segunda-feira, 29 de março de 2010

Voltas e vindas

Ela caiu pro lado direito, com os braços ao lado do corpo. Respirou fundo tentando recuperar o fôlego sem parecer ofegante. Era só mais uma mania no meio de tantas outras, tentar não ser previsível em situações obvias. Nem que tentasse, ela simplesmente não conseguia evitar.

Olhou pro teto e questionou a existencia de um prego quase no canto. O que se pode pendurar no teto? Quadros? Redes? Algemas?

Lembrou logo onde estava quando ouviu a respiração fraca e interrompida dele ao seu lado. Ele também olhava pro teto, mas, certamente, questionando nada, pensando em nada. É uma qualidade admirável e exclusiva dos homens.

Ela fechou os olhos por dez segundos e começou a falar antes que perdesse a coragem. O escuro lhe causava grande desconforto, mas aí ela tinha que fugir pra alguma coisa menos angustiante pra esquecer do escuro, nesse caso, falar.

- Sabe quando você sente que comeu demais? E aí se joga de barriga pra cima no sofá, quase vomitando o mundo e fica se perguntando por que comeu tanto, se a sua fome acabou quando você ainda tava na metade. E ninguém te obrigou a comer o resto. E aí você não sabe porque fez aquilo, mas fez e agora já foi.

Ele não respondeu. Ela ficou na duvida se ele sequer teria ouvido. Olhava pro teto com a boca aberta com o olhar perdido nas pintinhas vermelhas do teto. Era um teto peculiar mesmo, ela quase se perdeu de novo.

- To me sentindo assim. Não por ter perdido a fome, mas por não saber o que eu vim fazer aqui e o que eu ainda to fazendo. Quase como uma culpa pós prazer. Uma falsa tentativa de se entregar ao prazer sem culpa, coisa que eu sempre tento, mas não consigo mais fazer. Consegue entender? Deve ser um tipo de maldição, um karma.

Ele levantou da cama sem olhar pro lado. Esticou seus braços pra cima, deixando seus gominhos aparecerem, todos perfeitamente no lugar, todas as células do seu corpo encaixadas, todos os seus músculos contraídos.

Ela se deixou perder por alguns segundos, deixando pra lá toda a bobagem de questionar os por ques da vida. Estava ali e pronto, e acabara de se lembrar fazendo o que. "Fazendo o que" várias vezes na madrugada. "Fazendo o que" deixando o vento gelado entrar e "fazendo o que" com dois braços imensos pra tapar o buraco vazio entre um espaço e outro na cama.

Ela viu a luz do poste da rua refletindo no seu rosto e lembrou do quanto se sabotava... sozinha. Enquanto buscava um relacionamento de verdade sem querer um anuncio de revista pra pendurar na parede, se deslumbrava com os olhos mais verdes que já tinha visto na vida, acendendo um cigarro na janela, mostrando o quanto é simples viver.

- Gata, você pensa demais. A vida é agora e só. Deixa o tempo passar e essa culpa toda passar. Um dia você vai aprender que tudo isso tá na sua cabeça e mais ninguém nota.

Disse isso enquanto o sopro da fumaça do seu cigarro formava um ponto de interrogação no ar e vinha encher a cabeça de idéias.

Ela respirou fundo, pensou em se enrolar no lençol mas lembrou que, há pouco tempo, adorava ficar nua. É que as coisas tomaram um rumo diferente. Ela não sabia desde quando e nem por que.

É que ela ainda não sabia se tinha crescido ou se tinha voltado uns 5 anos e estava tentando deixar de ser virgem outra vez.

Levantou, pegou um cigarro e beijou as costas largas em sua frente. Olhou pra trás e, se vendo no espelho, viu que ainda estava em ótima forma.
Um grande gole de um copo qualquer e um mergulho nos lençóis.
Assim...

Um comentário:

  1. A promiscuidade da personagem nos fatos que antecederam a brincadeira toda conflita com lógica pseudo intelectual que ela tem após o orgasmo, ou após o falso orgasmo. Faltou só um nome para essa moça. Ao gole no copo, ao sexo sem sentido e à péssima memória, um brinde.

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