quinta-feira, 14 de maio de 2009

Segunda feira, às nove da noite

Eu marquei um horário comigo mesma. Segunda feira às 9 noite. Depois que o estágio com os doentinhos terminar, depois da maratona Araucária-Curitiba, depois do estágio de humanidade no ônibus às 6 da tarde. Depois que eu resolver o problema do computador, depois que o encanador for embora. Depois do banho quente e demorado com o sabonete novo pra ocasiões especiais.
O cheiro de frutas vermelhas espalhado pelo banheiro tem um efeito quase hipnótico. Eu fecho os olhos e finjo que to num comercial brega de televisão tocando qualquer música clássica ao fundo, de preferencia com aquelas banheiras de espuma transbordando ou pedaços de seda escorregando pelas pernas perfeitamente depiladas.
Eu continuo com os olhos fechados e Mozart tocando lá no fundo. Eu chego a ficar na ponta dos pés e tento aquelas rodadinhas bichonas dos bailarinos.
Eu consigo não pensar em nada e acho a maior felicidade dentro do meu banheiro com cheiro de frutas vermelhas. Eu escrevo no box embaçado e finjo que tenho, de novo, 8 anos de idade. Falo sozinha, canto sozinha, conto os meus dramas pra minha platéia e escuto os conselhos que eu nunca quero seguir. Eu mudo o tom de voz pra ver como seria falar mais agudo, mais grave, com a acústica perfeita do banheiro cheio de vapor. Eu saio do banho e finjo que tenho os lábios da Angelina Jolie e a barriga na Shakira de frente pro espelho. Faço meu próprio ensaio sensual e vendo as minhas imagens pro meu espelho. Ele não reclama, paga bem e favorece meus peitos.
E segunda chegou, são oito e cinquenta da noite, tá quase na minha hora. Coloco Radiohead. If I could beeeee, who you wanteeeed. Apago todas as luzes. Vai, Ana, sofre. Você precisa sofrer um pouco. Vai. Você combinou que se daria pelo menos uns instante de luto pelo amor que morreu. Vamos lá. Uma lágrima. Um, dois, três e…e…e…ah, eu tenho mais o que fazer!

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