Ela não tem medo de nada. Os olhos fixam no horizonte e as palavras vão entrando e saindo pelos ouvidos sem causar nenhum dano. Vez ou outra o coração acelera, as mãos tremem, mas tudo é disfarçado por uma imensa onda de tranquilidade. Ninguém nem acredita que agora ela só conversa. E só chora em último caso, nas situações mais extremas. Ela aprendeu a segurar o choro, contar as palavras, respirar fundo e contar até dez. Aprendizados intensivos concentrados em apostilas compactas nos últimos 6 meses.
Ela prefere não contar pra ninguém. Tudo é uma questão de tempo, você sabe tanto quanto eu que tudo isso vai passar. E se não passar? Ela se pergunta baixinho, como todas aquelas questões esquisitas que nunca ninguém responde. Com a cabeça jogada no travesseiro, nada mais parece ter explicação que caiba, que sirva, que sustente.
Ela sai de salto alto pela primeira vez em anos. Ataca de mulher sedutora com sombra azul nos olhos. Ninguém nota quando por baixo de toda a produção existe um poço fundo de incertezas que mancham qualquer passado bonito. O futuro não existe mesmo, não há o que discutir. Espera! Só quem pode saber sobre o futuro são suas projeções futuras, ninguém mais precisa saber, consegue ver? Ninguém precisa presumir o quanto vai ser promissor ou o quanto os travesseiros vão nadar em lágrimas. Ninguém.
Vive aqui. Do jeito que der. Tropeçando nas calçadas, quebrando o salto, mas com duas mãos pra segurar. Pra perder o medo de morte, o medo de frio, o medo de escuro. Pra chorar o tempo perdido, o tempo que ainda há pra se ganhar.
Você não sabe nada, menina burra. Você mete os pés pelas mãos e chuta o balde antes de terminar de encher. Você só sabe chorar. Você é tão burra!
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