Era só um contato visual que fazia cócegas na boca do estômago. E eu odeio a boca do meu estômago e tudo que chega até ela.
É um caminho curto e instantâneo no meio da calmaria pacífica dos meus dias.
Mas dessa vez foi só uma cócega, nada sério.
A gente não tinha trocado nenhuma palavra mesmo. E ele passava de lá pra cá como quem desfila a soberania de um Rei.
Passos largos e firmes, mãos no bolso, cabeça levemente abaixada, permitindo somente e perfeitamente o ângulo exato pro contato visual. Fazendo o tipo de galã tímido de filme americano, o meu preferido.
Eu levanto a sombrancelha esquerda no truque que eu acabei de aprender, com um sorrisinho falsamente espontaneo, verdadeiramente ensaiado.
Quero dizer pra ele que to sacando toda a jogada e to adorando. Não há nada mais sedutor do que não saber o que fazer. Alguém já deve ter escrito isso em algum sábio livro de ajudas sentimentais.
O truque da sombrancelha pode ter várias repercusões. Ou ele pensa que eu sou estúpida, tenho algum problema nos músculos da face, ou, ainda, que eu me rendi completamente e não tenho nenhuma arma de fuga, nenhuma armadura, nem sorriso falso que disfarce o interesse.
Eu não olhei mais pra ele e continuei tomando minha água sem gás no meio de arrotos de cerveja e vodkas importadas. O mundo é fascinante.
Ele desaparece em questão de segundos. Eu aperto os olhos, aperto o canudo entre os dentes, faço cara de detetive e olho em todos os cantos.
Ele, bem perto do meu rosto, medindo todas as minhas feições esquisitas do momento da busca, diz com o sorriso mais idiota que eu já vi "Tô aqui".
Jogo entregue e não há mais nada que eu possa fazer.
"É, meu filho, eu também tô aqui... vamos acabar logo com essa palhaçada e vamos unir nossos canudos numa só garrafa de água?".
Ele ergue a sombrancelha esquerda, aperta os olhos, aperta o canudo entre os dentes e, em seguida, sorri falsa e tendenciosamente.
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