segunda-feira, 30 de março de 2009

Eu sou feliz pra sempre

Eu quero a cóceguinha que as bolhinhas de champagne fazem no nariz. Quero jogar a taça pra trás no final do brinde, tapar os ouvidor e fazer aquela cara de "ai fodeu", esperando o barulho do cristal espatifando no chão. Quero olhar pra trás e comemorar dando pulos e gritinhos frenéticos, dançando de um lado pro outro com a minha saia rodada que levanta o maior vento no meio das minhas pernocas. Eu quero girar, girar, girar, ficar tonta, sair andando pela grama, cair no molhado, sujar a roupa nova e ficar com aquela cara de "ai fodeu", esperando a mãe brigar e puxar as orelhas. Quero morrer de fome num jantar de formatura que eu cheguei cedo demais e não deu tempo de fazer aquela boquinha. Quero comer com a sensação de que toda a comida do mundo vai acabar em 10 segundos e eu preciso comer tudo que conseguir. Quero deitar no sofá de barriga pra cima e ficar imaginando meu estômago respirando com a lingua de fora, morrendo de raiva porque eu sempre passo dos limites.
Quero passar a tarde inteira brincando de barbie, imaginando como deve ser a trepada de dois bonecos que não tem sexo, igual aos anjos. Quero questionar tudo pelo simples prazer de dizer "não". Só pra ver todo mundo ficando bravinho, perdendo o controle, esquecendo os argumentos convincentes que eu já tinha acreditado. Quero fazer cócegas nos pés de uma criança e morrer de rir com a carinha dela rosa, respirando com a lingua de fora, igual um filhotinho de cachorro.
Quero colocar 10 babaloos na boca de uma vez pra não conseguir mastigar e nem fazer bolinhas. Quero a coisa mais azeda do mundo pra sentir aquela pontada no final da lingua e os olhos enchendo de água, depois a sensação de ter a boca mais doce do mundo.
Quero quebrar uns brinquedos e pedir pra minha mãe comprar mais. Quero comprar uma bolsa nova porque as meninas da escola tem bolsas novas e eu cansei de ser brega com essa bolsa que foi da minha avó. Quero tirar vantagem de tudo e de todos. Dizer alto que a bolsa custou o dobro do que foi de verdade. Quero todo mundo olhando pra mim e eu me sentindo o ser humano mais querido da face da terra, esquecendo da culpa por ser feliz sem culpa.
Quero jogar na cara dos menininhos que não quiseram me namorar que agora eu tenho peitos e as menininhas podem até começar a me invejar. Porque além de peitos eu tenho cérebro. Dez a zero pra mim!
Eu quero correr até perder o fôlego e parar com as mãos apoiadas no joelho e sentir que o coração tá prestes a pular pela boca. Quero correr até sentir dor no baço, até ficar com a mão em cima dele e quase morrer de preguiça.
Eu quero achar o tal príncipe encantado que eu li uma vez numa historinha sem graça e sem sentido. Eu quero acreditar que isso existe e viver esperando na janela ele aparecer com uma versão moderna e motorizada do cavalo branco.
Eu quero morrer de preguiça, quero morrer de rir. Quero morrer de fome, de sono, fechar os olhos sem perceber, falar dormindo, sonhar acordada.
Quero dormir até meio dia, comer sem culpa, ser feliz sem culpa, amar sem culpa.
Eu quero ser feliz pra sempre!

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