quinta-feira, 30 de abril de 2009

Obrigada!

Eu te agradeço por sempre se emprestar um pouco pra mim. A gente não assina nenhum contrato nem combina a hora pra devolução, mas eu pego na sua mão e finjo que é minha. Respiro fundo e finjo que sou adulta. Eu saio catando todas as minhas roupas espalhadas pelo chão. Pego meu sutian suicída enquanto tento fazer você levantar da cama. Absurdamente animado com milhões de coisas maravilhosas que você lê ou escuta pela metade, querendo saber tudo ao mesmo tempo pra esquecer mais rápido e de uma vez. Querendo não saciar das coisas, pra caber mais do resto todo que nunca chega. Você tem a noção mais bonita de insuficiência e exagero que já vi. Você tem o desapego pós empolgação menos levado a sério que já vi. Mas isso tudo é escondido pelos seus olhos de desligamento. É quase desinteressante o seu funcionamento, não fosse tão digno de me emprestar um pouco de umidade pra secura que trago da rua. Eu passo a reparar em coisas que eu ainda não tinha visto. Você mantem um bronzeado de garoto de praia que não combina com quem mora na cidade cinza. Seu cabelo toma uma forma exata de desleixo que eu adoro. Você tem todos os gominhos no lugar. Eu preciso te chamar mais 3 vezes até você levantar. Eu quase preciso te vestir pra você lembrar que é hora de sair da cama. Eu vou te encher de beijos pra você acordar feliz e o relógio se adianta com a maior rapidez, me deixando afoita, aflita, sem ar, correndo como Alice no país das maravilhas. Só que você não combina nada com o coelho. E a gente sai por aí fingindo que amizade é o sentimento mais bonito do mundo. A gente sai de casa com cheiro de sexo barato e fuma um cigarro num ritual de cumplicidade e sigilo. Eu sei que você espera que eu seja sempre a mulher mais bem resolvida do mundo e, talvez, eu esteja crescendo e caminhando cheia de pose. E eu espero que você seja sempre a parte mais calma dos meus dias. Enquanto o mundo explode lá fora e eu me refugio dentro de você. Enquanto você fala do mundo como quem fala de um filho e eu escuto como quem ouve um poema. Eu olho pro mundo e assino um contrato de fidelidade com ele. Eu não vou pra lugar nenhum, desde que ele mantenha tudo exatamente no mesmo lugar. Eu não quero banquete, não quero motel de 2 andares. Quero pizza fria no café da manhã, água direto da garrafa, geladeira cheia de cerveja e nossas almas se tocando inquietas, enquanto a gente anda, anda, anda e sempre se encontra no mesmo lugar. E a Ana do futuro sabe que tudo isso vai acabar em breve. Sabe quando e como e até me contou alguns detalhes. Eu não sei porque mas não doeu saber. Eu até ensaiei umas lágrimas de abandono, mas elas não quiseram manchar a minha calmaria. Tudo corre tranquilo por aqui. Tudo se renova rapidamente, como quem pisca os olhos. E eu te digo adeus, rindo, enquanto você olha descaradamente meu decote e a gente sabe que não vai mais se ver.

Um comentário:

  1. E eu o via vindo
    Via o vazio e tragédia
    E me sentia como numa tempestade
    Tão longe
    Mas sabia que tinha que permanecer
    E sei quando estou maior
    Olho para trás e ainda sinto a dor
    Eu sei que me tornarei mais forte e sei que ficarei bem
    Pelo resto de meus dias
    Eu tenho visto dias melhores
    Eu notei as pequenas coisas
    Mas não notei as mudanças
    Estava quente de manhã
    Então ficou tão frio, era o fim do dia
    Não havia nenhuma condensação, eu apenas me sentia no espaço
    Eu precisei de meus amigos aqui e quando eu olho ao meu redor
    Vejo que eles desapareceram sem deixar algum rastro
    Eu tenho visto dias melhores
    Agora eu apenas comecei
    E ainda tenho muito ainda até o fim
    Não há nada que tenha se perdido
    Uma vez que foi colocado sobre as palmas de minhas mãos
    E todos esses tempos difíceis
    Dissiparam com a chuva
    Agora estou mais sábio, não posso esperar
    Até que eu possa ajudar meus amigos
    Eu tenho visto dias melhores

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