sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Ainda dá tempo

- Ah, garoto. Você não faz idéia do que se passa aqui dentro. Você pode até fantasiar, imaginar, mas com certeza ainda não conseguiu adivinhar o que acontece quando eu fecho a porta e as cortinas.

Alice bateu a porta com firmeza, provocando um barulho delicadamente assustador. Seu convidado a esperava sentado em sua cama, esfregando uma mão na outra, disfarçando muito mal seu nervosismo.

Ele mantinha a respiração acelerada enquanto ela o fitava de pé, com um copo de whisky nas mãos, a maquiagem borrada e os pés sobre um salto alto cor de sangue.

Ela não seduzia um garoto assim há tanto tempo. Ele não sabia o que fazer, ela sorria e se divertia descaradamente às custas da sua falta de jeito.

Alice podia ensaiar um passos sem música, encher mais uma vez o seu copo, acender um cigarro. Podia logo tirar sua roupa no escuro e se juntar à timidez charmosa do garoto.

- Vez ou outra eu insisto em manter as cortinas abertas, mas, ainda assim, você não consegue ver. Eu poderia te contar em poucos minutos, resumindo uma grande história. Poderia até perder um pouco mais de tempo pra te contar sobre tudo, enquanto você, certamente, se pergunta por que você.

Ele tinha pouco a dizer. Há tempos sonhava com este momento. Há tempos não sentia o corpo de Alice sobre o seu. Há tempos imaginava, fantasiava tê-la de novo.

Ele não conseguia conter seus pensamentos sacanas enquanto ela, cheia de pose, só esperava o tempo passar sem pressa.

Curitiba é uma cidade cinza. As esquinas estão cheias de prostitutas e traficantes.

Alice anda ali pelo meio de olhos fechados e sai ilesa. Cumpre o papel que alguém lhe escreveu. Sente o esgoto da cidade nas pessoas que dobram com ela aquelas esquinas.

- À noite o céu é laranja. Dificilmente você consegue ver alguma estrela ou a lua e as pessoas adoram tentar adivinhar se no dia seguinte vai chover.

Alice abre a porta do quarto e sai. Ele a segue até uma esquina qualquer. Essa impulsividade sempre foi um defeito. Poucas coisas mudaram desde que ele a viu pela última vez. Ela tinha agora olhos cínicos e um discurso dissimulado.

Cada vez passos mais rápidos, nenhum dos dois dizia nenhuma palavra. Só se ouvia de longe os barulhos dos pés batendo no chão e as respirações ofegantes. Essa cena se repetia desde o início.

- Talvez elas vejam mais do que você. As pessoas aqui em volta.

Num misto de rebeldia caótica e medo, ela tenta não cair no chão. Derruba as chaves e passa a tatear o chão, arranhando os joelhos no asfalto. A posição favorece.

- Você pode até fantasiar, imaginar, mas com certeza ainda não conseguiu se mover.

Ele estende a mão. Alice se levanta sozinha e agradece com um abraço forte. Tira os sapatos e os dois voltam pra casa de mãos dadas.

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