Quando eu era criança eu tinha um medo absurdo de morrer. Sentia a iminencia da morte em cada segundo. Tinha medo de não mais poder dormir na cama dos meus pais e morrer de medo, depois de morta. De não brincar mais com o irmão, de ser castigada por não ter sido a irmã que ele merecia. De alguém me perguntar porque eu fazia umas maldades de vez em quando e tinha medo de alguém cortar a minha cabeça, depois de morta. Minha mãe me explicava que eu não ia morrer, que eu tinha saúde, tinha comida, cobertor no frio, brinquedo, pai e mãe pra me cuidar. Eu não ia morrer, eu sabia disso. Mas só sentia que podia quando tava muito feliz. No natal com a família toda reunida, nas férias assistindo Jô Soares de madrugada no chão do quarto dos meus pais, torcendo pra chegar logo de manhã e ir pra praia. Nas vésperas de ir pra casa da vó assistir desenho no sol quentinho comendo pão com manteiga e leite sem nata. Era uma mania estúpida de me lembrar que aquele entusiasmo, aquela euforia ia durar pouco, porque logo tudo ia acabar. E tudo acabava. As férias na praia, o natal com os primos, os finais de semana na casa da vó. Eu não lidava bem com as perdas, mas a perda que doía mais era a minha própria perda. O meu medo de morrer.
Às vezes eu tinha uma coisa esquisita que fazia meu coração bater devagar mas muito forte. Eu parava de respirar por uns segundos só pra sentir as batidas socando o meu peito. E aí eu tinha a sensação de não ser eu. De não estar no meu corpo, de estar me vendo de fora. Uma sensação esquisita de não ser, de não pertencer, de não querer, de não poder. Uma sensaçao de não. Toda a negação para tudo na minha cabeça.
O cabelo não era meu, as atitudes não eram minhas. E, eu, do lado de fora, criticava tudo e sentia uma espécie de vergonha alheia. Era eu, de fora, me cobrando, de dentro. Eu tinha medo de não voltar ao normal e continuar me vendo de fora, mas sendo de dentro. Eu perdi essa capacidade de me retirar sem me ausentar, uma pena.
Depois de um tempo eu esqueci do medo de morrer e aprendi a dormir sozinha no meu próprio quarto escuro. Aprendi a ser toda as minhas partes separadas. Aprendi que o eu de fora era o mesmo eu de dentro. Talvez fosse uma auto crítica, uma auto análise, o reconhecimento de fora pra dentro.
Eu achava as outras crianças muito bobas porque não conseguiam entender o que eu falava e nem se esforçavam e nem me ouviam. Não pensavam sobre nada. Só perguntavam pras suas mães quando podiam voltar a brincar. E eu assumia a bronca do sindicato infantil reivindicando os direitos sobre o entendimento da vida e ninguém me dizia nada. Mas eu achava que todo mundo escondia um segredo enorme, talvez catastrófico, enigmático e eu só ia descobrir quando crescesse. Igual o war. É, o jogo, que ninguém me deixava brincar porque eu podia engolir as pecinhas. E eu achava que era o jogo mais legal do mundo, só porque eu só ia poder jogar depois de muitos anos, depois de muito grande.
Aí eu cresci e ninguém me contou nenhum segredo legal, nenhuma revelação seja de vida ou de morte. Eu fiz umas descobertas legais, tive umas idéias interessantes, aprendi outras nem tanto. Continuei listando perguntas a respeito da humanidade e suas manias, decidi estudar psicologia e, mais ou menos uma vez por vez tenho uma crisezinha de identidade que me faz desligar o celular e pensar demais.
Eu continuo achando as outras crianças muito bobas, elas só querem saber quando podem voltar a brincar e não entendem nada do que eu digo.
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