sábado, 30 de maio de 2009

Nunca é tarde

Finalmente você abriu os olhos. Com cara de quem esconde o mundo. Você me olhava fundo nos olhos e eu podia sentir a tua tristeza entrando em mim. Eu podia sentir você me invadindo e eu não quero que você me invada, porque nada é tão claro aqui quanto você gostaria que fosse. Você fecha os olhos e se afasta, vai tão longe que eu não consigo te alcançar. Mesmo que eu vá, aos poucos, cobrindo você com todas as minhas celulas, você vai. E você demora pra voltar. Volta com os olhos molhados, com o rosto amassado, com a mesma tristeza escondida. Eu não consigo te fazer feliz. E isso é tão frustrante pra mim. Eu beijo a sua testa, eu digo o quanto acho você lindo, o quanto admiro todos os seus gominhos no lugar, o quanto desejo a sua boca, a sua vida. Eu seguro a sua mão, deito no seu peito, choro até cansar. Levanto, pulo na cama, pulo em você, beijo seu corpo inteiro. Abro as janelas, dou boa tarde pro sol, te encho com um entusiasmo falso, enquanto eu tento juntar forças pra ser... forte. Você continua de olhos fechados pro mundo, sonhando acordado com um passado que não é mais seu. Com um passado que continua lá, mas tão diferente, tão independente. E você caminha procurando os mesmos passos, as mesmas calçadas. Eu desvio seu caminho, mas você sempre cai no mesmo lugar. Você precisa passar pela mesma rua, conferindo o que eu ainda não sei, mas desconfio. Eu sorrio com toda a sinceridade em mim, danço com toda a minha falta de jeito, exibo minhas pernocas grandes demais, mostro todas as minhas conquistas, te divirto com o meu drama sem luxo. Pelo menos eu te faço rir um pouquinho e você quase consegue abrir os olhos pra outra direção. Eu to aqui, olha!

sexta-feira, 29 de maio de 2009

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Ai como o mundo gira. Como as coisas mudam. Tudo ao mesmo tempo. Agora. O tempo nos atropelando tic-tac, tic-tac, tic-tac. 5 horas. 7 e 30. 7 meses, 1 ano, 6 meses. E eu que achava que ia ser um ano tranquilo. Eu que pensei que nunca mais ia passar por isso. Eu que adorava fazer poses de adulta com quase 22 anos, agindo igual uma pré adolescente boboca descobrindo suas próprias limitações.
É porque a vida também prega umas peças esquisitas. Um dia amanhece o maior sol do mundo, fica tudo quentinho, tudo clarinho, tudo no diminutivinho. No outro amanhece um frio absurdo, faz os dedos do pé congelarem, o nariz e a garganta se fecharem pro resto do mundo. A expectativa faz o estômago dar um salto mortal a cada 5 minutos. O gosto de cigarro da noitada passada não permite sentir o cheiro de coisa nova chegando. E aí eu perco a chegada, chego atrasada e não respondo nem a chamada. Passou por mim e eu nem vi, tão rápido, tão morno. Enquanto eu desejo a panela fervendo. Eu não quero o mundo todo parado pra me ver chegando cada vez mais perto.
O mundo realmente não para. O tempo dá umas estagnadas de vez em quando, só pra voltar com força total depois e te provar que até os minutos podem ser crueis se você não souber como aproveitar.
Eu sei que tudo ainda vai mudar mais ainda. Eu ainda tenho os 22 anos pra fazer, ainda tenho um pouquinho de medo pra passar, a fé em Deus que se renova sempre que não tenho aquele desejado controle das coisas mais improváveis. Dessa vez é de verdade, não é por falta de coragem, nem de vontade. Talvez não minha.
Tenho areia nos meus olhos.
E continua fazendo tanto frio...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sooooooooo predictable

