Acordei com aquela bola de pêlo na garganta. Isso sempre acontece. Eu acordo tossindo como se fosse morrer sem ar, minha cara fica vermelha e eu fico tentando não chorar com medo pra não morrer de medo. Aí eu sento na cama e não sei se vibro por estar viva ou suplico um pouco de calma pra só "continuar vivendo".
Eu não me decidi por nenhuma das duas opções, mas também não chorei aquela dor que eu nunca sei de onde vem e não vai pra lugar nenhum.
Eu olhei pra tv e me enxerguei no reflexo, com a mesma cara de sono e calor de todas as noites mal dormidas e mal resolvidas. Aquela Ana da tv me encarou com uma frieza que eu nunca tive. Cheguei a duvidar e achar que era um espírito ou coisa do tipo. E ela só me perguntou "O que você tá esperando?", arriscando um papel de analista horrível e sem fundamento. Eu não respondi e ela perguntou de novo. E de novo. De novo.
Você está espernado o que??? Essa voz me perseguiu o resto da noite e o dia inteiro. Perseguindo tudo que eu fosse fazer. Aparecendo nas capas de revistas, letreiros luminosos no meio da pista, nas pichações dos muros no centro.
Ah, tantas coisas. Eu to espernado o dia vinte pra poder pagar uma dívida e adquirir uma nova. Tô esperando a sexta feira pra ir pra praia. Esperando a menina ligar pra marcar hora no dentista. Tô esperando me formar, ficar rica e sair de casa. Tô esperando paciência começar a ser vendida na farmácia pra ir cortar o cabelo e fazer as unhas.
Estou esperando chegar aos 40 pra me aposentar das atividades físicas e não morrer de peso na consciência. Tô esperando a novela nova começar.
Estou esperando alguém perceber que eu não sou surda e escuto aqui do lado sem poder fazer absolutamente nada. Tô esperando morrer de cansaço, de preguiça, de medo, de sono, de falta do que fazer.
Quando a minha mente naufraga demais, me refugio num teatrinho infantil que fica no meu coração. Fecho os olhos num ritual de criança, peço pro papai do céu me conceder pequenos 10 minutos com a mente vazia e o coração aberto. Lembro de um rosto qualquer, um lugar qualquer e sinto o quentinho da minha vida invadindo o resto do corpo.
Sinto a televisão ligando e a sensação de mais alguém no quarto quando eu to sozinha. Sinto a leveza da lbertação por nunca ter nascido, nunca ter saído do lugar e nunca ter errado tanto.
E eu subo num cavalinho branco esperando o vento bater na cara e a vida começar de novo.
E de que vale isso se eu não sei pra onde ir? De que vale essa merda toda?
Eu não sei o que eu ando esperando há tanto tempo.
E ela me perguntou de novo "Amor, é de amor que você tá falando?". É, é de amor.
É. Tudo em mim respondeu, fazendo o som do recuo já sem forças de uma onda que explodiu na minha cara. Ééééééééééééééééééééé. O uníssono da concordância, como é bonito o equilíbrio único de uma constatação puramente verdadeira. O sopro do que cala fundo inundando, trazendo a resposta para as partes mais esquecidas e longínquas do que somos.
Ééééééééééééééééééééééééééé.
Tô esperando o dia que isso vai passar. Isso aqui, que falo descarada e cifradamente, mas sempre. Isso que espalho em cada linha, o tempo todo, o muito peneirado ao longo desses dias todos, soando pouco mas sem parar, nos intervalos dos reais intervalos.
Tô esperando acabar, passar, morrer, sangrar até o fim. Esperando o tempo que acalma chamas com seus ventos de mil pés distantes. Esperando alguém que ocupe, distraia, desacorrente, solte, substitua, torne nada demais. Esperando não sentir mais ódio e nem tesão e nem ciúme e nem saudade. Esperando porque é o que resta mesmo, não é falta de coragem, não é de se fazer, é de se sentir e só.
Nem sempre a força de um amor é pra sair às ruas, pra viver histórias.
O meu precisa aprender a andar sozinho.
Nenhum comentário:
Postar um comentário