terça-feira, 1 de março de 2011

Uma lembrança à nada

Faltava um pouco de inspiração. Faltava conseguir falar sobre alguma coisa qualquer. Faltava conseguir ultrapassar as duas linhas sem achar que era tudo uma bobagem sem sentido e apagar, sem ao menos ler de novo. Essa é a grande sacada, escrever e não ler, associações livres, vomitar palavras, desabafar, seja lá como prefiram chamar essa descarga carregada de energia e, ao mesmo tempo, tão pouco intensa. Faltava gritar alguma coisa bem alto, assumir o que pensava de verdade. Todos aqueles devaneios, todos aquelas sujeiras, toda aquela promiscuidade. Faltava ter vontade de pular pela janela, pintar as unhas de azul escuro, manter os olhos limpos e abertos, despertar de qualquer sonho e não deixar passar. Faltava um tapa na cara, uma engolida no seco, um copo inteiro virado de uma vez só. Faltava achar um tópico de discussão, exatamente no grau de formalidade que isso sugere, porque nada parecia mais propício. Faltava entender de direito, mostrar que é tudo um saco e que, de gente imbecil, o mundo tá cheio. Eu só não achei que minha vida também estivesse. Faltou um soco na cara no final do dia, as roupas jogadas no chão, o pedido de desculpas, os passos atrasados, o caminho de volta. Faltou compreensão, ajuda, apoio, carinho.
Faltava muita inspiração. Era uma teatro ensaiado, uma fala mal decorada, um papel que não cabia mesmo nesse lugar. Era uma novela sem graça, um seriado sem emoção, um apresentador de tevê sem voz, um filme sem tesão. Um caminho de volta sem conversas intermináveis, um reencontro sem abraço forte, um tropeço sem estender a mão. Foi um machucado no joelho quando não tinha band-aid em casa. Uma agulha no braço, lágrimas nos olhos e uma mensagem no celular. Muito medo e só duas mãos estendidas, entrelaçadas, amarradas, quentes, inseparáveis. Enquanto o copo não tinha mais fundo, os passos não tinham mais direção, os olhos não conseguiam se secar e o teto era branco demais.
Faltou confiança, desejo, esperança, vontade, vergonha. Faltou o olhar baixo e a sensação de coração mole, fragilizado. Cresceu uma vontade enorme de nunca mais voltar atrás, de nunca mais frequentar aquele lugar, de nunca mais procurar nada no fundo dos copos já vazios. Nunca mais preocupações desmedidas, nunca mais desculpas esfarrapadas pra não ir, pra não voltar. Nunca mais voltar aos 17 anos achando que assim os 30 permanecem mais distantes. Cresceu a vontade de chegar aos 30 com as descobertas dos 23, com as mãos que apoiam, as palavras que acolhem e os olhos que orientam.
De nada, tem-se tudo. Ainda que isso pareça vago demais.

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