Escrever é um ritual. Tento, as vezes inutilmente, fazer sumir todo e qualquer pensamento pra que algumas coisas, mesmo que vomitadas vorazmente, façam algum sentido. As palavras vão vindo como numa explosão cerebral, vários pedacinhos espalhados. Talvez eles façam parte de uma rede entrelaçada de idéias que, juntas, fazem sentido. Deixando Freud de lado, deixando a teoria dos sistemas de lado, deixando toda e qualquer influencia acadêmica, quero ser inspirada pela minha própria vida e só.
Descobri, há muito tempo, que ir falando as palavras em voz alta me ajuda a manter a concentração e os pensamentos quase conseguem se manter em uma linha contínua.
O segundo passo é prender o cabelo. Toda franja e qualquer fio fora do lugar pode me fazer perder o pouco de paciência que eu armazeno.
Porta fechada, um pouco de silêncio e todas as expectativas e ansiedades controladas, fechadas dentro de uma caixa ou encaixadas junto com a bagunça em baixo da cama. Prestes a se jogar, a se libertar, a mostrar exatamente a que veio.
Os rituais fazem parte de quase todos os momentos memoráveis. Como quando naquela vez em que as cervejas começaram às 2 da tarde na beira de um lago, num parque verde e tranquilo. O primeiro gole foi com as primeiras perguntas meio sem propósito, risadas altas e pretensões escondidas, mascaradas. Nada sutilmente os goles foram aumentando e, assim, uma aproximação quase inevitável. É inevitável gostar de alguém. Posso gostar de todo mundo, desde que me tratem bem.
Dessa parte que me instiga, que me contraria, que faz defender os pontos de vista muitas vezes mal elaborados e pouco pensados. Que me fazem brigar por coisas que, até então, eu nem sabia que acreditava. Que me encorajam a dar a cara a tapa e admitir erros, as vezes fatais, as vezes infantis, as vezes fingindo só pra não perder a pose.
Eu aprendi a não ler o que eu to escrevendo pra ver se tá ficando bom. Assim como eu aprendi, desde pequena, a não medir as coisas conforme vão acontecendo pra ver se tá ficando bom.
O ritual seguiu. Cervejas, risadas, piadas, conversas, conselhos. Quando chegam nos conselhos as pessoas assinam um pacto de cumplicidade e compreensão. É claro que você entende, é claro que você já passou por isso, é claro que você quer o meu melhor, senão me mandaria fazer o contrário.
Quando alguém te aconselha a ser melhor, querendo mesmo que você seja, você entrega uns pontos meio sem perceber. Você acrescenta umas estrelinhas douradas no nome dessa pessoa lá no seu quadro de boas influêcias.
Cervejas, confissões, até dividir um cômodo pra dormir. A intimidade é acelerada, mas não deixa de fazer parte de um ritual. Nada acontece antes do que deveria, nada atropela etapas.
O sexo não acontece sem beijo. Pode acontecer uma penetração, uma vulgaridade. O sexo não, o sexo depende do beijo, da entrega, da sedução. A sedução vem antes do sexo, a entrega acontece meio atropelada, meio tropeçando, ao mesmo tempo... agora.
Finais de relacionamento aproximam todas as pessoas na mesma situação. É por isso que os grupos de ajuda funcionam tão bem. De novo, o contrato de cumplicidade, o pacto de compreensão, a ajuda, o conselho.
A expectativa cresce com quase tudo que está pra acontecer, ou não. Mesmo que as coisas precisem ser adiadas, a expectativa se mantém.
Como naquela vez, uma viagem meio sem propósito, meio de carona, quase não dando certo.
E, de novo, cervejas... outro pacto. E, de novo, cumplicidade, amizade, carinho.
Olho no olho,beijo na testa, aperto de mão, cabeça no ombro, confissões, admiração, declarações, intimidade, conselhos, conquistas, comemorações, aprendizados, conclusões, risadas, sorrisos...
expectativas.
Rituais que não seguem uma lógica. Nem uma razão.
ResponderExcluirNão é o mesmo ritual de colocar a mesa, ou de esperar o marido chegar à cama para deixar cair uma alça da roupa. É o ritual do imprevisível, do previsível, do simulacro, da projeção e da vontade. É o ritual sem rodeios. é o ritual de deixar que os dedos dedilhem o que lhes for mais propício.