domingo, 2 de agosto de 2009

A primeira noite

E os olhares se chocaram como numa batida de carros. Alice viu de relance uma luz forte e atribuiu à todos os clichês da vida moderna e às paixões à primeira vista. Ela sentiu o corpo todo esquentar inexplicavelmente no frio da noite Curitibana.

O rosto ficou vermelho na hora. Alguém na mesa percebeu, olhou em volta e perguntou sem parar qual era o motivo da vergonha. Ela riu sem graça e, por mais que quisesse entregar o ouro aos amigos lobos que adorariam devorar sua timidez com piadas o resto da noite, tinha medo que ele pudesse ler seus lábios.

Ele, o menino de sorriso branco e camiseta vermelha. Ele tinha a segurança que ela tanto admirava nos homens. Cheios de pose, de certezas, pra se revelarem meninos frágeis e sensíveis quando as luzes se apagavam, sem perder a força pra lhe jogar os braços na parede e erguer suas pernas.

Alice havia desligado o telefone há pouco. Era uma decisão difícil deixar todo o passado pra trás. Ela ainda secava umas duas lágrimas que passaram despercebidas. Sentia o coração palpitando e as mãos tremendo. E agora ficara meio cega com a combinação de vermelho e branco logo mais em sua frente.

Ele não havia notado o espírito calejado e a vontade de Alice de não sair do banheiro. Mas ele sabia que também poderia admirar uma mulher que mordia o canto da boca e franzia as sombrancelhas olhando pro nada, esperando que qualquer outro entrasse, menos ele. Talvez quem ela estivesse esperando ainda não tivesse nome, mas agora já ganhou até apelido.

O menino de sorriso branco e olhos assustadoramente verdes sorriu em sinal de cumplicidade à sua bebedeira e à qualquer outro sentimento que marcava a linha exata de contato entre os dois.
Alice respirou fundo e virou o resto do copo de vodka em cima da mesa. Acendeu um cigarro e vestiu aquela pose que fez com que ele risse.

Minutos depois ele dizia o quanto a pose de mulher perua e bem resolvida combinava com a sua falta de jeito e as pernas grandes demais pra ficarem em baixo da mesa como a maioria das mulheres faz.

Existia um ponto estratégico e comum para uma primeira conversa cheia de pretensões. Uma escada no meio do caminho. Um banheiro masculino estratégicamente posicionado ao lado do feminino e uma simples intenção de se levantar.

Ele disse que não sabia qual cantada barata usar porque ela parecia cansada demais pra ouvir. Ela riu e confessou que só ouvira "blá, blá, blá".

Alice sabia como descontrair uma primeira conversa. Alice sabia como seduzir um homem sem precisar se expor. Alice sabia mentir dizendo a verdade, sabia confundir tentando compreender.
Eles decidiram dividir uma mesa e os amigos. Dividiram mais que isso, cigarros, cervejas, vodkas, risadas, histórias. Eles tinham aproximadamente 22 anos de conversa pra colocar em dia e a noite parecia perfeita pra não acabar.

Eles trocaram telefones e um demorado beijo na boca assim que ela se virou pra se despedir de um dos amigos. Ele segurou firme sua nuca e ela soltou a cabeça em suas mãos. Ele beijou sua testa e a chamou de menina, andando de costas ao encontro dos amigos. Enquanto ela não soube o que dizer e acompanhava sua saída.

"Nunca mais vou ver esse homem na minha vida" disse ela baixinho.

Um comentário:

  1. Jamais.

    Como disse Raul, niunguém pode ser feliz tendo amado uma vez.

    uma brinde, à dor eterna.

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