terça-feira, 29 de setembro de 2009

Deixo pra amanhã

Então me diz o que é que eu posso te contar agora que você já não quer mais saber.

Eu já tentei tudo que eu podia pra você saber o que se passa aqui.

Pois é, não deu.

E agora onde é que eu vou achar inspiração pro que eu ainda preciso contar.

Eu vou contar o que eu descobri sem precisar correr atrás.

Sem precisar jogar as pedras lá do alto.

Eu só ouvi o que alguém gritou de lá.

E fui buscar sem esperar e sem pensar.

Achei.

Talvez eu não devesse mais andar aqui.

Talvez eu não devesse mais tentar fugir.

E se eu te pergunto, o que é que eu tô fazendo aqui?

Você sorri baixinho e não consegue mais me responder.

Pois é. Não deu.

E agora eu vou correr sem ter que olhar você atrás de mim.

Eu vou voando se precisar ir mais além.

Você fica aí esperando. Vai fechando as janelas pro vento não te derrubar.

Vai quebrando as esquinas pra vida não te superar.

Vai descendo aquela rua onde eu te encontrei pela última vez.

Vai deixando o tempo passar bem devagar. Eu tô chegando, pode me esperar.

Eu fico aqui esperando. Vou fechando as cortinas pra ninguém me ver passar.

Eu vou andando devagar sem precisar parar pra ver.

Vou dobrando as esquinas pra vida não me enganar.

Enquanto a vida vai passando, eu sento em cima das minhas mãos e encosto a cabeça no seu ombro.

Pois é, não deu.

Não deu, pois é.

Primeira vez da última sinceridade

Eu devia ter virado as costas pra você na nossa primeira vez. Devia ter deixado tudo aquilo jogado em cima da cama e saído em passos calmos e tranquilos.

Devia ter deixado em cima da mesa aquele último copo de cerveja e o cigarro, pela metade, queimando sozinho até chegar do filtro e cair dentro do cinzeiro e depois ir pro lixo, sozinho, sem ter sido tragado, sem ter sido respirado, sem ter sido usado.

Nosso amor foi uma coisa só nossa. Única e inagualável, sabe? Um cachorro quente sem tomate às 3 da manhã. Foi uma heineken gelada na quarta feira à noite depois de um dia inteiro de sol.

Era pra ter sido o porre daquela segunda feira com vodkas e cigarrinhos de menta. Será que a cerveja foi gelada demais?

Ou só sobrou a ressaca no dia seguinte?

Eu devia mesmo ter deixado o guardanapo cair e ter saído correndo enquanto você se abaixava pra pegar. Ou podia ter me abaixado sem você perceber e te encontrar na metade do caminho.
Nosso amor foi uma coisa que ninguém mais fez.

Que ninguém sabe explicar direito, sabe? Um big mc sem picles. Um bife acebolado sem cebola. É a batata frita e o milk shake. A combinação meio esquisita, igual iogurte e suco de limão.
Quanta maluquice, meu Deus do céu.

Eu sento na escada da faculdade sentindo o vento entupindo meus tímpanos e questionando o sapo morto no laguinho lá em baixo. Os ouvidos doem e o sapo continua morto.

Eu dirijo na chuva sem ligar o limpador na maior adrenalina de filme de terror.

A mocinha da estrada, o limpador quebrado. Nenhuma batata pra quebrar o galhou. Nenhum mocinho de camiseta molhada pra pedir carona e ensopar o carro.

Ah, quanta imaginação.

Eu ligo o limpador pra não bater o carro e tenho a sensação de enxergar o mundo pela primeira vez. É como se fosse o primeiro trago do primeiro cigarro do dia. A primeira vez do casal que acabou de se conhecer.

Ou se conhece há anos, não faz a menor diferença. O que muda é só a primeira vez.
Eu devia ter terminado com você depois da nossa primeira vez. E deixava aquela imagem imaculada daquele dia sem graça.

Eu devia ter deixado o copo em cima da mesa e não ter pedido mais uma cerveja. Não é arrependimento, é só curiosidade de mudar a história.

Não, não é dor de cotovelo. E também não é saudade.

É o começo do fim, da primeira história e a última, da certeza e da sentença. Da analogia e do estampado do muro.

Eu devia ter escrito isso tudo antes... eu devia ter querido tudo antes.

Eu devia ter começado do fim pela primeira vez.

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