quarta-feira, 31 de março de 2010

Boa noite

As vezes você escuta simplesmente o que precisava ouvir. Pode ser alguém te dizendo o quanto admira seu trabalho, o quanto gosta do seu cabelo, como você fica bem naquela roupa que você jurava que te engordava. Pode ser um elogio prático, um incentivo, um apoio. Mas o melhor de tudo é quando alguém, que você nunca imaginou, te diz, meio sem jeito, o resumo, em poucas palavras, de tudo que você precisa ouvir a vida toda. Incrível como são poucas palavras pra fazer valer muito tempo.

Alice acordou com a cabeça girando, um pouco de dor e um forte gosto de ontem na boca. Não abriu os olhos e lembrou, quase gargalhando, de um detalhe interessante do dia anterior. Abriu os olhos e ainda era noite, a janela aberta fazia sua garganta secar. Levantou, apoiando todas as partes do corpo em todas as partes da cama, quase como um sacrifício. Percebeu, quase como sonha, que ele já havia acordado e sorria. Era sempre assim, dormiam antes das 10 da noite e acordavam as 4 da manhã sem sono. O dia rendia, a madrugava inspirava. O cheiro de noite era altamente aconchegante, mesmo que a cama não fosse macia e o quarto, irremidiavelmente frio.
Ele perguntou se ela estava bem, pois se mantivera com os olhos fechados, na mesma posição de fechar a janela. Ela acordou mais uma vez, deu-lhe um beijo na testa, desejou bom resto de noite, bom início de dia e os dois seguiram lembrando de tudo que haviam feito no dia e na noite anterior.

Alice colou seu nariz no vidro da janela, fazendo-o embaçar e permitindo que fizesse desenhos. Ela desenhou um coração, escreveu seu nome e o dele. Mostrou a ele e os dois riram do sentimentalismo que sempre tentavam evitar, mas sempre acabavam se rendendo. Ela estava apaixonada. Olhava quase hipnotizada pra ele que escrevia bobagens no lap top repousando no seu colo.

Ela notava e poetizava, dentro da sua cabeça, com direito a trilha sonora e camera lenta, todos os pedaços e todos os seus gestos. Ele respirava fundo, com a cabeça pendendo pro lado direito, mordendo o lábio inferior e resmungando coisas sem sentido algum. As vezes contava, entusiasmado, coisas que acabara de descobrir e arrancava de Alice longos e sinceros sorrisos.

A noite seguia, a manhã se aproximava. Alice, com seu filme passando na cabeça, respirou fundo e disse, sem esperar que ele se virasse para ela:

- Te amo!

Ele, sem olhar pro lado, afagou-lhe os cabelos, mexeu os lábios devagar, quase sorrindo. Seus olhos brilharam, sem que talvez ele mesmo pudesse ter percebido.
Mordeu fortemente o lábio, respirou fundo e puxou o rosto de Alice pra perto do dele. Ela foi beijando seu rosto, segurando seus braços, respirando o seu ar.

Ele pediu que ela lesse o que estivera escrevendo há poucos minutos.
Eram poucas linhas. Palavras sem pontuação, como quem escreve com pressa, com medo de voltar atrás, com medo de esquecer e apagar. Ele simulara um diálogo em que perguntava a ela se, no dia anterior, em meio a tantas pessoas, em meio a tantas cervejas, ela teria tido vontade de beijar alguém.

Ele mesmo respondera, lembrando de todas as pessoas que havia visto, que o que tinha já bastava.

Como se fosse muito, como se fosse mais do que precisava, como se fosse ainda melhor. Ainda mais do que quaisquer palavras ditas sem pensar, sem querer, sem esperar.

Não havia motivos para responder, não havia motivos para se arrepender e nem apagar.
Ele lhe deu um beijo na testa, lambeu sua boca e desligou o computador.

Um comentário:

  1. Continua sendo a Inspiração.

    Boa viagem Sardenta.

    "Quero que a estrada venha sempre até você, que o vento esteja sempre a seu favor. Quere que haja sempre uma cerveja em sua mão e que esteja ao seu lado..."

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