aí o mundo inteiro se enche de amor. E eu fico brega demais, e a gente fica brega demais. É risada ao pé do ouvido, sopros pra dar arrepios, sussurros pra esquentar a alma e mãos quentes pra me esquentarem gelada.
É coraçãozinho com a mão, declaração de amor em plena página social, sorriso de apaixonada no meio da rua. Seguir os passos por aí, pular e nem perceber, encontrar e nem procurar. Mas eu sou mesmo muito brega. Quero que todo mundo seja feliz, que todos os casais se amem, que todas as mulheres procurem vestidos de noiva e todos os meninos casem com as suas paixões da adolescência. Quero que nasçam todos os bebês do mundo, que todos sejam bonitos e as mães sempre gostosas. Quero que as árvores tenham coraçõezinhos desenhados, que as núvens tenham formato de filhotinhos, que as calçadas todas sejam lavadas com amaciante cheiroso de comercial de tevê.
Eu sei que às vezes eu tenho estragar tudo e flutuar alto demais, pesada demais. Que às vezes eu peso no tom, peso na mão, ajo sem ter a menor razão. Mas é só porque é você quem resgata o meu balão pela cordinha antes de ficar inalcançável e amarra de novo no seu pulso pra não ter perigo de eu tentar sair voando de novo. É só porque você me ensina que paciência é mais do que o joguinho de celular que eu uso pra insônia.
E é só porque você é o melhor remédio pra insônia, tpm, crise existencial ou medo de escuro.

Pesquisar este blog

Seguidores