quinta-feira, 4 de março de 2010

maio de 2009

Sabe quando você tem a nítida impressão de ter esquecido alguma coisa importante antes de viajar?


Sabe quando você pensa em tudo que precisa pra ter certeza de que não esqueceu nada?


Sabe quando você faz uma lista imensa de tudo isso e só se lembra quando está saindo da cidade que esqueceu de fechar as janelas do quarto? A unica coisa que você não pode comprar quando chegar ao destino final. A única coisa que não tem como você resolver se não voltar pra casa.


E aí já é tarde, a viagem atrasa, todo mundo perde a paciencia só porque seu quarto tá tomando um arzinho de janela aberta.


Sabe quando você desce do carro e sente como se não tivesse descido? Sabe quando você vira as costas e reza, com toda a sua força religiosa que já nem é tão grande assim, pra que alguma coisa te faça olhar pra trás?


E você não olha. Porque nenhum braço te segurou, nenhuma voz te chamou e você continua indo, indo, indo até virar uma pessoa qualquer, no meio de tantas outras.


E pode ser que você seja só isso mesmo. Uma pessoa qualquer no meio de tantas outras. Todas iguais, com os mesmos cheiros, os mesmos gostos, os mesmos passos desastrados tropeçando na primeira mão estendida despretensiosamente.


Eu sempre fui fã da sua pretensão. Da sua falta de sentido e do seu gosto em não fazer o menor sentido.

E o que somo nós juntos, que não uma junção de partes completamente sem sentido que faz menos sentido ainda quando juntas. Daí vem um gosto ainda mais intenso pela falta de sentido.


Eu desci do carro e soube, no momento exato, que borrei a maquiagem. Os olhos que se encheram de lágrimas foram os mesmos que te beijaram sorrindo há 15 segundos. Não, eu não choro por dor, eu choro por manha. Por birra, por preguiça. Cansaço da vida, cansaço de sempre correr, correr, correr e parar no mesmo lugar.


Cansaço da vida que sempre cansa de mim.


É uma troca justa.


São turbilhões de palavras sendo vomitadas sem o menor sentido, tentando me fazer entender o que diabos eu ainda estou fazendo aqui. Eu não sei exatamente, mas tenho uma leve suspeita de que fui atraída por uma certa dose de perigo, insensatez e sexo maravilhosamente bem feito.


terça-feira, 2 de março de 2010

Esquisitice

Eu tinha 5 anos e ele tinha 7. Tinha uma mania de torcer o nariz a cada 2 segundos e tinha o cabelo mais preto e mais macio que eu já tinha visto nos longos 5 anos de existência. Ele sabia que eu era irmã do amiguinho dele da escola, mas achava que eu era só aquela menina esquisita que bate nos meninos e joga futebol sem a camiseta da escola. Eu até compus uma musica pra ele e fundei um fã clube. Acho que o nome dele era Guilherme.

Eu tinha 9 anos e concluí sozinha que existia sim amor à primeira vista. Eu não gostava de pentear o cabelo e a partir desse dia concluí, sozinha, que ele não ia querer namorar com uma menina esquisita de cabelo cheio de nó. Ele sabia que eu era a irmã do parceiro de futebol e, de vez em quando até falava comigo. Era eu que gaguejava, ficava vermelha, nervosa, perdia a minha paciência comigo mesma e gritava com ele, sem explicar nada. Sem pensar em nada.
Eu chorei quando descobri que ele namorava. Ele tinha uma namorada de 11 anos que era tudo que eu queria ser e tudo que meu irmão queria namorar.

Eu cresci 5 anos e, da noite pro dia, descobri que adorava um menino bobo de 19 anos, que até então eu não suportava. Ele gostava de me irritar e eu achava que ele era muito homem pra mim. Até que um dia ele me ofereceu uma bala de maçã verde e encostou a boca na minha. Eu tremi, perdi o chão, o ar, a fala. Ele achou que eu era esquisita e eu concluí, sozinha, que amar dava muito trabalho.

Foi a primeira vez que eu senti que podia ser de verdade. Que eu entendi que as coisas realmente aconteciam e bem diferentes das minhas idéias.

Nenhum príncipe encantado pro primeiro beijo. Uma noite bem fria e medo porque eu nunca mais ia ser igual.

Nenhuma declaração de amor, pedido de casamento. Nenhuma nuvem apoiando meus pés e nenhum, nenhum jeito de voltar e tentar fazer direito.

Foi a primeira vez que eu concluí, sozinha, que eu podia querer tudo, mas não queria poder tudo.
Porque tudo é muito e dá trabalho. Mas nada é vazio e não tem a menor graça.

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