quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Yes, I do!

Viver dá um medo filha da puta. Esse medo passa quando você ouve um amigo que adorava viver no fundo poço, dizendo que encontrou o verdadeiro amor de sua vida e logo logo você será madrinha do casamento. Mentira, o medo não passa, fica ainda pior.
Você tem aquele casal de amigos que namora há 10 anos, acha lindo e estúpido não terem assinado os papéis ainda e dormirem em casas separadas desde o começo. Você pensa nos dois como dois macianos, anos luz na sua frente. Ainda demora pra começar a viver desse jeito, você pensa. Você tem certeza de que os dois envelheceram uns 15 anos no relacionamento e, por isso, você ainda tem alguns anos de vantagem até conhecer alguém, namorar, noivar e casar. É, se você for mulher, você vai querer namorar, noivar e depois casar.
Você tá lá escrevendo inutilidades ao mundo quando recebe um email daquele casal. Eles dormem em camas separadas mas dividem o mesmo email. Finalmente ficaram noivos. E vão comemorar junto com o aniversário dele de 25 anos. 25 anos e já vai casar.
O susto é maior quando você pensa que vai ao casamento solteira. Vai encontrar aquele monte de amigos solteiros elogiando o seu decote como se você tivesse envelhecido 90 anos, mas cultivasse o silicone. Vai ter algum desses estúpidos que vai te perguntar onde foi parar aquele último e fulminante amor que te tirou de órbita durante tanto tempo. Você vai rir e concordar com ele o quanto suas paixões são repentinas e superficiais tentando ser intensas e avassaladoras.
Ele vai te lembrar que você já amou metade do salão. E você vai lembrar de cada pedaço seu que cedeu em troca de um amor que nunca foi correspondido. Vai se sentir brega demais por estar lamentando ter ido sozinha e vai tentar umas duas vezes dar um murro no nariz do idiota que te fez começar a pensar nisso, mas ele, tão bebado, vai conseguir desviar e cair no chão sozinho.
Você vai dançar desprenteciosamente, torcendo pra tudo acabar logo e poder ir pra casa curtir a companhia da solidão do seu travesseiro. As músicas de casamento são todas animadoras e te fazem sentir no final de "O casamento do meu melhor amigo", no melhor estilo clichê romântico, amor proibido, que você adora! O que não falta são amigos gays e desilusões pra completar o filme.
Lá no meio daquele monte de gente derramando whisky e se deliciando com plumas e paetês, ele aparece com cara de galã tímido de filme americano. Aquele jeito de sorrir só o canto da boca que só ele sabe. Aquele jeito de olhar de cabeça baixa enquanto o mundo explode ao redor. As duas mãos no bolso e um convite irresistível pra dançar. O cabelo continua o mesmo, a voz continua a mesma. Parece a mesma pessoa que você guarda uma única foto junto com tantas outras em baixo da cama, varridas com a poeira pra não correr o risco de voltarem à tona. Uma foto amassada e desbotada, mas, ainda assim, uma foto. Uma única foto. Pequena e rasgada, mas, ainda assim, uma foto sua.
Você quase tinha esquecido aquele rosto, um véu branco cobria qualquer lembrança e a foto não ajudava a lembrar. Ele ajudou a lembrar. E trouxe com toda aquela pretensão todo o conforto que há muito você não conhecia.
O abraço durou horas. E quando voltaram a se olhar nos olhos, ele te disse:
- Ainda bem que você veio sozinha.
E aí você pôde entender mais um milhão de coisas que já tinha esquecido.

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