sexta-feira, 16 de julho de 2010

O copo

E aí que todo final de semana é uma vida nova que começa e um final interminável que termina. E aí que todo dia é um sopro novo e um velho na janela embaçada do quarto. No espelho rabiscado do banheiro com batom vermelho. No copo quebrado no chão da cozinha. No choro descontrolado às 3 da manhã. Na ansiedade inexplicável de uma sexta feira qualquer. Na ânsia pelo velho, no medo pelo novo, no ontem e no amanhã.

Ainda não tinha passado da meia noite e Alice tinha a sensação de ter estado no mesmo dia por um mês inteiro. O medo dia acabar numa terrível noite de insônia sempre foi seu companheiro. Só dá lugar aos copos vazios e as mãos cheirando a cigarro. A combinação com gosto de fim. Alice sente medo de não conseguir e, por isso, prefere entorpecer sua mente.

Naquela noite não havia cigarros, mas havia um copo vazio. Uma mão trêmula, um pedido de ajuda. Um abraço talvez, um carinho, uma conversa sem sentido, um olhar no meio das janelas dos prédios ao redor do seu. Uma vez aprendeu que a pressão de um abraço diminui a pressão dos batimentos cardíacos. É um choque inicial na respiração ofegante que causa pânico e, logo depois, tranquilidade. Definitivamente Alice não precisava de toques sutis e afagos no cabelo. Precisava do corpo quente deitado sobre o seu enquanto as respirações se igualam naturalmente. Precisava da água quente correndo formando piscininhas entre um peito e outro. Da única escova de dentes na pia do banheiro cansada e manchada.

Fazia tanto frio que Alice até conseguia sentir calor. Seus pés precisavam tocar o chão levemente úmido pelo vapor quente da chaleira que fervia o chá. Ela olhou calmamente pra todas as janelas ainda acesas de frente pra cozinha. Concluiu milhões de coisas, esperou outras milhões acontecerem e contemplou o marasmo tranquilo e quieto de uma sexta feira fria. Segurou com força o copo em sua mão direita, questionando o que deveria realmente preenchê-lo. Acalmando sua respiração, parando seu coração.

Deitada no chão da cozinha ela contava todos os cacos de vidro espalhados. Ela e o copo vazio jogados pelos mesmos lugares, ocupando espaços até então desconhecidos. Esperando que alguém apareça para juntá-los. A manhã chega rápido quando se está aos pedaços. Agora são as janelas acesas ou apagadas que contemplam sua calmaria. Que desejam que milhões de coisas aconteçam e se contentam apenas em olhar, acompanhar, esperar.

Todos sempre querem um pedaço. Mas só o copo se divide literalmente.

Alice tem o gosto do sangue dos seus dedos na boca. O frio nos seus pés invade o corpo inteiro, mas ela ainda sente calor.

A chaleira faz toda a água virar o vapor que gruda nas janelas. Ela se lembra de quando era criança e desenhava no vidro do carro pra espantar os monstros que ficavam nas estradas. Eram curtos minutos de solidão que mais pareciam dias. Só Alice não crescera e o copo continua vazio.

Alice fechou os olhos assim que o dia amanheceu.
Mais uma noite.

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