quarta-feira, 25 de março de 2009
Bebemos demais
Bebemos demais. Perdemos a noção da hora, do perigo, do sossego. Do perigo do sossego naquela hora. Perdemos as rédeas da situação ou tomamos conta das vontades contidas e escondidas. Perdemos a fala, o ar, prendemos a respiração pra manter um pouco de oxigenio em pelo menos um dos pulmoes. Fechamos os olhos pra tudo parecer menos concreto, mais abstrato, menos real, mais intenso. A intenção não era essa, queriamos ter quebrado um muro que havia entre duas coisas tão parecidas, tão distantes e tão unidas. Quisemos sentir o gosto novo do pecado. Das mãos nada trêmulas, das certezas encontradas nos copos vazios e nos cigarros apagados pela metade. Quisemos provar o colorido do proibido. Do incontido, do prometido. Prometemos sentir apenas o gozo sem remorso, sem expectativas, sem esperanças e falsas promessas. Prometemos não gostar do beijo, não trocar olhares, não tocar as mãos. Enquanto os corpos se dilasseravam num prazer incontrolável, incontornável. Enquanto os olhos fantasiavam os segredos mais íntimos sem se render à intimidade. Sopramos palavras superficiais ao pé do ouvido, balbuciamos sem o menor sentido. Perdemos todo e qualquer sentido que havia no mundo.Sussurramos o passado inteiro até aquele exato momento. Deixamos pra que nossas projeções futuras soubessem exatamente o que fazer. Dobramos a primeira esquina sem acenar pra trás, sem olhar pra trás, sem voltar atrás. Deixamos as cicatrizes sem proteção e mesmo assim não nos machucamos mais. Cubrimos tudo que era feio, tudo que era cinza e deixamos transparecer apenas o que era sonho, desejo, paixão.Atravessamos uma linha muito tênue entre o desejo e o desejo. O desejo carnal e o desejo apaixonado. Deixamos que o universo conspirasse a nosso favor, trazendo toda e qualquer oportunidade a ser agarrada. Fomos de um lado ao outro, corremos sem os sapatos, sem as roupas, sem as máscaras. Caímos de costas na areia, molhamos os dois pés no mar. Entregamos o que tinha de mais puro e mais sujo um ao outro. Bebemos demais. Perdemos a noção da hora, perdemos a noção do perigo. Perdemos o sossego, o ar, as rédeas da situação. Perdemos o tempo que já era perdido e agarramos todos os segundos como se fossem os últimos das nossas vidas. Suspiramos na boca um do outro, percorremos caminhos tão diferentes. Exploramos pedaços nunca antes explorados. Cheiramos, beijamos, lambemos, sugamos, mordemos... amamos!
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