quarta-feira, 13 de maio de 2009

Olhos verdes

Tem um telefone tocando aqui, não é o meu. Eu conheço esse nome, mas não lembro direito quem é o dono dele. Nem do telefone. Dá pra alguém atender aqui? Não? Não mesmo? Alô, tudo bem? É a Ana. Não, não sei se a gente se conhece, enfim. Acho que to te vendo, seus amigos sumiram daqui agora pouco, mas eu to te vendo, to com os braços erguidos, consegue ver? Oi, sou eu mesma. A maluca do telefone. É, eu também acho que a gente se conhece de algum lugar. Bom, você é amigo dos meus amigos, a gente já deve ter se esbarrado por aí. Familiar, bem familiar, seu rosto, sua voz, seu jeito. Não sei de onde, não sei quando. Que falta de memória. Será que ele tá mentindo? Será que ele lembra de mim mas não quer admitir porque eu não lembro? Mentira, eu sei quem é. Sei exatamente todas as duas vezes que nos encontramos anos atrás, sei o nome da mãe, da irmã, da cachorra. Grande, peluda, preta e branca com patas meio amareladas, muito pesada e muito babona. A mãe não, a cachorra. Eu lembro como se fosse ontem. Eu ainda era uma menina deslumbrada com o primeiro namorado, assustada pelo flerte discarado na frente de todo mundo enquanto a cachorra babava nas nossas pernas. Eu ainda era uma menina meio rebelde, meio com causa, meio esquisita. Usava umas roupas com aparencia de velha só porque o namoradinho da época achava bonitinho. Me aventurava pela vida com ele e achava que um dia ia carregar seus filhos na barriga. Graças a Deus as decisões mais importantes da vida não são tomadas aos 18 anos. Graças a Deus pai e mãe existem pra dar um peteleco na orelha e te fazer acordar. E agora você tá aqui, 4, 5 anos depois. E a gente pode, finalmente, conversar sem culpa. Como as coisas mudam com o passar dos anos. Eu já fiquei tão brava porque meus namoradinhos em potencial arrumavam namoradinhas reais, que chorava copiosamente com a maior dor de ciúmes do mundo. Eu culpava tanto o mundo por não me dar essa chance e disperdiçar com qualquer outra esquisita em forma de menina. Eu me culpava tanto por não ser o que eu deveria ser pra conquistar um dos namoradinhos babacas deslumbrados com a primeira namoradinha babaca e sem sal. E eu tinha sal, sempre tive. Sal e açucar combinados em doses iguais pra ninguém morrer hipoglicêmico e nem de pressão baixa. Hoje todos eles já terminavam, a gente até já engatou um romancezinho sem graça, mas acho que eles combinavam mesmo era com as esquisitinhas. Eu não tenho a menor vocação pra segunda opção, embora as vezes me satisfaça integralmente com esse posto. E agora... agora que já podemos conversar sem culpa, não tem a menor graça.

Um comentário:

  1. Amiga juro que mesmo sendo um drama, você tá me fazendo soltar gargalhadas, aqui, sozinha nesse enorme apartamento. O mundo gira...

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