Eu sou um pedaço de gente de quase 22 anos que ainda tem medo de escuro e, de vez em quando, chora até quase se afogar. Eu tenho medos bobos e coragens absurdas. Gosto da melancolia de um dia de chuva, do tédio irremediável de um sábado a noite sem nada pra fazer. Gosto do barulho da caneta no papel iluminado por uma pequena luz. Gosto de me sentir quase cega tentando escrever no escuro. Escrever e pôr pra fora tudo que parece grande demais pra caber aqui dentro. Gosto das poucas luzes acesas de madrugada que eu vejo da minha janela. Do cheiro de noite, do gosto de noite, do silêncio ensurdecedor depois das 2 da manhã. Da minha insônia produtiva, ou, de vez em quando, me render aos prazeres da minha cama só pra deitar e rolar pensando na vida, no passado, no dia seguinte, no dia anterior. Gosto de olhar calendários antigos e lembrar das datas dos meus aniversários e tentar lembrar o que eu tava fazendo. Gosto também de olhar calendários futuros e me imaginar fazendo 30 anos.
Eu desfiz todos meus planos e não sigo nada do que eu queria ser. Na verdade eu não sou nada do que eu achei que seria e, por incrível que pareça, acho que sou bem mais legal assim.
Eu dou gargalhada de alegria e, logo depois, emendo num choro nada contido, de alívio ou de tensão, porque felicidade demais também me deixa frágil. Não, eu não achei os motivos, muito menos a razão e descobri, ainda, que viver não tem nada disso. Pra ser feliz, basta estar vivo. Eu ando a pé e desejo andar de carro com ar condicionado. Eu ando de carro e desejo andar a pé com o vento batendo no rosto.
Eu pinto as unhas de vermelho e interpreto uma personagem segura e cheia de confiança. Eu pinto as unhas de rosa desbotado e assumo características frágeis e dependentes. E o mais legal de tudo isso é que eu não sei exatamente com qual dos dois eu me pareço mais.
Eu gosto de ser egoísta e só pensar no meu umbigo de vez em quando. Eu gosto de ter a sensação que estou prestes a morrer de preguiça. Gosto do prazer de acordar as 2 da tarde, no meio da semana e deixar tudo pra “depois do almoço”. Gosto de ficar acordada sem fazer nada de madrugada, até quase morrer de sono e dormir babando. Odeio a sensação de areia nos olhos depois de chorar, odeio prender a respiração pra não chorar e sentir uma agulhada bem lá no fundo da garganta. Adoro me sentir vitoriosa depois de uma crise de identidade. Adoro ter 21 anos e ser tão mais bem resolvida que aos 15. As crises são leves, passageiras e eu tiro de letra. Mas, ainda assim, uma grande vitória.
Adoro me olhar no espelho e fingir que tenho os lábios da Angelina Jolie e a barriga da Shakira. Gosto da sensação de me sentir grande, não no tamanho, mas na intensidade de tudo aqui dentro. Gosto de cheiro de banho. Da sensação de deixar tudo ir embora pelo ralo do chuveiro. Da sensação de nascer de novo depois de um banho de mar. Gosto do vento batendo gelado que quase me congela com a cabeça pra fora do carro em movimento. Gosto de por a cabeça na janela, abrir a boca e gritar bem alto, enquanto o vento entra pela minha garganta
Gosto de entrar em pânico e sair do pânico. De gritar de medo, chorar de medo, e superar o medo. Ainda que a maioria dos meus medos seja insuperável.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
Pedaço de gente
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Gostei !!! Da maneira de como vc se encherga
ResponderExcluirComo a pessoa é dramática.
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