Eu não sei direito o que eu quero dizer.
A sensação de frio no estômago é irremediavelmente descritível. Eu prefiro tudo que é in, tudo que não dá pra explicar, tudo que a gente finge que sabe o que é, e consegue ficar confortável mesmo sabendo que não sabe nada. Porque, simplesmente, não tem explicação. Eu não gosto de saber o que é, sabe? Eu fico tentando encaixar em tudo e tudo parece grande demais pra caber aqui dentro. Eu abandono toda e qualquer sensação de relaxamento, só pra sentir o peito pulando cheio de formigas. Eu prefiro não saber o que fazer e me render, sem dó nem piedade ao nada. Eu prefiro saber que ninguém consegue ser inteiro e me contentar sendo só a metade. A metade de uma laranja, a metade de uma menina inteira, a metade de um ser humano. A outra metade é tudo que eu não sei explicar e fica guardado de baixo do cobertor.
O cobertor de pelinhos que me matava de alergia quando eu era pequena. Superei. E não sei como. Vê como é simples? Eu não sei e nem preciso saber, porque agora eu posso dormir com coberor de pelinhos e não morrer asfixiada no meu mundo sem ácaros.
Eu comi tomate cru esses dias e não morri. Tomei leite e não vomitei. Talvez eu seja um mutante, talvez eu nunca tenha tido intolerância à esses produtos. Talvez eu não tenha comido o suficiente pra revirar os olhos. E daí? Quem quer saber? Da próxima vez eu como se der vontade, senão eu deixo no prato por falta de coragem.
É assim que a minha vida é. Ou eu corro porque to com vontade, ou fico parada por falta de coragem. E é simples, não machuco ninguém e, quase sempre, saio vitoriosa, mesmo que não tenha ganhado nada. O fato de não perder já é uma vitória honrosa.
O som da chuva dá sono, mas eu não posso dormir porque preciso sair daqui exatos 20 minutos. Só de saber que é por isso, eu odeio tudo que se associa a iminente necessidade de sair na chuva. Nem que seja sono da beleza, nem que seja sono do descanso, nem que seja sono de fuga, de bela adormecida. Eu vou na chuva, caminhando e em silêncio.
Hoje acordei assim, meio esquisita, sabe como? Questionando a complexidade do mundo e me entretendo com um livro de auto ajuda para mulheres mal amadas e mal resolvidas. Qualquer semelhança é pura coincidência. É o que a autora do livro deveria dizer.
Quero que o mundo seja simples. Que a complexidade seja duvidável. Que o funk no rádio toque e eu saiba a letra inteira. Não há simplicidade maior no mundo do que as classes baixas dominando a indústria musical. Ninguém quer ser Chico Buarque, ninguém quer escrever e depois ter que interpretar. O mundo quer ser simples. Eu quero o mundo simples. Eu quero funk lá no morro, cerveja por 1 real, cigarro a 2 e 50. Sapato sem salto alto, maquiagem sem brilho, blusa de pelinhos quentinha sem alergia. Leite e tomate caminhando juntos, de mãos dadas. Eu com o peito aberto, enquanto todo mundo poe a mão e tira tudo que possa interessas. Sobrando, para mim, só o que é puro, simples e... sem gosto!
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