terça-feira, 29 de setembro de 2009

Primeira vez da última sinceridade

Eu devia ter virado as costas pra você na nossa primeira vez. Devia ter deixado tudo aquilo jogado em cima da cama e saído em passos calmos e tranquilos.

Devia ter deixado em cima da mesa aquele último copo de cerveja e o cigarro, pela metade, queimando sozinho até chegar do filtro e cair dentro do cinzeiro e depois ir pro lixo, sozinho, sem ter sido tragado, sem ter sido respirado, sem ter sido usado.

Nosso amor foi uma coisa só nossa. Única e inagualável, sabe? Um cachorro quente sem tomate às 3 da manhã. Foi uma heineken gelada na quarta feira à noite depois de um dia inteiro de sol.

Era pra ter sido o porre daquela segunda feira com vodkas e cigarrinhos de menta. Será que a cerveja foi gelada demais?

Ou só sobrou a ressaca no dia seguinte?

Eu devia mesmo ter deixado o guardanapo cair e ter saído correndo enquanto você se abaixava pra pegar. Ou podia ter me abaixado sem você perceber e te encontrar na metade do caminho.
Nosso amor foi uma coisa que ninguém mais fez.

Que ninguém sabe explicar direito, sabe? Um big mc sem picles. Um bife acebolado sem cebola. É a batata frita e o milk shake. A combinação meio esquisita, igual iogurte e suco de limão.
Quanta maluquice, meu Deus do céu.

Eu sento na escada da faculdade sentindo o vento entupindo meus tímpanos e questionando o sapo morto no laguinho lá em baixo. Os ouvidos doem e o sapo continua morto.

Eu dirijo na chuva sem ligar o limpador na maior adrenalina de filme de terror.

A mocinha da estrada, o limpador quebrado. Nenhuma batata pra quebrar o galhou. Nenhum mocinho de camiseta molhada pra pedir carona e ensopar o carro.

Ah, quanta imaginação.

Eu ligo o limpador pra não bater o carro e tenho a sensação de enxergar o mundo pela primeira vez. É como se fosse o primeiro trago do primeiro cigarro do dia. A primeira vez do casal que acabou de se conhecer.

Ou se conhece há anos, não faz a menor diferença. O que muda é só a primeira vez.
Eu devia ter terminado com você depois da nossa primeira vez. E deixava aquela imagem imaculada daquele dia sem graça.

Eu devia ter deixado o copo em cima da mesa e não ter pedido mais uma cerveja. Não é arrependimento, é só curiosidade de mudar a história.

Não, não é dor de cotovelo. E também não é saudade.

É o começo do fim, da primeira história e a última, da certeza e da sentença. Da analogia e do estampado do muro.

Eu devia ter escrito isso tudo antes... eu devia ter querido tudo antes.

Eu devia ter começado do fim pela primeira vez.

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