sábado, 27 de fevereiro de 2010

Buraco

Agora sobra um espaço enorme aqui entre a minha cama e a parede vermelha. Eu não sei o que fazer com esse pedaço sem vida, esse buraco que se instalou por aqui, eu não tenho nada pra substituir o que falta. Sobra um pedaço enorme entre a minha calça jeans e a minha barriga, porque a única coisa que me passa pela garganta é azeitona. Eu finalmente consegui emagrecer, dessa vez sem querer ficar linda pra você.

A falta e a saudade infantis que eu sinto todas as vezes que a televisão termina seus 30 minutos pra me fazer dormir e desliga, me fazem sentir o peso de 22 anos divididos em pequenas partes, que no fim vai dar aproximadamente 15 anos de maturidade e 50 de cansaço.

E aí, enquanto eu procuro o que fazer com o buraco que sobrou aqui, eu fico me lembrando de todo o resto que falta.

Finalmente eu posso andar descalça pela casa, dormir sem escovar os dentes, chorar até quase morrer de falta de ar e depois dar um grito de libertação pela janela. Agora eu posso sair do banho pelada e passar horas fingindo que o mundo apóia a nudez livre, não só os vizinhos do prédio da frente.

Posso fumar um cigarro atrás do outro e me contaminar com o cheiro de fumaça que fica em todas as minhas células. Posso tomar um copo de vodka pura e depois vomitar no banheiro enquanto meus olhos quase pulam pra fora. Enquanto o espelho denuncia a minha falta de jeito em viver sozinha e a minha falta de jeito em dividir essa solidão em duas partes iguais.

Talvez seja esse o problema, a minha parte tem que ser um pouco maior pra que eu não sinta o seu lado pesando mais que o meu.

Não tem mais seus olhos arregalados me encarando e me tirando a paz porque eu nunca soube o que você pensa quando franze de leve a sua testa e esquece de respirar.

Não tem mais a sua mania de tentar pegar tudo do mundo pra você e me deixar tremendo despressurizada do outro lado da cama. Não tem mais você me fazendo comer fora da cama. Agora eu posso dormir rolando em farelinhos de chocolate que devem até fazer bem pra pele.

Não tem mais você se obrigando a conseguir tudo, porque afinal, a vida não anda das mais fáceis pra você e você, sempre como um touro, tenta e acaba conseguindo tudo.

Seus olhos tão arregalados pra devorar, como um predador, pra se dar, pra correr atrás do que mata tanto desejo, pra conquistar o mundo com uma força que me faz ficar horas te olhando quase sem ar. Mas um pouco cego pra momentos cruciais de delicadeza e interpretação.

Os vencedores são mesmo um pouco egoístas e apesar de você ter me visto tanto e feito tanto e sido mais do que tanta gente que tentou bastante, é claro que a luz principal você deve guardar para o seu caminho que eu tenho certeza que será maravilhoso.

Olhar com amor dá mais trabalho do que olhar com pena. E eu acho que era assim que você me via, porque eu não conseguia te mostrar que eu conseguia ficar em pé sozinha. Que eu podia sim dirigir e subir rampas e tomar café de manhã e ser feliz sem culpa e desejar que o mundo inteiro seja feliz enquanto eu me engulo no escuro e espero você acender a luz.

Enquanto eu espero que você venha correndo e tente me convencer e consiga me convencer de que eu não sou louca porque não consigo fazer o que eu mais quero na vida. E você me diz com seu olhar quase fraternal que eu preciso tirar férias de mim mesma.

Não tem mais você rindo do jeito que eu falo, imitando o meu nervosismo e tirando sarro quando eu não aguentava mais de dor no peito, de dor na alma, de dor de dente, de falta de ar. E aí eu te dizia no escuro que eu sofria por ser feliz e você morria de rir porque nunca foi além do "ser feliz" no seu mundo trancado em gavetinhas que eu nunca consegui abrir.

Se você soubesse como eu estou agora. Agora eu sou um zumbi que tenta não fechar os olhos pra não imaginar o que fazer com aquele pedaço vazio. Andando por aí pegando seus detalhes, e doendo tanto que eu não sei por onde começar. Eu não quero começar, eu queria continuar. Eu não aguento mais começar, eu não quero, mas eu preciso.

Preciso voltar a responder aos emails com um pouco de graça, rir das pessoas que sofrem por amor, desejar uma dor de cotovelo pra cada menininha e menininho sem cérebro por aí que desfilam seus poços de segurança sem cair do salto, sem tropeçar e sem atropelar ninguém com pressa de viver.

Hoje eu consigo até entender cada um desses lados e quase paro pra perguntar onde é que eu compro um pouco de calma e como eu faço pra me equilibrar no salto sem cair.

Alguma coisa deu errado em mim, eu não sei te explicar e eu não sei como arrumar e nem sei se tem ajuda pra isso. Mas meu corpo inteiro se revolta quando gosto de alguém. Me armo inteira pra correr pra bem longe e pra lutar com unhas gigantes quem tentar impedir.

Me mata constatar como é ridículo ficar com saudade só de você ir tomar banho. Ter que sentir ciúme ou mágoa ou solidão e sorrir para não ser louca. Eu sinto de um tamanho que eu não tenho e então começo a adoecer, como sempre. Eu não sou louca, eu só não tenho pele pra proteger e quando você toca em mim eu sinto seus dedos e olhos e salivas deslizando por todos os meus órgãos. E você não precisa entender o medo que isso dá, mas talvez um dia possa ter carinho.

Ao final sobro eu aqui.

Me perdoe pelos meus mil anos à frente dos nossos segundos e pela saudade melancólica que eu senti o tempo todo mesmo sendo nossos primeiros momentos. Pela pressa na hora de me entregar. Pela maneira como eu grito e culpo quem tiver perto por uma angustia que sempre foi e será só minha e que eu sempre suporto mas quando sinto amor fico achando que posso distribuí-la um pouco, mesmo sabendo que é fatal.

Me desculpe por eu ter querido tanto ficar bonita e perfeita e só ter conseguido olheiras e ossos. Me perdoe pelas vezes que de tanto querer leveza acabei pesando a mão. De tanto querer sentir, pensei sobre como estava sentindo, e perdi o sentimento. Ou senti demais, sem pensar.

Me perdoa por eu querer de uma forma tão intensa tocar em você que te maltrato. Minha mão acostumada com um mundo de chatices e coisas feias fica tão gigante quando pode tocar algo lindo e puro como você, que sufoca, esmaga e estraçalha. Me perdoe pela loucura que é algo tão pequeno precisando de amor e ao mesmo tempo algo tão grande que expulsa o amor o tempo todo.

Enfim. Cansei de pedir desculpa por quem eu sou. Cansei de ouvir de todo mundo como é que se trabalha, se ama, se permanece, se constrói. Eu tentei com todas as forças amar você e agora sofro com todas as forças pelo buraco que ficou entre a cama, a parede vermelha e o meu coração.

Você foi embora e eu vou voltar a quicar por aí, por aqui.

E ficar me perguntando de novo para quem mesmo eu tenho que ser porque só tem graça ser para alguém. E que se foda o amor próprio.

Você me disse e me olhou de formas terríveis mas o que sobrou colado em cada parte do dia e de mim é a maneira como você sorri fechando os olhos e como eu gosto de você por isso, e por tudo, e mesmo quando é ruim, e sempre quando é incrível, e ainda é muito e por um bom tempo.

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