Eu dediquei os meus dias pra digerir as suas inúmeras formas e para conseguir fechar o bendito ciclo que a mulher falou pra mim. Fechar o ciclo pra permitir que as coisas recomecem. Pular sem páraquedas e chegar bem no fundo do poço, pra esperar alguém jogar uma cordinha com um balde pra eu subir. E aí, quando eu voltar à superfície, todo aquele céu nublado e chuva fria terão se transformado em sombra e água fresca e todos os meus desejos serão realizados.
Basta acreditar, basta pedir, sem dizer a palavra "não", para "não" atrair coisas negativas. Igual o filme, que te encoraja a sempre dizer sim. Eu disse sim nas ocasiões erradas e o universo não conspirou a meu favor, não deu uma reviravolta hollywoodiana e eu não vivi feliz para sempre.
Nenhum amor impossível, nenhum casinho possível, nenhum você correndo com uma flor e um poema. Ou uma cerveja e um cigarro, marcando a nova geração de romances boêmios que eu adoro. Nenhum cabelo comprido voando, nenhuma chuva e danças nos postes de luz.
Nada...
Nenhuma mão pra grudar na minha e tatear o escuro desses dias turvos.
Todo esse tempo eu pude habitar o papel de amiga caminhando ao lado. Uma forma de ouvir por perto sua respiração pigarrenta que eu amo como se fosse o único sopro saudável do mundo. Eu permaneci assim e isso foi diferente. Imposível, mas suportável e feliz. Como os mortos que ficam em qualquer lugar, até mesmo em baixo da terra.
Morto não deseja e, por isso mesmo, permanece. Acho que seu desejo moreu e talvez o meu também, já que boa parte de tudo que eu sentia e sinto por você, vinha e venha da minha alegria em me sentir amada pelos meus próprios sonhos, ainda que eu não saiba exatamente o que isso significa.
Você encerrava em mim eu mesma, e era tudo uma loucura, como eu sentia, como eu queria explodir e rodopiar em mim até furar o chão como uma broca desgovernada e depois sair derrubando o mundo como o único peão que sabe a verdade e precisa chacoalhar seu entorno pra não enlouquecer sozinho.
Era uma loucura. Mas a morte, o fim, nós, andando calmos, ao lado um do outro, isso me permitiu estar de alguma forma sem querer habitar cada instante do estar e, para isso, me retirando o tempo todo. E isso pode ser viver, mas viver é terrível. E antes, quando eu não sabia viver e me sentia amada, era ainda mais terrível. Daí que sobra essa sensação de uma solidão filha da puta mil vezes pior, pois em nada dá pra ser com você, e eu aprendi a viver com você.
E tudo bem, não é você, nunca foi, mas escuta a maluquice: é que nada disso impede que eu ainda sinta um amor absurdo por você.
Eu entendi que você era o homem da cobertura de aço, inatingível e eu uma espécie rara de passarinho que tinha algum tipo de chave que se autodestruiria algum dia. Eu tinha que esperar, esperar, até o momento certo de chegar ao topo, de alcançar o seu andar e destruir a sua cobertura de aço, pra ver você por dentro, ter você inteiro.
E eu entendi também que agora que tinha chegado ali, só me restava pular, já que ninguém aguenta o alto tão alto muito tempo. A vertigem que era o nosso amor, o meu amor. Minhas olheiras, meu cansaço, meus cinquenta e sete quilos. Eu poderia morrer porque você tinha uma mão de carninha mais mole e isso impossibilitava, dia após dia, que eu vivesse sem sentir você o tempo todo.
Mas quem é mesmo que morre dessas coisas? Não, não podemos, com tanta coisa pra fazer, os meninos que aparecem de quinze a vinta dias, os bares, e almoços, as músicas, a dança, os estágios, escrever, tudo isso que é minha vida antes e depois de você.
Tudo isso que daqui a pouco, quando a sensação desgraçada de absurdo e solidão passar, tudo isso volta, se acomoda, a agenda mágica, o gostosinho no peito, esquecer você todo dia um pouco pra vida e todo dia muito pro dia.
Mas agora, hoje, guarda isso, eu amo demais você.
Por que escrevo? Porque é a minha vingança contra todas as palavras e sensações que morrem todos os dias mostrando pra gente que nada vale de nada.
Toma esse texto, o único lugar seguro e eterno pra gente.
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