Já é a terceira vez que eu venho aqui só hoje pra tentar te dizer umas verdades. Eu engasgo com as verdades e te contos umas mentiras sem nexo só pra parecer que eu escrevo bonitinho. Eu nem sei se você me entende, mas eu sinto a maior necessidade de vir aqui te contar sobre tudo acontece. Eu queria que você "me lesse" e apertasse os olhos pra ler mais de perto, tentando compreender um pouco mais. Queria que você fechasse um pouco os olhos, com a mão direita sobre a boca, quase arrancando seu lábio inferior. E, ao final, você passa a mão no cabelo despenteado, rindo sozinho, dizendo "Essa menina é maluca." Com a sua maior pose de criança, descobrindo todas as coisas do mundo... de crianças.
Eu venho aqui pra te contar que a tarde de hoje arrasou comigo. Arrasou. Eu vi os pedaços de um filme no consultório médico que me fez esperar duas horas pra 15 minutos de consulta. Tinha esse cara no filme, o garçom que sempre sorria. Não contava os problemas dele pra ninguém, e todo mundo achava que ele era a pessoa mais feliz do mundo. As pessoas até questionavam o fato de não ter dinheiro, não ser casado, morar e viver sozinho, completamente sozinho. E, ainda assim, feliz. Ele não era tão feliz, ele chorava repetidas noites porque não conseguia se expressar. Esse era o seu pecado. Ele pagava um preço alto por não conseguir parar de sorrir e reclamar um pouco da vida. Vê como isso é perturbador? E quando ele foi tentar contar alguma coisa pessoal, alguém aproveitou a deixa, o assunto e contou coisas pessoais suas. O garçonzinho que servia gente feliz com amargura, se culpou por tentar se expor e achou que tava mesmo certo por guardar tudo aquilo pra ele mesmo.
Eu chorei um absurdo quando saí de lá. Eu que sempre desejo ser as mocinhas ou os mocinhos dos filmes, fiquei com medo de ser o garçom, uma pessoa feliz que servia a uma beleza triste.
Eu quase quis me abrir com a médica, mas ela tava usando um vestido vermelho que tirava minha atenção de toda e qualquer outra coisa em que eu pudesse querer pensar. Eu até esqueci daquela dor estranha que eu te contei esses dias. Acho que já passou. Ela não quis saber, talvez não tenha mesmo a menor importância. Por isso eu vim aqui contar pra você.
Acho que tudo começou com aquela música as 7 da manhã que me fez, meio dormindo, sonhar acordada com os minutos pré-adeus. E ela dizia mesmo que ia doer, eu que não acreditei, mesmo com aquela sensação estranha de ver o carro virando a última esquina ao alcance dos meus olhos, sabendo que vou esquecer a placa do carro e ele nunca mais vai fazer a volta.
Eu sou assim mesmo, eu recebo todos os sinais do universo, mas espero não aguentar mais andar por aqui pra tentar o outro lado. Preciso ir até o final pra ver se não encontro um pote de ouro no fim do arco-íris. Desde pequena me ensinam que quem espera sempre alcança, que no fim do tunel sempre existe uma luz e, finalmente, no final do arco-íris tem um pote de ouro. Eu ainda não sei as regras gramaticais e não sei mesmo se arco-íris tem ou não tem mais hífen. Tanto faz, assim como tanto faz se o pote tá lá ou não. Um dia eu descubro, eu podia até ir correndo, mas ando com uma preguiça imensa de atropelar as coisas, como costumava. Ando com preguiça de saber antes tudo que vai acontecer, nem a sinopse dos filmes eu leio mais. Não sei se é culpa sua, mas um pouco da espera, eu consegui acalmar.
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
ResponderExcluirO amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?
Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.
PS: O mundo é uma bola!