terça-feira, 21 de abril de 2009

À você

Você aparece como quem não quer nada e tira a estabilidade do meu momento. A estabilidade que eu achava que tinha, aquela com nome, sobrenome e data de chegada. Você chega como quem não quer nada, querendo tudo e me convence com a maior simplicidade de que a vida é mesmo uma "parada" muito simples, "tá ligada?". Eu to ligada, eu aprendi a deixar o futuro pra Ana de amanhã pensar, eu aprendi a não esquentar a cabeça e usar todos os meus argumentos pra te convencer de que tudo tem um propósito pra acontecer. E eu tentava de tudo quanto era jeito, não deixar você perceber que eu não tinha todo esse controle da vida.
Você só queria se esquentar, essa cidade é muito fria. Eu só queria me jogar de cabeça, essa cidade é muito grande.
Não sei se foi suficiente, se foi convicente, mas foi. E continuamos indo. Sem lenço, sem documento, pela areia da praia, pelo reflexo da noite no mar, pelas sombras do passado correndo ao nosso lado, pelo medo do futuro batendo na porta de meia em meia hora.
Passou. Respira fundo, eu sei que eu tenho medo de escuro, mas você tá aqui. Eu sei que eu quase morro sem ar as vezes, mas você tá aqui. Eu sei que eu quase esqueço, mas você tá aqui.
Ainda que você não tente mais me convencer de que a vida é simples. Ainda que a gente sinta mais medo, mais cansaço. Até parece que envelhecemos 10 anos. Até parece que o tempo passou mais rápido na verdade.
Aprendizado e crescimento compactados em um curso intensivo de férias. A gente aprendeu!
Aprendeu que não adianta deixar pro futuro, vez ou outra a gente tem que pensar. Mas aprendeu que não adianta também esquentar a cabeça agora, sendo que o pensamento vai ser inevitável qualquer hora. Não precisa agora, não. A gente pode apoiar a cabeça aqui e esperar o dia amanhecer, quem sabe a solução caia pela janela.
E caiu. Veio sombra e água fresca, piscina e música alta. Veio ar condicionado e cama de casal. Frio na barriga e ilha da magia. Veio serenidade, tranquilidade, suavidade.
Você apareceu com a sua cara de galã tímido de filme americano. Homem feito cheio de segurança, menino carente cheio de medo. Você me fez andar nas núvens, garoto.
E há quanto tempo eu não sabia o que era andar assim.
Você apareceu sem que eu pudesse me armar com todos os clichês, acalmou toda a minha espera, me ensinou, na marra, a ter paciência. Eu aprendi a respirar fundo e achar vida lá no fundo dos pulmões. A fazer o ar percorrer todos os pedacinhos e tirar aquela sensação de vazio profundo que tanto me atormentava.
Você lavou meu corpo, meu cabelo, minha alma. Deixou ir embora tudo era cinza. Você lavou minhas sarjetas com amaciante. E tudo não passou de uma reviravolta sem vinda, sem volta.
Eu não voltei, você voltou. A gente se perdeu um pouco no caminho, mas o caminho trilha pro mesmo lado, consegue ver?
Eu me dedico à você, sombra e luz.

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