A musiquinha mais brega do mundo tocando no rádio, no caminho interminável até o outro lado da cidade. A menininha mais estúpida com o rosto colado no vidro do carro, embaçando a linda vista da rua estampada por carros, guardas-chuva, pessoas correndo, crianças gritando, velhas tropeçando nas calçadas mal projetadas de Curitiba.
Tudo parte de um clichê cansativo e mal elaborado. A menininha tonta, sem flor e sem poema, esperando que o mundo pare e qualquer menininho tonto, sem cavalo branco e sem dinheiro, venha correndo pra, talvez, fazer a chuva parar, um arco-íris aparecer. Tudo parte de uma melação enjoada e sem graça.
Não era mesmo pra ter graça, era pra aquecer o coração que já tá quase congelando. O frio penetra pelos buraquinhos da blusa de lã e atinge lugares que eu nem sabia que existiam. Sinto pulmão e coração geladinhos, tentando sobreviver.
Eu permaneço quieta a maior parte do tempo. O meu silêncio tem quase o gosto de uma sopa de letrinhas.
Ele grita de longe, ela finge que não ouve de primeira só pra não olhar de primeira. Mas o coração bate de primeira, segunda, terceira e não para mais. Ele corre um pouquinho só pra tirar os cabelos perfeitamente penteados do lugar. Só pra corar as bochechinhas e dar ainda mais destaque pros olhos perfeitamente azuis. Ele chega sorrindo, quase gargalhando. Ela engole o riso e veste uma pose de pura sedução e mistério. Ele não fala nada e derruba toda aquela armadura que ela veste desde o primeiro contato com o sexo oposto. Ela não sabe onde colocar as mãos. Ele continua rindo. Na certa nem notou tamanha falta de jeito.
Ele é o menininho tonto sem cavalo e sem dinheiro. Mas com todos os gominhos no lugar, todas as células sincronizadas, dançando em ritmo perfeito de calmaria.
Ela é a menininha tonta sem flor e sem poema. Mas com o coração acelerado, o peito cheio de nuvens e os olhos de borboleta. Ela pisca tão rápido que ele quase consegue sentir a brisa. Ela fala tão rápido que ele, mesmo sem entender, grava o som daquela voz.
Não era Eduardo e Monica, nem Romeu e Julieta, era só mais uma menininha tonta se rendendo a mais um menininho tonto por aí.
E a vida continua...

Não tem graça, né?

Eu não sei direito o que eu quero dizer.
A sensação de frio no estômago é irremediavelmente descritível. Eu prefiro tudo que é in, tudo que não dá pra explicar, tudo que a gente finge que sabe o que é, e consegue ficar confortável mesmo sabendo que não sabe nada. Porque, simplesmente, não tem explicação. Eu não gosto de saber o que é, sabe? Eu fico tentando encaixar em tudo e tudo parece grande demais pra caber aqui dentro. Eu abandono toda e qualquer sensação de relaxamento, só pra sentir o peito pulando cheio de formigas. Eu prefiro não saber o que fazer e me render, sem dó nem piedade ao nada. Eu prefiro saber que ninguém consegue ser inteiro e me contentar sendo só a metade. A metade de uma laranja, a metade de uma menina inteira, a metade de um ser humano. A outra metade é tudo que eu não sei explicar e fica guardado de baixo do cobertor.
O cobertor de pelinhos que me matava de alergia quando eu era pequena. Superei. E não sei como. Vê como é simples? Eu não sei e nem preciso saber, porque agora eu posso dormir com coberor de pelinhos e não morrer asfixiada no meu mundo sem ácaros.
Eu comi tomate cru esses dias e não morri. Tomei leite e não vomitei. Talvez eu seja um mutante, talvez eu nunca tenha tido intolerância à esses produtos. Talvez eu não tenha comido o suficiente pra revirar os olhos. E daí? Quem quer saber? Da próxima vez eu como se der vontade, senão eu deixo no prato por falta de coragem.
É assim que a minha vida é. Ou eu corro porque to com vontade, ou fico parada por falta de coragem. E é simples, não machuco ninguém e, quase sempre, saio vitoriosa, mesmo que não tenha ganhado nada. O fato de não perder já é uma vitória honrosa.
O som da chuva dá sono, mas eu não posso dormir porque preciso sair daqui exatos 20 minutos. Só de saber que é por isso, eu odeio tudo que se associa a iminente necessidade de sair na chuva. Nem que seja sono da beleza, nem que seja sono do descanso, nem que seja sono de fuga, de bela adormecida. Eu vou na chuva, caminhando e em silêncio.
Hoje acordei assim, meio esquisita, sabe como? Questionando a complexidade do mundo e me entretendo com um livro de auto ajuda para mulheres mal amadas e mal resolvidas. Qualquer semelhança é pura coincidência. É o que a autora do livro deveria dizer.
Quero que o mundo seja simples. Que a complexidade seja duvidável. Que o funk no rádio toque e eu saiba a letra inteira. Não há simplicidade maior no mundo do que as classes baixas dominando a indústria musical. Ninguém quer ser Chico Buarque, ninguém quer escrever e depois ter que interpretar. O mundo quer ser simples. Eu quero o mundo simples. Eu quero funk lá no morro, cerveja por 1 real, cigarro a 2 e 50. Sapato sem salto alto, maquiagem sem brilho, blusa de pelinhos quentinha sem alergia. Leite e tomate caminhando juntos, de mãos dadas. Eu com o peito aberto, enquanto todo mundo poe a mão e tira tudo que possa interessas. Sobrando, para mim, só o que é puro, simples e... sem gosto!

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