Eu deito na cama, ajeito o edredon com os botões pra cima. Tiro o pé direito do quentinho num movimento sempre calculado pra não descobrir o resto do corpo. Estico, alcanço o interruptor e, aí sim, posso apagar a luz. Não gosto da sensação de nada do escuro. A luz apaga e eu fico cega, não enxergo, não sinto. Continuo com os olhos bem abertos pra que as pupilas dilatem e eu enxergue alguns poucos detalhes.
Quando eu era criança, dividia o medo na hora de dormir entre o assassino daquela atriz da globo entrar pela minha janela, e o brinquedo assassino sair de trás da porta do meu quarto. Como minha cama ficava encostada na parede da janela, eu focava os olhos no teto e podia, atraves da minha visão periférica, conferir a porta e a janela ao mesmo tempo, impedindo que eles me pegassem de surpresa.
Eu só dormia quando não aguentava mais ficar de guarda.
Quando era um pouco menor tentava não dormir com medo de morrer dormindo e nem perceber. Às vezes eu tentava dormir mexendo um dedo pra ter certeza, quando eu acordasse, que continuava viva. Eu não sei exatamente qual é o sentido disso, mas, na minha pequena cabeça, era a garantia de continuar respirando.
Eu acreditava quando o irmão mais velho dizia que, para ressussitar, era só desmaiar depois de morrer. E eu rezava todos os dias pra ter essa sorte e quase chorava quando ficava em dúvida entre pedir por mim ou pelo irmão mentiroso. Eu tinha sensações esquisitas de, vez ou outra, achar que eu não existia de verdade.
Olhava, olhava, olhava e não conseguia me ver. Eu já tentei explicar um milhão de vezes, mas nunca ninguém entendeu mesmo. É uma coisa bem maluca.
Eu chorava com um medo absurdo de morrer, de ficar longe da minha mãe, sem dormir na cama do meu pai. Precisava da paciência interminável do meu pai pra me convencer que eu não ia morrer, que ele não ia deixar. E aí eu corria pra cama dele no meio da noite com medo que alguém me tirasse dali. Ele me encaixava grudada na barriga dele e eu chorava de alívio profundo da alma, porque ali eu sabia que ninguém conseguia chegar, só eu.
Eu aprendi as mentiras mais elaboradas nessa época. Um dia era o filme feio que não me deixou dormir. Outro dia era dor de barriga. No outro é porque só tava passando filme de morte na tv e todo mundo sabe que, quem tem medo de escuro, só dorme com a tv ligada.
Meu pai não questionava e perdia o sono só pra não me deixar ficar com medo.
Era um medo tão bobo que até hoje eu não consigo pensar em brinquedo assassino e passo longe dos filmes de terror. Eu repito o ritual pra apagar a luz do quarto com o pé, pra não precisar levantar e me locomover no escuro.
Quando eu preciso apagar a luz da cozinha de madrugada, eu venho correndo pro quarto com a nítida sensação de que tem alguém correndo atrás de mim, eu quase grito, eu quase me jogo no chão e me entrego, porque não tem nada mais desesperador do que fugir. Eu entro no quarto rápido, fecho a porta e fico olhando pra tudo por uns segundos. Eu imagino uma bolha em volta do meu apartamento e vários anjinhos da guarda. Eles ficam lá de prontidão, impedindo assaltos, sequestros, balas perdidas, terremotos e afins.
É incrível como mesmo questionando todas essas bobagens infantis, elas funcionam como as lendas de mãe, eu não consigo deixar de lado.
Sempre vou cumprir os mesmos rituais. Sempre vou gostar de escrever de madrugada quase morrendo de sono e quase cega com a luz apagada e o quarto todo iluminado pela luz do computador. Eu sempre vou querer aproveitar pra ficar acordada até tarde só pra poder ter sono no domingo de manhã. Eu sempre vou gostar da sensação de frio em casa num sábado a noite. Eu sempre vou gostar de reclamar da vida, fazer dramas, rir dos dramas, aconselhar os dramas alheios e continuar achando o meu mundo o melhor pra se viver.
imagina se você morasse sozinha! HAHAHAHAHHA
ResponderExcluireu sempre fui muito medrosa, e ainda sou. No primeiro dia de morar só eu chorei medo e só consegui dormir quando meus olhos não conseguiam mais ficar abertos. e eu em momentos de medos do mundo que tinha fora do meu apartamento no frio já cheguei a achar que eu era esquizofrênica. Estamos cada vez mais psicólogas. E sexta de balada topissimo e sabádo a noite no frio com brigadeiro não tem preço. ADOROOOOOOO!