quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sexta feira

Era sexta feira. Era dia de cerveja. Era dia de deixar todo o resto de lado e beber o resto das cervejas. Todas elas, em pequenas porções ou de uma vez só. Isso vai do gosto de cada um.

Era dia de sair de mãos dadas e receber um beijo na testa. Alice sempre sente o estomago dando uma cambalhota quando alguém lhe beija o rosto com ternura. A ternura é quase excitante, é emocionante. Alice sorri seus olhos de virgula e a boca torta, esperando que o mundo retome seu rumo rápido, antes que ela caia no chão.

Segurava a mãe dele com força, enquanto ele repousava sua tranquilidade sobre o volante. Os caminhos sempre foram curtos, as histórias sempre foram longas, a vontade de não descer do carro, infinita.

No quinto copo de cerveja ela já ria alto, chamando a atenção de todas as pessoas ao redor. Adorava mostrar ao mundo que era feliz, desfilar sem culpa. As vezes até tropeçar no caminho para o banheiro. As vezes ate olhar pra trás e constatar o quanto era, realmente, feliz.

Ele. Ele era uma espécie nova. Um contentamento estranho no meio de um monte de inseguranças. 10 chopps da primeira vez fizeram com que ela tivesse certeza absoluta de que era ele. Nenhuma dúvida, só sobrou ele no mundo capaz de contar os copos, os contos, os segundos, as palavras, os minutos.

Alice sentia a cabeça rodar e o peito abrindo, sentada no banheiro contemplando dizeres estúpidos na porta arranhada. Apoiou-se na parede ao lado e choramingou com vergonha da solidão, do escuro, das meninas gritando enlouquecidas do lado de fora da sua portinha arranhada. O mundo deu uma parada por ali, voltou até a mesa, deu um suspiro profundo e voltou ao seu devido lugar.

- Coisa de mulherzinha chorar sozinha no banheiro. Coisa de mulherzinha chorar um pouco bêbada. Coisa de mulherzinha constatar que eu sou uma mulherzinha boba tentando me equilibrar no salto 12 que não saía da gaveta desde os 15 anos.

Borrou a maquiagem, o reflexo turvo no banheiro denunciava todo o conflito correndo nas suas veias azuladas. Voltou contando os passos, sorrindo sem aquelas máscaras, sem ajeitar o decote, sem frizar o olhar desajeitamente sedutor. Ele a viu chegar, pegou em sua mão devagar, perguntou se tava tudo bem e beijou-lhe a testa. Alice sempre sente-se completa quando alguém lhe beija com ternura.

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